Gritar poesia em tempo de Covid-19

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Em tempo de Covid-19, impõe-se, com a maior das impaciências, uma reflexão sobre a Cultura global, e sobre as Artes em particular, pois que são as Artes a ponta mais expressiva do Kilimanjaro cultural.
Da parte que me toca, a Literatura, da qual sou cultor, direi que o tempo de confinamento é uma excelente prisão, portanto, abre-se o coração para fazermos aquilo que o tempo normal, a rotina diária – serviço-casa, casa-serviço – mais os deveres socialmente úteis nos impediam de praticar. Deus pôs a mesa aos poetas e romancistas. Sirva-se o manjar de palavras!
Um manjar pronto a ser degustado nas redes sociais – Email, WhatsApp, Youtube, Facebook e outros tubos electronicalíricos, porque a apresentação de obras em eventos públicas está provisoriamente interdita. Assim como também interdita está a impressão do livro. Uma penosa pena de penúria bibliotecária.
Este estado de coisas não obsta, porém, que se exercite a nossa inicial pronúncia lírica, à entrada da caverna Neolítica, lugar onde começaram as artes plásticas e a arte de cantar e contar. Advogo, pois, o retorno definitivo à Oralitura, ao grito, não apenas esse grito aterrorizante de Edgar Munch, mas todo o conjunto, o de terror perante a fera besta imaginária, num verso poético que ataque o comércio da alma nestes tempos de hiper-consumismo e de desumanos corpos gerentes da sociedade, o grito de vitória perante a besta-fera dente de sabre, o grito de paixão, o grito de dor e pena, o grito silencioso dentro da alma pensante debaixo de um céu estralado, enfim, todos os gritos do sangue humano.
Comecei a exercitar esse universo de gritos da poesia dos nossos ancestrais e o resultado foi a família me olhar com desconfiança, pensando que agora é que o Zé Luís está a ficar desaparafusado pelo confinamento, é normal nestes casos um artista perder a noção do sensato, embora tivesse prevenido esposa e filhas. De modos que desci ao quintal da casa e, lá fora, comecei a dar os meus gritos, como num festival de spoken word. O resultado foi alarmar a vizinhança. Pum-pum-pum, bateram no portão, a mulher foi abrir, Ó vizinha, o vizinho Zé Luís está doente? Gargalhadas. Não, vizinha, a vizinha sabe que ele é poeta, está só a treinar prá quando o Covid acabar, vizinha. Ah, está bem, mana, pensei…
Ponto de ordem: saibam os leitores ocidentais que, aqui em Luanda, vizinho é família, é intruso na nossa quase intimidade, não estranhem, pois.
E agora, José?
Agora, camaradas da pena, conclui que a Lei do Eterno Retorno, tão querida dos antigos filósofos indianos e egípcios e até dos judeus do tempo de Moisés, sem descurar de Pitágoras e dos estóicos gregos, para emergir no século XIX, com o autor de Assim Falava Zaratrusta, o não menos genial e louco Friedrich Nietzsche, é lei universal. Vejam só como voltaram os cortes de cabelo à Viking, mais as suas extintas tatuagens da cabeça aos pés, para não abrir o cinto e mostrar tatoos em lugares de intenso odor passional e erótico, vejam o retorno da tortura sem quartel e da peste negra.
Estou com Zaratrusta (aliás Nietzsche) que traçou esta norma: “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, e dirão à vida: uma vez mais”.
É que estamos a viver um tempo de euforia publicista. Todo o mundo, mesmo os que não tem sensibilidade para a Arte, estafam-se para publicar um qualquer escrito. O importante é aparecer com o rótulo de escritor. Sabe-se, de antemão, que muitos das pessoas, amigos, familiares, curiosos, pagam o preço do livro no lançamento, depois arrumam-no num canto da casa e nunca, mas nunca mesmo, o lêem.
Estamos, pois, a viver este tempo altamente contraditório, em que quanto mais se publica, menos se lê. Uma vez mais, dizemos a vida através do Spoken Word, a poesia futurista. Uma vez mais, todo o poeta que se preze deve ser capaz de defender, oralmente, a sua arte.
Isto não cheira ao suor criptogâmico das cavernas da Idade da Pedra Polida? Estamos, ou não, a retornar à era primitiva do grito? O Covid está aí para o confirmar, meus camaradas!