O sonho angolano

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Não vamos falar do sonho dos antepassados, não!

Não vamos falar da utopia e das gerações que a formataram, nas mais diversas nuances da sua monotonia corrosiva.

Não vamos aqui recordar as lutas, as de antes de haver estado colonial, as da Baixa de Kasanji, do S. Paulo e do Kitexe, de Karipande, da vila Teixeira de Sousa, as lutas da Avenida Brasil ou dos Massacres, as lutas viscerais e interpartidárias, as lutas do kumbu que nunca foi do Povo, as lutas contra a religião e a liberdade de expressão, as lutas de Cabinda ao Cunene e de Luanda até à Jamba, não!

Não vamos falar dessas lutas! A História delas cuidará, já que os políticos delas se esgueiram como lampreias entre os corais! A luta pela Verdade é duríssima e evasiva como a transparência de uma luboia de um milhão de Carats. 

Por isso, preferimos não falar nem do que os nossos avós e nossas mães sonharam para nós, angolanos caminhando hoje, neste ano de 2020, em qualquer troço de qualquer sanzala do mato, qualquer vila, qualquer cidade, rua, caminho de terra batida, atravessando rios, lagoas, ou subindo uma palmeira para extrair maruvo, angolanos acantonados pela Covid-19, mas trabalhando onde calha, angolanos desempregados a inventar outra fome, angolanos acabados de nascer sem nenhuma noção do que os espera, qualquer um que aqui e AGORA esteja a viver a Angola de hoje. 

Não foi esta Angola, nem estes angolanos, quer os do topo, quer os da esteira já rota da escala social e económica, não foi esta realidade que imaginaram todos os angolanos, os do MPLA, os da UNITA, os da FNLA, os da Casa-CE, os do PRD, os do Bloco Democrático, os do PRÁ JÁ SERVIR ANGOA, os das Igrejas, outros ainda das vanguardas intelectuais, os sem-partido, as imbatíveis e anónimas zungueiras, os engraxadores, os kupapatas, os kimbanguleiros das obras, os estudantes, os pescadores, as kitandeiras, as meninas pequeninas que vendem até ao Domingo na porta de casa, as kingilas, as comerciantes do sexo, os desordeiros, os bandidos, os assassinos, os ladrões, os ardinas, os fiscais, os polícias, os funcionários, eu poderia citar aqui, os nomes de cada um dos quase 30 milhões de angolanos. Se um que fosse me dissesse que é esta realidade, que é esta Vida que ele sonhou, então eu poderia rasgar o meu BI!

Não acredito, nem por sombras nem em sonhos, que um angolano – mesmo multi-milionário – alguma vez sequer sonhou este cenário da vida angolana dos nossos dias! 

Tenho é a certeza que aqui chegámos “sem querer”. Tenho a certeza que um bilionário viu a massa entrar no paraíso fiscal como se fosse um milagre, mas nunca imaginou que iria viver atanazado pela paranoia do Poder autocrático e sempre rodeado de alta segurança! E a zungueira surgiu assim sem ela sonhar essa vida, montou uma banheira de plástico na cabeça com 30 quilos de ananás e foi para a rua vender impelida pela fome dos filhos e do marido que não trabalha. 

É perante este cenário que sugiro um pensamento da nossa realidade a partir deste preciso momento respirado de Cabinda ao Cunene. 

Que momento é este?

O momento é este instante de vida em que respiramos todos um cenário de nova luta. Não mais a luta dos guerrilheiros, de kalashnikov na mão e granada no peito, ou a bazuka ao ombro, não! É uma luta do século XXI. A luta da Economia, a luta do Emprego, essencialmente. Quando Obama fez a sua campanha pelo segundo mandato, um dos trunfos que apresentou foi o aumento do emprego. João Lourenço, na sua campanha eleitoral, prometeu 500 mil empregos! Trump já está fixado nos ganhos empregatícios nos EUA, com vista à reeleição. Ângela Merkel está vidrada na manutenção e aumento do emprego dos trabalhadores alemães. Hoje, quem vence, quem é amado do Povo é quem, estando no poder ou ao poder quiser chegar, dá emprego. 

A zungueira surgiu assim sem ela sonhar essa vida, montou uma banheira de plástico na cabeça com 30 quilos de ananás e foi para a rua vender impelida pela fome dos filhos e do marido que não trabalha

O momento de Angola, AGORA, é o momento em que milhões de angolanos precisam de um emprego e da respectiva segurança social no seu tempo de trabalho e no seu futuro de reforma. Desse emprego nasce a escola para os filhos, o dinheiro para os medicamentos, o funji e o táxi para ir ao local de trabalho e, no final de semana, ir à igreja ou à praia.

Portanto, o emprego terá de estar respaldado por um salário mínimo que dê para encher a barriga e a alma. Não pode ser um salário mínimo de gorjeta ou de esmola, tem de ser um salário mínimo de justiça distributiva. 

Por isso, falamos daquilo que HOJE e AGORA, nós todos, de Cabinda ao Cunene, queremos viver. Um intelectual, que tem mais hipóteses de ter emprego do que um zungueiro, não consegue acumular aforro no banco. Ora, se o intelectual não endinheirado no peculato não o consegue, como é que um zungueiro consegue? Quando é que este vai poder reunir umas chapas, cimento e areia para fazer um chimbeco que seja? Então, por que e para quê trabalha o cidadão? Só pelo prato do funji?

Este é a, a meu ver, um dos 12 trabalhos de Hércules herdados do Destino pelo timoneiro de Angola, o Presidente João Lourenço. Só este trabalho exige de qualquer ser humano um poder sobrenatural para realizá-lo. Hércules, segundo narra a lenda grega, recebeu apoio extraterrestre do seu pai divino, Zeus. Mas Hércules era semi-deus. O Presidente João Lourenço é puramente humano. A sua força sobrenatural só poderá vir da aliança estratégica com as poderosas cabeças pensantes do TODO NACIONAL. Sejam elas da UNITA, da CASA-CE, do PRD, do PRÁ JÁ SERVIR ANGOLA ou do Bloco Democrático, das Igrejas, ou dos sem-partido. Este é o nosso entendimento de UNIDADE E RECONCILIAÇÃO NACIONAL.

Nunca aconteceu outro momento em Angola como o que estamos a vive HOJE. Um país só com um exército, um capital preponderante de mais de uma centena de muti-milionários anónimos que aderiram à lei do repatriamento e consequente perdão judicial, um Presidente cheio de boa vontade em corrigir o que está mal, uma pandemia que quer paralisar a economia e, sobretudo, uma juventude que mexe com as redes sociais e apostada na criação de novos eventos político-sociais e económicos para dar nova vida a esta Angola portentosa,. 

Vossa Excelência, Sr. Presidente João Lourenço, não precisa sequer de montar diálogos com a Sociedade Civil à imagem do seu antecessor. Precisa é de deixar a juventude trabalhar, fazer, sonhar. O nosso povo vive amarrado num colete de forças. Tudo é feito a pensar nas eleições. Quando o cidadão sai à rua, mesmo sem a Covid-19, vê tropas por todo o lado! E a polícia passa a vida a azucrinar a rotina diária do cidadão pobre que só quer trabalhar com o seu kupapata de três rodas ou a sua carrinha em terceira mão. Não se faz nada, não se nomeia um dirigente, sem ser na perspectiva eleitoralista. Deixe o Povo fazer coisas, Sr. Presidente, deixe a juventude fazer propostas sérias de trabalho, não ouça os seus assessores plenipartidários. Escolha um dirigente do MPLA com uma visão mais cidadã da res publica. Se não houver esse dirigente no seio do MPLA, então socorra-se da Igreja maioritária em Angola. 

Ontem, fui cortar o cabelo, e o meu jovem barbeiro me disse: “doutor, no Bom Jesus há tomate a estragar!” Pôr o tomate daqui tão perto de Luanda à venda na cidade capital é tarefa da juventude. Financiem-lhes camiões, que eles irão também buscar o repolho do Huambo, o feijão do Bié e o mel do Moxico, lá longe a estragar…