Fundo Soberano ou instituição de caridade?

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Genericamente, os Fundos Soberanos são instrumentos financeiros que visam acautelar para as gerações vindouras os benefícios de riquezas provenientes de recursos naturais não renováveis. Quando o anunciou em 20 de novembro de 2008, o então presidente da República, José Eduardo dos Santos, disse que o futuro Fundo Soberano de Angola iria “promover o crescimento, a prosperidade e o desenvolvimento econômico e social de toda Angola”. 

Tão nobre propósito seria, porém, irremediavelmente desvirtuado quando o mesmo presidente José Eduardo dos Santos não resistiu, em 2013, à tentação do nepotismo. Sem que nada nem ninguém o previsse, ele decidiu nomear o seu filho, José Filomeno dos Santos, também conhecido por Zenu dos Santos, para a presidência do Fundo Soberano. Começou aí a deriva da instituição. Jean-Claude Bastos de Morais, um chico esperto que Zenu dos Santos foi descobrir sabe-se lá aonde – mas muito provavelmente no submundo do crime –  para o  ”auxiliar” logo transformou o Fundo num dreno do nosso dinheiro para as suas contas privadas.

Em boa verdade, Jean-Claude Bastos de Morais não fez apenas isso; ele transformou o Fundo numa extensão dos seus negócios particulares  perante o olhar complacente de Zenu dos Santos e a aprovação silenciosa do seu pai. Resultado: se em 2018 o Presidente João Lourenço não tivesse escorraçado o filho do ex-presidente e toda a sua equipa de ladrões, a esta hora não teria sobrado nos cofres do Fundo um único tostão para contar a história.

Mas se Zenu dos Santos doou literalmente o Fundo ao seu mentor Jean-Claude Bastos de Morais, com todas as consequências que conhecemos, a relação do Presidente João Lourenço com a instituição  também não está a ser lá essas coisas. Objectivamente, ele transformou o Fundo numa espécie de instituição de caridade, um coração de mãe, onde cabem todos –  os eleitos do sistema, of course.  É no Fundo Soberano onde tem encontrado poiso seguro quer aqueles que já deram o litro pelo país e até mesmo alguns que foram atropelados e engolidos pela incompetência.  

Depois de servir o país como seu  embaixador nas Nações Unidas, função que exerceu durante muitos anos,  quase aos 80 anos Ismael Martins  recebeu ordens para deixar Nova Iorque, mas não para o merecido repouso junto dos seus netos e bisnetos; Ismael Martins recebeu guia de marcha para o Fundo Soberano, onde foi generosamente contemplado  com o cargo de  administrador não executivo.

Mas o caso mais intrigante é o de Alcides Safeca.

Depois de pouco menos de 2 anos à testa do BPC, onde deixou uma folha de serviço deprimente, Alcides Safeca foi gratificado com o apetecível posto de administrador executivo do Fundo Soberano.

A administração de Alcides Safeca no BPC  também tem responsabilidade no enorme buraco  de mais de 27 mil milhões de kwanzas que o banco público enfrenta.

É caso para dizer que o Presidente João Lourenço também está a subverter o propósito do Fundo. Transformou-o numa instituição de caridade ou, como diria o inesquecível Aguiar dos Santos, no vale dos caídos, que era assim que o ex-presidente lidava com os incapazes ou inconvenientes: empurrava-os todos para as embaixadas , fossem eles capazes ou não.

Tendo fracassado redondamente na liderança do BPC, só mesmo a generosidade pode ter convencido o Presidente João Lourenço a acreditar que Alcides Safeca pode acertar as agulhas no Fundo.

Sucede, porém, que  essa bondade do Presidente João Lourenço tem um elevado custo para o país. Em outubro do ano passado, o jornalista Carlos Rosado de Carvalho escrevia que em 2015 cada administrador do Fundo ganhava em média 43,6mil dólares. Como a essa altura o Fundo tinha apenas três administradores, Rosado estimou que a folha salarial do Conselho de Administração batia os 130,8 dólares mensais.

Agora que o Presidente João Lourenço aumentou para 5 o número de administradores faça o leitor as suas próprias contas…