RNA: quando gerir é também negociar…

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Quando em novembro de 2017 um desconhecido caiu, qual paraquedista, na liderança do Conselho de Administração do grupo Radio Nacional de Angola (RNA), de seu nome Marcos António Quintino Lopes, foram enormes os receios – agora percebe-se que fundados – dos trabalhadores da estação pública quanto ao futuro da empresa. A “rádio”, como comumente os cidadãos se referem à emissora, é um órgão muito específico, que demanda conhecimento profundo e sensibilidade peculiar, algo que o novo líder parece não ter, a julgar pelo facto de estar a dirigir a nau exatamente de encontro à tormenta que se adivinha lá mais para a frente. 

Até ser nomeado, o PCA do grupo nunca havia entrado nas instalações da empresa que iria gerir. Nem para uma entrevista… De modo que, quando se apresentou aos trabalhadores entrava pela primeira vez no imponente edifício que já foi liderado por figuras importantes não só da história do jornalismo angolano, mas também da história recente de Angola. Falamos de Rui de Carvalho, Guilherme Mogas, César Barbosa e Adelino de Almeida, só para citar estes exemplos.

Para acalmar as hostes cépticas em relação ao desempenho do novo PCA da RNA, funcionários seniores do ministério da Comunicação Social diziam em conversas privadas que a emissora precisava de um bom gestor. Pela lógica das restantes nomeações, na perspectiva do anterior ministro, o grupo RNA não estava a ser bem gerido, estava muito mal. Foi por esta razão que terá indicado – diz-se que de forma indirecta – para a Rádio o nome do “gestor” Marcos Lopes, enquanto para os demais Órgãos de Comunicação Social (OCS) do Estado sugeriu a nomeação de jornalistas, sendo que dos três apenas um havia tido anteriormente experiência de gestão, no caso Vítor Silva, das Edições Novembro. 

Para propor o gestor que queria para o Grupo RNA, João Melo terá pedido o auxílio do Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República que indicou nada menos, nada mais que Marcos António Quintino Lopes, antigo secretário-geral do ministério da Mulher. “Bujão”, como é conhecido entre os “seus”, tem laços familiares de consanguinidade próxima com o Frederico Cardoso, de quem é sobrinho.

Sem sensibilidade para questões jornalísticas e técnicas atinentes à Rádio, o PCA terá agido como aprendeu na escola para buscar resultados (?). Cortes aqui, cortes acolá, cortes ali… Como se gerir uma empresa de comunicação fosse igual a administrar uma “janela aberta” ou um armazém de venda de cerveja. Como se lidar com o risco de perecimento de uma notícia fosse a mesma coisa que coordenar um qualquer programa de capacitação de mulheres rurais, do ministério donde ele é procedente. E isto, com todo o respeito que esse tipo de programa nos merece. Só assim, por exemplo, se entende que há muito a emissora não tem enviados especiais a eventos importantes onde Angola marca presença. Só assim se entende a paragem da emissão há meses por largos minutos porque mandou desinfestar a sala de emissores. Só assim se que entende tenha mandado cortar o salário do jornalista Paulo Miranda Júnior, quando este convalescia de grave doença profissional…     

A gestão de Marcos Lopes levou à ameaça de greve na RNA em julho passado. Curiosamente, a meio do ano também havia ameaça de greve na TPA, a emissora pública de TV, mas o jornalista (e não gestor) Francisco Mendes conseguiu evitar que a emissão parasse e não se falou mais no assunto. Desde já, porque quando trabalhadores de ambas as empresas iniciaram, em conjunto o movimento grevista, o antigo radialista e ex-director da TV Zimbo teve a fineza de receber, ele mesmo, o caderno reivindicativo entregue por elementos do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA) que o pretendiam fazer. Já o “gestor de mão cheia” indicado pelo tio mandou uma assessora do seu gabinete, de nome Paula, receber a demanda dos trabalhadores, o que foi considerado uma tremenda falta de respeito, uma desconsideração, uma afronta por sectores nada negligenciáveis da RNA. Isto quer dizer que gestão não é fazer contas – isto fazem as calculadoras e os computadores…

Ignorando (não se sabe se propositadamente ou por desconhecimento) que gestão é também saber negociar, Marcos Lopes não conseguiu fazer melhor que o seu vizinho de trás (leia-se, PCA da TPA). Pior: a sua soberba ou inépcia negocial, não se sabe, levou a que os trabalhadores declarassem greve, travada in-extremisapós intervenção de outros actores nas negociações. No decurso de todas essas conversações, os representantes dos trabalhadores entenderam que Marcos Lopes não era interlocutor válido e, por isso mesmo, decidiram que não mais tratavam com ele.

Descrito no ministério da Mulher como alguém que “gosta muito de dinheiro”, além dos automóveis top de gama, como os que mandou adquirir para o Conselho de Administração, aumentou de forma unilateral o seu ordenado mensal em quase 100%, enquanto jornalistas ganhavam pouco mais de 80 mil por mês. Aliás, donde saiu antes de cair naRNA, pode ter deixado algumas pontas soltas. Fala-se num negócio mal explicado com a empresa SINFIC e de automóveis Toyota “18 províncias” que seriam para os chefes de departamento do ministério e delegados províncias. Ele sabe do que falamos…

As sucessivas ameaças de greve que pairam sobre a Rádio Nacional de Angola (RNA) – primeiro em Julho último e depois a semana passada – vão levar à exoneração do presidente do conselho de administração da empresa, Marcos Lopes, segundo disse ao Correio Angolense fonte digna de crédito. 

Fazendo fé na nossa fonte, Marcos Lopes “Bujão” já não deverá passar o Natal no cargo.“O ministério da Comunicação Social já percebeu que o antigo secretário-geral do ministério da família e Promoção da Mulher é um «activo tóxico», na medida em que a relação com os trabalhadores, principalmente jornalistas, é de cortar à faca”,explicou a nossa fonte. 

Um sinal disso mesmo foi dado na última semana quando foi obrigado pelo ministério da Comunicação Social a reintegrar até sexta-feira próxima, 14, dezenas de trabalhadores em todo o país – em Luanda ronda a dezena e meia – que ele despediu arbitrariamente por alegada dupla efectividade. A maior parte desses trabalhadores dava aulas, além de trabalhar na RNA. E, de acordo com a Lei, para efeitos de dupla efectividade a actividade docente não conta, razão pela qual até o vice-presidente da República, Bornito de Sousa e juízes do Tribunal Supremo dão aulas.

A “intimação” para que Marcos Lopes chamasse de volta gente que despediu à margem da Lei aconteceu numa reunião realizada na última semana e dirigida pelo novo ministro da Comunicação Social, Nuno Carnaval. Nesse encontro em que esteve presente um representante do Sindicato dos Jornalistas, um especialista do ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social teve de explicar tim-tim por tim-tima o PCA da RNA como funciona figura da dupla efectividade – como é que um gestor não sabe disso?

Os trabalhadores a serem reintegrados receberão os seus salários correspondentes aos meses em que estiveram “despedidos”. De acordo com o que o Correio Angolense apurou, alguns “reintegrados”, aliás, devem avançar com processos judiciais contra a instituição, pedindo avultadas quantias em indemnizações por danos morais e de outra natureza. “O Estado pode ser lesado em muitos milhões de Kwanzas em indemnizações, por inépcia de um gestor. Se esses processos forem julgados procedentes, os valores a pagar não sairão seguramente dos bolsos do PCA. Temos de mudar o paradigma. Não devia ser a instituição a pagar, mas sim o gestor. Se assim fosse, não aconteceriam essas atrocidades”, disse um funcionário sénior da RNA que pediu para não ser identificado.

Outro sinal de que o “número 1” da RNA está por um fio foi o facto de as negociações da semana passada com o Sindicato terem sido já encabeçadas pelo ministério da Comunicação Social e não mais pelo Conselho de Administração da rádio pública, que o núcleo da RNA do Sindicato de Jornalistas deixou de considerar interlocutor válido. Só por isso, de resto, a greve não foi consumada.

O núcleo sindical da RNA reclama o incumprimento de alguns pontos do caderno reivindicativo apresentado em Março passado. De acordo com a fonte do Correio Angolense, foram cumpridos seis pontos do “caderno”, mas faltam, entre outras reivindicações, o seguro de saúde e os subsídios de chefia que, entretanto, os administradores e diretores já recebem há algum tempo, exactamente à boleia das exigências da comissão sindical.