De regresso ao passado

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Este país já viveu episódios anedóticos como os ter o espaço aéreo fechado por horas quando JES embarcava ou desembarcava de qualquer viagem – fosse ela feita dentro ou fora das nossas fronteiras; este país, sobretudo Luanda, viu, amiúde, ruas fechadas ao trânsito sempre que o “Viajante” saía do palácio presidencial para ir à sede do seu partido ou a qualquer outro sítio; este país já viu guardas da Unidade de Segurança Presidencial em Viana e no Zango e provavelmente até em Caxito porque JES saiu da palácio e foi à Assembleia Nacional, um trajecto que outros líderes fariam de pé, mas que na época de JES era obrigatoriamente feito de carro, com longas meios de apoio – incluíam desde carros blindados, ambulâncias, além de muitos homens. Este país também já viu o troço da estrada nacional 230, que atravessa a cidade de Malange, totalmente fechada porque Manuel Vicente, à altura vice de JES encontrava-se na cidade. Ou seja, vivamos uma época em que até o cão do ministro também era ministro – como bem escreveu o imortal Uanhenga Xitu.

Pois então esses maus “ hábitos e costumes” que a todos os cidadãos decentes deste país causava repulsa era suposto terem morrido e sepultados no final do consulado do seu mentor.
Lamentavelmente, à saída de cena de JES não correspondeu uma mudança de hábitos e costumes.

Quando chegou ao trono do país, João Lourenço prometeu um novo paradigma para Angola. Esse paradigma compreendia o combate à corrupção, impunidade e a todos as violações dos direitos humanos. Nós, os eternamente optimistas, acreditamos que o novo paradigma anunciado pelo novo PR incluiria também o combate aos excessos de zelo, como o de misturar no mesmo saco a jornada de trabalho do PR com a do cidadão comum.
Sexta-feira passada quem transitou pela estrada nacional 100, que liga Luanda a Benguela, sentiu “nos ossos” que neste “departamento” a situação não evoluiu nada: automobilistas e camionistas foram forcados a parar há vários quilômetros da centralidade de Quibaula que o PR inaugurava naquele hora.


Este PR já não existe mais.

Ao Correio Angolense alguns automobilistas e camionistas disseram terem ficado imobilizados por mais de três ou mesmo quatro horas porque “ o Presidente da República estava a inaugurar uma centralidade que não fica a menos de dois quilómetros da EN 100”, segundo relato de um automobilista. Outro disse telefonicamente que as mais de três horas perdidas na barragem presidencial no Sumbe impediram-no de chegar a tempo de acompanhar o enterro de um familiar em Benguela. “ Quando cheguei já tinham enterrado. Perdi muito tempo naquela paragem”.
Do relato desse episódio extrai-se uma conclusão: aquele Presidente da Republica que em Dezembro de 2017 andou descontraidamente a passear com a esposa península do Mussulo não existe mais. Foi sequestrado. O PR que temos agora está a ser formatado no mesmo modelo do do seu antecessor; um homem que aparenta ter medo da população.

Mas um homem que parece também estar progressivamente a perder a memória: já se passa muito tempo desde que deixou de incluir no seu léxico o combate à bajulação.
Como perguntaria o meu amigo João de Almeida, o PR está “gostar” de ser adulado?