“Guerra civil” nas hostes de JES

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A eclosão do escândalo Luanda Leaks veio expor problemas que vão para lá do assalto aos recursos nacionais por parte de Isabel dos Santos.
O mote para esta exposição veio dela própria, que ao comentar para o Observador o seu relacionamento com os irmãos, Tchizé dos Santos e Coreon Du, disse que eram apenas “meios irmãos”, com os quais “não tinha uma relação próxima”.
Convém ir adiantado aos puritanos que não estaríamos aqui a falar de assuntos de  família, se a própria família não tivesse feito o favor de os converter em assuntos da nação. Isabel dos Santos não precisava de vir para a rua com uma selha e com peças interiores por lavar.
 A história ensina-nos que conversas de lavadeiras não se esgotam na primeira camisa. Vão até aos trajes interiores. A família, o pai sobretudo, não precisava disto.
Se no quesito de construção da família o pai não foi perfeito, de resto ninguém o é, IS devia tê-lo guardado para si. Todas as famílias têm makas de família e se tratando de roupa suja, a mesma deve ser lavada em casa.
O que se passou aqui foi que Isabel olhou para os (meio) irmãos com a mesma jactância com que olhava para os empregados do pai, isto é, assessores, ministros e por aí abaixo.

Deste insensível comentário resultou o pretexto para que dois dos seus (meio) irmãos lhe tratassem da mesma maneira .
Coreon Du, que reduziu quase a zero a sua condição de “jet-seter” ( pelo menos no espaço angolano) interrompeu o seu recolhimento para dizer o seguinte : ”não tenho qualquer interesse” em envolver-se em discussões sobre “a política de Angola ou qualquer forma de intriga política que envolva as suas instituições ou figuras”. Está à vista que Coreon Du disse à (meia) irmã… vira-te! Se a reacção dele não nos surpreende, pois ao contrário das irmãos sempre  preferiu a política do soft power, o mesmo não podemos dizer de Tchizé.
Apesar de todos os seus impulsos , surpreende-nos o facto de publicamente ter empurrado a irmã a fazer, o que quase todos esperam que faça: assumir o roubo e devolver a massa a que porfiadamente pôs mão.
A “bondade e boa fé” da proposta de Tchizé surpreende-nos porque não faz muito tempo era ela própria não se cansava de exaltar a capacidade empreendedora da (meia)irmã.  O que foi que mudou? O aperto do governo e o risco disso lhe chegar ao pêlo, ou o distanciamento imposto pela (meia) irmã? Desta vez a Tchizé surpreendeu-nos.

Surpreendeu-nos, também, porque Tchizé não se ficou apenas pela proposta. Ela admitiu que o dinheiro da (meia) irmã não é totalmente lícito.  Ao afirmar que “mesmo que o dinheiro fosse todo lícito”, Tchizé abre uma extensa via expressa para as mais variadas interpretações e deixa de rastos a narrativa de Isabel dos Santos segundo a qual a sua carreira de “sucesso” foi construída graças ao seu “carácter, inteligência, capacidade de trabalho e perseverança”.

Em suma, nos dias que correm, o câncer de próstata que o apoquenta em Barcelona está longe de ser a principal preocupação de José Eduardo dos Santos. A causa das insónias e suores frios está na “guerra civil” que se instalou na sua própria família.

A esta altura dos acontecimentos, José Eduardo dos Santos já estará certamente de acordo com a máxima segundo a qual o dinheiro não compra tudo.