Que pouca vergonha!

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As fotografias com a carga no interior do avião estão aí para provar. Contratada com a condição de que usaria cargueiros para transporte de equipamentos de biossegurança que o Governo adquiriu na China, a Ethiopian Airlines (EA) deu a volta ao texto, empenhando na operação aviões de passageiros.
A companhia aérea etíope foi contratada para, empregando aviões cargueiros, trazer a Angola, em três voos, o material comprado na China.
Na Comissão Interministerial de Combate à Pandemia do Corona Vírus, onde se decidiu a contratação da Ethiopian Airlines, a exclusão da TAAG da operação de transporte do material foi inicialmente atribuída a uma suposta recusa das autoridades chinesas de aceitar voos da transportadora aérea angolana em seu território. Depois, alegou-se que a TAAG não estaria habilitada para uma operação de grande envergadura por não possuir cargueiros.
Com o recurso a um intermediário estrangeiro, Angola selou, então, acordo com a EA.

No avião da Ethiopian Airlines centenas de caixas foram entulhadas de modo desordenado em cadeiras e bagageiras


Mas ao terceiro voo descobriu-se que a companhia etíope não estava a empregar nenhum avião cargueiro. A EA estava a ser paga para um serviço que não estava a prestar a Angola. Para cumprir os prazos acordados e usando aviões de passageiros, a Ethiopian Airlines fez o que nenhuma companhia aérea responsável faz: centenas de caixas de mercadorias foram entulhadas de modo desordenado na cabine do avião. Fotografias feitas no aeroporto internacional de Luanda mostram como volumes de carga foram acomodados em cadeiras e bagageiras. A forma como a carga chegou a Luanda pôs seriamente em causa a seriedade da Ethiopian, dos angolanos que a contrataram e das próprias autoridades aeroportuárias chinesas que permitiram que avião carregado daquela forma levantasse voo.

Esta foto do avião da TAAG D2-TEG prova que afinal não era preciso recorrer à cabine


Informado do incumprimento da “pouca vergonha” em que se traduziu o contrato com a EA, o Presidente da República bateu o pé e ordenou a sua imediata rescisão. A decisão de João Lourenço gerou como que um “milagre”: do nada, a TAAG, que supostamente não podia viajar para Pequim e outras cidades chinesas por recusa das autoridades locais, ou que não possuiria aeronaves para fazer face à gigantesca operação, ultrapassou todos os obstáculos e sábado fez o primeiro voo para o país asiático.
A foto do avião da TAAG D2-TEG, chegado domingo a Luanda, ilustrando a remoção da carga alojada no porão, prova que afinal não era preciso recorrer à cabine, como a Ethiopian Airlines fez. As 30 toneladas de mercadoria foram todas acomodadas no porão. Na verdade, essa foto não mostra apenas isso: mostra, também, que não era preciso recorrer à EA e muito menos a um intermediário. Como se sabe, o recurso a um broker implica, sempre, o pagamento de comissão. Alguém aí comeu alguma coisa!
Hoje, amanhã ou depois outros elementos acabarão por vir cá para fora.
À medida que se vai puxando o novelo, ficam mais evidentes a incompetência, o amadorismo e a maldade de quem devia acompanhar esta operação.
Apetece dizer que se José Eduardo dos Santos era servido por gente sagaz, mas com jeito para o dolo e para o negócio, João Lourenço está rodeado de incapazes e amadores.
Não se pede que sejam sofisticados na arte de subtrair do erário. Esperava-se, apenas, que fossem diferentes, que se mostrassem esmerados na resolução dos “problemas do povo”. Não dão uma para a caixa.
A saga do confisco de mercadorias que vieram no voo da EA tem muito de trungungo quanto de amadorismo.
Deixar os importadores na mão, sem direito à carga ou à indemnização, não é solução. Serão outros tantos sujeitos ao sufoco.