Quem cala consente?

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Uma semana depois, o director do gabinete do Presidente da República ainda não reagiu publicamente à acusação de que se perfilaria entre “os maiores corruptos do país”.
Na passada terça-feira, 24, a docente universitária Maria Luísa Abrantes (Milucha) aproveitou o espaço “Debate Livre”, da TV Zimbo, para desferir um grave ataque a Edeltrudes Costa, director do gabinete do Presidente da República.
Maria Luísa Abrantes, jurista, com especialização em Direito Económico e Financeiro, Herlander Napoleão, especialista em Relações Internacionais, e Carlos Rosado de Carvalho, economista, foram convidados ao programa “Debate Livre”, conduzido por Amílcar Xavier, para reflectirem sobre o Impacto e Dimensão do Novo Coronavírus na Economia Nacional.
Mas antes de se atear ao que ia, Milucha desviou o curso do debate para o que pareceu ser a sua própria agenda: o ataque a Edeltrudes Costa, um dos pilares do Executivo do Presidente João Lourenço, a quem se referiu como “um dos maiores corruptos” do país.
Depois de haver conduzido o debate a um caminho que levou o moderador à óbvia constatação de que José Eduardo dos Santos, o ex-presidente da República, perdeu o combate contra a corrupção em Angola, Milucha começou por concordar com o que ouvira, mas logo de seguida disparou: “nem o antigo presidente nem o novo. Logo de início já estão a começar. Lamentavelmente, ele (Presidente João Lourenço está muito mal rodeado, a começar pelo director de gabinete dele, que é um grande corrupto”.
À pergunta sobre se tinha a certeza do que acabara de dizer, Milucha foi enfática: “absoluta!”
Uma semana depois da “bárbara agressão”, não há notícia de que o director do gabinete de João Lourenço tenha manifestado qualquer intenção de limpar e enxaguar a honra tão duramente agredida em praça pública.
Observadores ouvidos pelo Correio Angolense disseram que o silêncio de Edeltrudes Costa pode suscitar, pelo menos, duas interpretações: ou não tem como rebater a grave acusação ou teme que, fazendo-o, possa dar a Milucha motivos para ir mais a fundo já que no debate da Zimbo ela jurou ter provas da acusação que fez.
Na sabedoria africana diz-se que quem cala consente.
“A segurança com que se tem referido ao director do gabinete de João Lourenço sugere que Milucha pode não estar a falar apenas da boca para fora”, alertou um observador.
Segundo esse observador, Milucha pode eventualmente ter informações que nunca chegaram a público.
Em Setembro de 2016, José Eduardo dos Santos exonerou Edeltrudes Costa da função de ministro de Estado e chefe da Casa Civil. O ex-presidente nunca explicou as razões da sua decisão.
Mãe de dois filhos de José Eduardo dos Santos, Maria Luísa Abrantes pode, eventualmente, estar a par das razões que levaram o então Presidente da República a abrir mão de um dos seus principais colaboradores.
Pouco antes da tomada de posse de João Lourenço, correram informações segundo as quais José Eduardo dos Santos teria enviado sinais discretos ao seu sucessor desencorajando-o de dar a Edeltrudes Costa outra oportunidade no governo que estava então em construção. Um ano depois, exatamente em Setembro de 2017, Edeltrudes Costa foi a primeira pessoa a ser nomeada por João Lourenço. Com a categoria de ministro, Edeltrudes foi nomeado para o cargo de director do gabinete do Presidente da República.
No princípio deste ano vieram à superfície revelações de que, no exercício da função de Chefe da Casa Civil de José Eduardo dos Santos, Edeltrudes Costa viu “desembarcar” na sua conta bancária no Banco Africano de Investimento a “módica” quantia de quase 17 milhões de dólares. Pouco tempo depois, “aterraram” na mesma conta outros 5 milhões de dólares. O beneficiário disse, apenas, que os milionários depósitos resultaram da sua atividade privada enquanto advogado. A Procuradoria Geral da República não se deu ao trabalho de investigar a origem do dinheiro porque não enxergou ali qualquer indício de irregularidade. Também o novo Presidente da República não se mostrou incomodado com o facto de o director do seu gabinete ter no seu “portfólio” a recepção de dinheiro de origem duvidosa.
Edeltrudes Costa, Manuel Vicente e os generais Kopelipa e Dino são “presenças” permanentes em todos os pronunciamentos de Milucha nos órgãos de comunicação social. A mãe de dois filhos de José Eduardo dos Santos costuma recorrer à figura “Donos de Tudo Isto”, uma terminologia nascida em Portugal, para juntar os ex-colaboradores mais próximos do antigo presidente. Por junto e atacado designa-os como “abutres”.
Por razões aparentemente pessoais, Maria Luísa Abrantes tem também incluído entre os seus desafectos o general Fernando Garcia Miala.