Saltos mortais à volta de IS

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Controverso, o rápido e vertiginoso enriquecimento de Isabel dos Santos sempre dividiu as águas em Angola.

Nos primórdios de 2000, quando ela começou a evidenciar sinais inequívocos de enriquecimento, o que lhe valeu o pseudónimo de “Princesa”, a sociedade fracturou-se a respeito da origem desse enriquecimento. Enquanto os sectores mais lúcidos atribuíam o súbito enriquecimento a favores do pai, outros, nomeadamente os lambe-botas de José Eduardo dos Santos no MPLA e mesmo até fora dele, sustentavam que a dinheirama que Isabel dos Santos exibia mundo afora resultava, exclusivamente do seu empreendedorismo. No auge da adulação ao chefe da cleptocracia, um alto dirigente do MPLA, actualmente investido em elevadas funções de Estado, reputou de invejosos todos quantos questionavam a origem do dinheiro que drenava para os bolsos da Princesa.  

A origem da fortuna da filhinha de José Eduardo dos Santos continua a dividir os angolanos, mesmo depois que foram escancaradas verdades de há muito conhecidas pelos angolanos que não estão neste mundo só a ver navios. O que agora veio à tona é que a  “empresária” que administra “empresas há muito tempo, iniciando-as desde pequenas, formando-as, passando por todas as etapas necessárias para que uma empresa tenha êxito” foi sempre uma fantasia. 

A   “empresária” que sempre existiu é aquela que foi magistralmente caracterizada pela portuguesa Ana Gomes:  “É bonita, esperta, bem educada. Mas também é uma tremenda ladra do seu povo.”  Além  desses adjectivos, não é desajustado acrescentar qualificativos como  mentirosa, manipuladora e narcisista.

Não obstante todos os elementos que deixaram a rainha totalmente desnuda, está a emergir em Angola uma milícia pró-Isabel que não quer saber dos factos. Estranhamente, essa milícia é maioritariamente constituída por gente que antes verberava não apenas a Princesa mas, sobretudo o pai, pelos descarados privilégios que concedia à filha. Surgiu, também, uma outra milícia, essa constituída por indivíduos sem carácter. São sujeitos que há pouco mais de três anos sustentavam com garra a ideia de que a Sonangol naufragaria se José Eduardo dos Santos não tivesse a “genial” ideia de confiar a direcção da empresa à sua filha.

 Como ficou demonstrado até à saciedade no debate que a TPA promoveu esta semana, o “fenómeno” Isabel está  a provocar uma estonteante mudança de campo.

Vejamos, então, como se está a processar esse realinhamento.

Em Junho de 2016, um grupo de juristas, encabeçados por David Mendes,  formalizou junto da Procuradoria Geral da República uma queixa por improbidade pública à decisão do Presidente da República de nomear a filha Isabel dos Santos para a presidência do Conselho de Administração da Sonangol.  

David Mendes, presidente da Associação Mãos Livres, que lidera o grupo e fez a entrega do documento à PGR, também depositou uma carta no Tribunal Supremo a solicitar a impugnação do acto administrativo e uma carta de reclamação ao Presidente da República na qualidade de titular do poder Executivo. Os juristas dizem que a nomeação configura nepotismo e violação das leis vigentes.“É um facto inédito, há condições para se impugnar este acto administrativo, para que o Tribunal Supremo se pronuncie (…), esperemos agora que tenha eficácia juntos desses órgãos e também que a sociedade comece a compreender que é possível impugnar actos do Chefe do Governo”, disse o advogado. 

No dia 29 de Dezembro daquele mesmo ano, o Tribunal Supremo indeferiu a petição. 

“Decisão: Nestes termos e fundamentos, acordam os Juízes do Plenário  deste Tribunal em não conceder provimento à presente acção e, em consequência, declarar válido o acto de nomeação da  Engenheira Isabel dos Santos praticado pelo Titular do Poder Executivo, Engenheiro José Eduardo dos Santos”.

Isabel provoca o surgimento de duas milícias

Há duas semanas, num debate na MFM, David Mendes ufanava-se de ter lutado sozinho contra a nomeação de Isabel dos Santos. “Quando desencadeamos essa luta, muitos diziam que éramos malucos”, gabou-se. Por muito pouco ele não reclamou para si o pioneirismo da luta contra a corrupção em Angola. Por muito pouco!

Ora, no dia 21 de Janeiro, o mesmo David Mendes que reivindicou para si o movimento de contestação à nomeação de Isabel dos Santos postou no Facebook o seguinte texto:

“Acho que estamos todos a ser distraídos com Isabel. Este é um método maquiavélico. Como temos questões mais importantes como a fome, falta de emprego, autarquias e outros que eles não conseguem resolver, criam uma situação para distração. Quando é que foi feita a investigação? Quem pagou? Porquê que sou agora? 
Quando ousamos impugnar a nomeação de Isabel Dos Santos à PCA da SONANGOL, fomos chamados de anti-patriota, invejosos. A TPA até chamou especialista portugueses para a defender Isabel dos Santos, mas hoje como convêm manipular nossas mentes, Isabel dos Santos é a principal “rainha” negra no tabuleiro de xadrez. 
Isso demonstra que somos mesmo um povo especial. 
Somos facilmente manipuláveis”.

Ora bem: é coerente  afirmar que  “estamos  todos a ser distraídos com Isabel”  os actos praticados pelas autoridades do país visando recuperar activos subtraídos aos angolanos por Isabel dos Santos a coberto da improbidade pública e do nepotismo  repudiados  pela própria Associação Mãos Livres? David Mendes e correligionários não recorreram ao Supremo para impedir a nomeação de Isabel dos Santos. Então hoje tomar como “distracção” actos que visam reparar os danos que ela causou à Sonangol a coberto da umbrela que era o seu pai?

Por outro lado, quando a Associação Mãos Livres decidiu impugnar a nomeação de Isabel dos Santos  por ventura “questões mais importantes como a fome, falta de emprego, autarquias e outros” já tinham sido varridas da face de Angola. Se essas eram as questões mais importantes, porque razão a Associação Mãos Livres não foi ao Supremo impugnar o mandato de José Eduardo dos Santos já que ao longo de 38 anos mostrou-se confrangedoramente incapaz de dar solução a tais “questões mais importantes”?

A atordoante reviravolta de David Mendes e de outras tantas figuras bem conhecidas sugere uma de duas coisas: ou Isabel dos Santos está a injectar muito dinheiro por baixo da mesa – coisa em que não acredito que David Mendes embarcaria -ou, então, esses 180 graus são feitos por aquela turma do Só para Contrariar, ou seja, gente que faz da política na oposição um permanente exercício de negação de tudo quanto é feito pelas autoridades públicas.

Quanto aos que deram o salto mortal para este lado da barricada, o público já está a julgá-los “à vista desarmada”.