GPL e Odebrecht: um negócio pouco claro

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Em locais onde há dezenas de pontos de água, a Odebrecht, que está licenciada em Angola como construtora, regava escassos metros quadrados de jardins, inclusive os que estão defronte da sua sede e recebia largos milhões de dólares do GPL, num negócio cuja opacidade espanta qualquer um…  

O seco apresentado pelos jardins e relvados que entressacham os dois sentidos da Avenida Deolinda Rodrigues, no troço entre a Praça da Independência e a 7.ª Esquadra, assim como o trecho da Avenida Ho Chi Min entre o Largo Rio de Janeiro (na lateral do Hotel Fórum) e a mesma Praça deve-se à suspensão do trabalhos por parte da Odebrecht, empresa contratada pelo Governo da Província de Luanda (GPL) para regar e manter o verde desses espaços, segundo disse ao Correio Angolense  fonte da edilidade da capital.

De acordo com a nossa fonte, devido à falta de pagamentos, a empresa brasileira Odebrecht suspendeu recentemente os serviços que vinha prestando há já alguns anos, depois de haver trabalhado na condição de construtora civil na recuperação e alargamento dessas importantes vias da rede urbana de Luanda. A fonte não precisou o valor, mas estima que seja na ordem da dezena de milhões de dólares, em razão de a irrigação ser feita com mangueiras ligadas a camiões-cisternas, que ocupam uma das faixas e não poucas vezes embaraçam o já caótico trânsito da cidade. 

Além desses trechos que somam mais ou menos dois quilómetros, a Odebrecht é igualmente paga para fazer a manutenção dos jardins contíguos à sua sede em Talatona, zona nobre da capital angolana, entre outros espaços. 

Marginal de Luanda

Esse negócio tem estado a intrigar algumas figuras do novo elenco governativo de Luanda e não tarda a Inspecção do GPL vai debruçar-se sobre o assunto. Não só em razão dos montantes que envolve a transação, mas também pelo contra-senso que configura os seus contornos, a começar pelo facto de em qualquer das vias cuidadas pela Odebrecht haver postos de água de onde podia partir sistemas de rega bem mais baratos, um pouco à semelhança do que acontece nos países do golfo pérsico e arredores, onde a escassez de água faz-se sentir com crueldade.

“Há dezenas de pontos de águas nesse percurso e um pouco por toda a Luanda. A partir desses locais poderiam partir sistemas de rega que proporcionem uma gestão eficiente da água, podendo ser o gota-a-gota, o mini-aspersão ou o sub-superficial, dependendo dos espaços. O que não faz sentido é colocar um camião cisterna a calcorrear várias artérias da cidade para regar. Isso não existe em lado nenhum do Mundo, com exceção de Angola. É caricato”, disse um engenheiro agrônomo ao Correio Angolense, antes de questionar: “Alguém já viu um camião-cisterna a regar jardins em Paris, Lisboa, Nova Iorque ou mesmo Rio de Janeiro? Só pode ser negociata e da grande”.

Segundo o engenheiro do GPL, que pediu para não ser identificado por temer retaliações, na factura enviada mensalmente à tesouraria da edilidade luandense constavam itens como o combustível dos camiões-cisternas e a metragem cúbica de água. “O mais grave em tudo isso é que ninguém do governo provincial ficava no terreno para conferir quantos metros cúbicos de água eram efetivamente gastos, além de que as revisões periódicas dos meios estavam embutidas nos diversos itens das facturas”, fez notar o nosso interlocutor.

“Há alguma razão objectiva ou alguma lógica que seja o GPL a pagar a manutenção do jardim defronte à sede da Odebrecht? Alguma coisa não bate certo”, protestou o engenheiro que vimos citando. 

A Odebrecht tem jogado os seus tentáculos em vários ramos de negócio em Angola. Além dos diamantes – esteve no Consórcio Catoca – também foi “convocada” pelo GPL no consulado de Higino Carneiro (2016-2017) para integrar um grupo das seis supostas principais operadoras de resíduos sólidos da capital a fim de limpar a cidade. Mas, com os cofres a abarrotar de dinheiro vindo de todos os lados, a empresa brasileira permitiu-se ao luxo de declinar o convite, tendo-o feito provavelmente também por ter como área de actuação o Cazenga. 

Apesar de não dispor de meios próprios para o trabalho em causa, a Odebrecht já fez de operadora de resíduos sólidos na zona urbana da capital.