Cansaço e desolação no Kwanza Sul

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Duas notáveis figuras nascidas no Kwanza Sul manifestaram publicamente o seu descontentamento com a forma como a sua província é governada por Job Capapinha.

Desde que é liderado por Capapinha, o governo do Kwanza Sul tem sido alvo de ácidas críticas por parte da população. O próprio governador é o centro da rejeição, sobretudo depois que promoveu um negócio de contornos pouco transparentes envolvendo o executivo e uma empresa privada de renta-a-car. 

Em Setembro do ano passado, Job Capapinha ordenou o pagamento de quase 50 milhões de kwanzas a favor da empresa Ango Guerou, detida por um cidadão estrangeiro, pelo aluguer de carros para dois vice-governadores. 

De acordo com pesquisas concordantes, o dinheiro que Capapinha envolveu na operação compraria dois jeeps todo-o-terreno novos. 

Suspeitas de que houve nítida sobrefacturação na operação dos carros cobriram o governador e seus mais próximos colaboradores.

Logo a seguir, altos dignitários do governo do Kwanza Sul viram-se envolvidos no desvio de milhões de kwanzas destinados a programas de combate à Covid-19.

Malversação de fundos públicos, sobrefacturações em negócios envolvendo o Estado, a opulência de alguns governantes contrastam com a crescente degradação das condições de vida das populações locais. Na própria cidade do Sumbe, capital da província, a qualidade de vida é das mais sofríveis. A poeira solta pelas estradas e picadas que atravessam o que já foi a cidade de Novo Redondo compete com a de qualquer pedreira ou burgaleira.

Desencantados com os rumos da sua terra, notáveis filhos do Kwanza Sul têm-se socorrido das redes sociais para exprimir o seu desespero e apelar à ajuda.

No dia 11 de Junho, Jaime Azulay, um benguelense adoptado mas que é “puro nato” do Kwanza Sul, disse sentir “uma imensa dor em ver a minha província do kwanza-Sul e o meu povo sempre a sofrerem. Será que irei morrer mesmo assim, vendo meu povo definhar?” 

Tomado pelo cansaço, o jornalista e advogado soltou um sonoro “Porra, basta!” 

Dias antes, no dia 4, o mesmo Azulay dedicou à sua amada terra a letra adaptada da música de fundo do filme O Padrinho

Brucia meu Kwanza-Sul querido!

Terra dos meus antepassados, tão linda, tão linda. Seles, Cassongue, Conda, Amboim, Porto Amboim, Amboiva, Quicombo, Cela, Quibala, por todo lado só se vê o legitimo sonho adiado, sem razão que valha, senão a cobiça e a descarada roubalheira do que, a todos, pelas leis de Deus pertence.

Porquê? Quem são esses senhores? Lhes deixavam só com eles, gozando nas maratonas deles, Aiuée! 

A alma dorida chora. O tempo passa e não amanhece, tipo é pesadelo.

Brucia, meu Cambongo Eterno!” 

Pouco depois, o general António Faceira, conhecido pelas suas façanhas nas guerras que sacudiram Angola, antes e depois da independência nacional, também juntou a sua voz àqueles que imploram sorte melhor para a sua terra.

Apesar da imensa contestação popular, Job Capapinha continua a ser a aposta do Presidente da República para o Kwanza Sul.

Num post que circulou profusamente nas redes sociais, o general reformado escreve, designadamente: “Penso que todos me conhecem. Pelo menos os mais velhos. Sou mesmo natural desta província, da cidade de Novo Redondo, hoje Sumbe. Fui rebelde, revoltado com o colonialismo. Parti para guerrilha do MPLA. Combati contra o colonialismo, contra invasão Sul Africana e na guerra civil. Em 22.02.2002 senti que tinha cumprido a missão. Saí, como havia entrado. Assisti como a província foi sendo destruída ano após ano com comissários e governadores incompetentes, latrocinadores, maratonistas, bajuladores não patriotas…sob o olhar protetor do M. Hoje batemos no fundo do poço. Cá em baixo há pouca esperança, já não temos forças, não há vontade. Lá em cima, só arrogância, vaidade, falsas convicções de que são iluminados por Santos (…) Porquê Kuanza Sul mereceu desde sempre tanta desconsideração? Por ter dado tantos patriotas como Viriato da Cruz, Dilolwa, Iko Carreira e tantos outros? Ou por ter travado a invasão Sul Africana racista? Porquê suas gentes mais patriotas e capazes ou outras foram afastadas a favor de corruptos, bajuladores e incompetentes? 

Nós já não podemos dizer basta porque já não temos força, porque apenas somos como cães que ladram enquanto eles desfilam”.

Os gritos de socorro das gentes do Kwanza Sul contrastam com o silêncio de Luanda e, nomeadamente, do Presidente da República.

Aparentemente, João Lourenço ou ainda não toma como suficientemente robustas as denúncias de má gestão que lhe chegam do Kwanza Sul, ou ainda não encontrou alternativa ao governador actual. Por enquanto, Job Capapinha é a sua aposta.