Os ziguezagues do PR

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João Lourenço elegeu o combate à corrupção e à impunidade como a marca deste seu primeiro mandato presidencial. 

O seu empenho pessoal nessa empreitada parece mesmo genuíno. As detenções, no inicio do seu mandato, de “peixes graúdos” como o ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, Zenu dos Santos, Jean-Claude Bastos de Morais e mais alguma arraia-miúda, transmitiram aos angolanos a mensagem de que a cruzada do Presidente da República era mesmo para ser tomada a peito.

Pela primeira vez, desde que este  país é governado pelo MPLA, emergiu alguém a dar o peito para vergar a corrupção, ou, pelo menos, reduzi-la a níveis “razoáveis”.

Concorreram, também, para essa renascida esperança, os sucessivos comunicados da PGR, com detalhes de crimes económicos praticados por vários dignitários do país.

Aos poucos, porém, a cruzada contra a corrupção e a impunidade vai desacelerando e com isso vai esfriando o entusiasmo popular.

A negociação com Jean-Claude Bastos e a sua consequente libertação foi uma machadada na luta contra a impunidade. Poderá alegar-se que ele devolveu o dinheiro do Fundo Soberano de que se tinha apropriado em conluio com o seu tutelado Zenu dos Santos, a quem o pai, o anterior Presidente da República, atribuiu, irresponsavelmente, o comando de um instrumento financeiro tão importante.

A cruzada contra a impunidade ficaria fortalecida se, apesar da devolução do dinheiro, o suíço-angolano fosse trancafiado na Cadeia Central de Luanda (CCL) para, como acontece com milhares de pilha galinhas angolanos, ver o sol aos quadrados durante uma boa e demorada temporada.

É paradoxal, mas a luta contra a impunidade por vezes encontra no próprio Presidente da República algum estorvo.

Por exemplo, quando em maio deste ano nomeou o actual Conselho de Administração da Sonangol e reconduziu Luís Maria, voluntária ou involuntariamente, João Lourenço pode ter transmitido a ideia de que, em Angola, o crime compensa. É que nessa altura, já meio mundo sabia que Luís Maria era associado ao esquema de corrupção, lavagem e branqueamento de dinheiro envolvendo o triângulo Sonair/Sonangol e a TAP, de que resultou o roubo ao nosso país de mais de 25 milhões de euros, 2.500.000.00 dos quais teriam ido aterrar directamente nos bolsos do actual administrador da Sonangol para a Logística.

Poder-se-á arguir que nessa altura Luís Maria não estava constituído em réu e muito menos julgado e condenado. Mas em situações como essa, as pessoas mais avisadas geralmente agem com prudência. Teria sido preferível deixar Luís Maria de fora do Conselho de Administração – a SNL tem muitas soluções internas – até ao pleno esclarecimento do caso.

De resto, o Presidente da República não se guiou pelo mesmo critério quando em outubro de 2017 pôs a andar o seu secretário para os Assuntos Económicos.

Carlos Panzo foi defenestrado da Presidência na sequência de uma denúncia proveniente da Confederação Helvética “sobre factos plenamente puníveis, nos termos do direito internacional”, em que o então assessor do PR estaria envolvido.

Ora, Luís Maria é suspeito de fazer parte de uma gangue que praticou “corrupção ativa com prejuízo no comércio internacional, branqueamento e falsificação de documentos”. É dessa acusação que o Ministério Público de Portugal deu ciência às autoridades angolanas.

Estamos diante de dois pesos e duas medidas?

Apostar as fichas em alguém suspeito de ter metido as manápulas no que é de todos não foi um bom recado. E como ficará a “cara” do Presidente se se provar que Luís Maria participou mesmo do golpe?