TEMOS OU NÃO TRANSMISSÃO COMUNITÁRIA DO VÍRUS SARS-COV-2?

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Onde reside afinal a dúvida?

O mês de Junho ficou marcado por uma aceleração acentuada na propagação da Covid-19 em Angola, reflectida no aumento exponencial do número de casos confirmados da doença e também no número de mortes. Só para termos uma ideia, 18 das 25 mortes por Covid-19 ocorreram no mês de junho, 4 ocorreram entre Março e Maio e as restantes 3 neste mês de Julho. No meio desta perturbação o estranho é que a aceleração parece ter apanhado de surpresa a autoridade encarregue de coordenar a resposta de Angola a pandemia. 

Uma questão que se colocou de imediato era determinar se aquela variação pronunciada na velocidade de propagação do vírus representava ou não uma nova fase de propagação da doença, isto é, se estávamos ou não perante a transmissão comunitária ou sustentada da doença, segundo o conceito da OMS. É importante responder a esta questão? Sim, porque uma resposta afirmativa a questão deve significar uma viragem acentuada na matriz de resposta do país a pandemia, adaptando-a e ajustando-a a um novo contexto. Aproximamo-nos, entretanto, do fim da primeira quinzena de Julho e esta resposta ainda não surgiu de forma explícita por parte da autoridade sanitária, embora, na prática tenham sido tomadas medidas que espelham um redobrar de cuidados, mormente as medidas especiais que vigoram nos territórios alvo de cerca sanitária e a ampliação da testagem, particularmente com a introdução dos testes rápidos da Abbot no rastreio em massa da doença. É precisamente sobre estes testes que pretendemos aqui fazer breves considerações sobre a forma como estão a ser interpretados pelos seus promotores.

É tempo de se pôr termo a esta discussão se temos ou não transmissão comunitária ou sustentada, pois as evidências são demasiado robustas para serem ignoradas. A persistência na cegueira voluntária terá apenas o condão de prejudicar a resposta de Angola à pandemia e os custos deste prejuízo poderão ser vidas humanas cuja morte pode ser evitada

Ouvimos da voz da Sra. Ministra da Saúde que os testes rápidos da Abbot eram os melhores nesta categoria (testes rápidos) porque tinham sido aprovados pelo FDA pela sua elevada SENSIBILIDADE e ESPECIFIDADE. Em termos de conceitos, BOA SENSIBILIDADE significa que o teste resulta num número baixíssimo (nunca é zero) de FALSOS NEGATIVOS e BOA ESPECIFICIDADE, significa que o teste resulta em baixíssimo número de FALSOS POSITIVOS. Os testes rápidos, ao contrário do teste padrão (RT-PCR), são testes serológicos que visam detectar não directamente as partículas (moléculas) virais, mormente o seu material genético, mas sim os anticorpos produzidos em resposta a infecção viral. Podemos classificá-los como testes indirectos. Os testes detectam basicamente 3 tipos de imunoglobulinas (que são os anticorpos): IgM, produzidas na fase aguda (ou activa) da doença; IgG, que são os anticorpos mais tardios e que podem representar a imunidade mais prolongada ou “memória” imunológica- Os testes podem igualmente detectar complexos IgM-IgG que aparecem na transição da fase aguda para a fase mais tardia da doença, antes que as IgG se imponham como “donas solitárias do pedaço”. Em termos práticos, significa que se um indivíduo for positivo para IgM é muito provável que tenha o virus e isto pode ser confirmado por RT-PCR; se for positivo para IgG significa que foi infectado, mas a infecção já não está activa e, portanto é negativo, provavelmente a RT-PCR; Se for IgM-IgG positivo, está na transição da fase aguda para a fase tardia, havendo ainda alguma probabilidade (menor) de ser positivo para o teste padrão RT-PCR. E é aqui que a porca torce. O MINSA, na interpretação dos casos positivos tem apenas valorizado os IgM+, pois, segundo o SE Prof. Franco Mufinda são os casos que são submetidos a contra-prova para confirmação, pois, em caso positivo devem ser isolados. Estamos plenamente de acordo. Mas, os IgG+ e IgM-IgG+ não devem ser ignorados, pois se considerarmos a elevada sensibilidade e especificidade do teste válidas tanto para IgM e IgG, a informação que os IgG+ nos dão é epidemiologicamente relevante pois, nos fornece pistas robustas sobre a circulação e propagação do vírus. Ora, dos cerca de 10 000 testes já realizados, cerca de 300 foram IgG+, ou seja cerca de 3% da população de Luanda (extrapolando os dados) já teve algum contacto com o vírus. Isto é ou não uma informação relevante?

Se considerarmos que Luanda, segundo dados do censo 2014, tem por esta altura cerca de 7 500 000 habitantes podemos estimar que aproximadamente 40 000 luandenses já foram infectados pelo vírus, sendo que a maioria terá sido assintomática ou apresentou formas leves da doença, facilmente confundidas com outras doenças respiratórias não graves, não valorizadas.

Portanto, os dados do rastreio realizado nestes conglomerados, agregados ao aumento exponencial do número de casos e de mortes registados no mês de Junho sustentam a hipótese de que temos em Angola já transmissão comunitária ou sustentada da Covid-19, não se justificando as hesitações das autoridades sanitárias em assumir esta realidade.

O novo contexto que agora se desenha deve levar a uma viragem significativa na resposta de Angola à pandemia nos seguintes eixos:

  • Intensificação da busca activa de casos nas distintas comunidades e conglomerados que deve ser extensiva a todas as demais províncias com destaque para as mais populosas e fronteiriças
  • Alteração nas modalidades de isolamento, com selecção criteriosa dos casos a serem encaminhados para as unidades de referência e hospitais de campanha, com vista a evitar a exasperação de recursos.
  • Reforço da vigilância sanitária nas unidades sanitárias com reformulação do conceito de caso suspeito no sentido de tornar mais fina a malha.
  • Intensificação do treinamento de pessoal e formação de equipas para acompanhamento milimétrico dos casos em isolamento domiciliar.
  • Inserção no sistema de vigilância sanitária da rede primária de saúde.

Enfim, é tempo de se pôr termo a esta discussão se temos ou não transmissão comunitária ou sustentada, pois as evidências são demasiado robustas para serem ignoradas. A persistência na cegueira voluntária terá apenas o condão de prejudicar a resposta de Angola à pandemia e os custos deste prejuízo poderão ser vidas humanas cuja morte pode ser evitada. Estamos para já com taxas de letalidade elevadas quando comparamos com outros países da região e isso, por si só nos interpela a humildade, necessária para esquadrinharmos os nossos caminhos e corrigir o que for necessário.