A FORÇA DOS LOBBIES

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Sempre que discorre sobre a prevenção e o combate à pandemia da Covid em angola, quase invariavelmente a ministra da saúde dá ênfase à sintonia que haveria com a Organização Mundial da Saúde.

Pela voz de Sílvia Lutucuta, os angolanos são quase diariamente informados que Angola está inteiramente alinhada com a OMS e, em alguns casos, mais adiantada que a própria organização planetária.

Embora a ministra não o diga expressamente, infere-se, pela força da repetição, que a perfeita sintonia com a OMS só é possível graças aos “incansáveis esforços” dela e dos seus colegas na Comissão Intersectorial de Combate à Prevenção da Pandemia da Corona Vírus.

Sem o “sacrifício” pessoal de cada um dos integrantes da referida comissão, Angola e a OMS estariam separadas por uma incalculável distância. 

Mas apesar da perfeita sintonia que tem alardeado, a ministra da Saúde não abre o jogo todo. Ela não diz, por exemplo, em que parte do receituário da Organização Mundial da Saúde Angola foi buscar a ideia de que a quarentena institucional é a melhor arma para travar a expansão da corona vírus, mesmo nos países que já reconheceram a sua transmissão comunitária.

Quando a pandemia da corona vírus se tornou global, em Março, alguns países abraçaram a quarentena institucional como forma de dificultar a expansão da doença. Mas essa opção foi sendo abandonada aos poucos, não apenas por causa dos seus elevados custos económicos, mas também porque não travou a disseminação da pandemia. 

Além de Angola, muito dificilmente se encontrará, hoje, um outro país que aposte na quarentena institucional. 

A  rede de hotéis IU é das eleitas para o lucrativo negócio da quarentena institucional

Países economicamente poderosos como Estados Unidos, Rússia, Canada, China e outros, iriam rapidamente à bancarrota se os seus governos apostassem na quarentena institucional suportada por fundos públicos.  Nos países que aceitaram, sem qualquer dor de dente, a circulação comunitária do vírus, a quarentena institucional pertence ao passado.

Nos países que fazem contas, hospitais, públicos ou privados, não são colónias de férias para assintomáticos. Ali, os hospitais são para pessoas que requerem acompanhamento médico permanente. Nos países em que se fazem contas, os Estados erguem hospitais de campanha para oferecer leitos a quem comprovadamente necessite de internamento. Nos países onde se fazem contas, não se constroem Calumbos I e II para misturar, compulsivamente, pessoas infectadas, não infectadas, suspeitos e não suspeitos.

Nos países que não atiram o dinheiro ao vento é a testagem que determina o caminho: os infectados são encaminhados aos hospitais; os suspeitos ou assintomáticos fazem o tratamento em casa.

Nos países onde se fazem contas, privilegia-se a quarentena domiciliar, a partir da qual o suspeito é acompanhado medicamente.

Em países como Angola, onde não se fazem contas, o Governo persiste na tentativa de travar oi vento com as mãos, desperdiçando biliões numa estratégia que não teve êxito em parte alguma do mundo.

Nos países onde não se fazem contas, como Angola, a Clínica Girassol cobra mais de 3 milhões de kwanzas para quarentena institucional de 14 dias.  

Em suma: não há nenhuma justificação científica que sustente a continuada aposta de Angola na quarentena institucional. Se a quarentena se constituísse em barreira à expansão do vírus nos países onde já há circulação comunitária, Angola não estaria sozinha nesse caminho. 

A quarentena institucional em Angola é uma imposição de lobbies a quem não repugna nada o enriquecimento sem justa causa. Nesses lobbies cruzam-se muitos e diversos interesses. 

Se acionados, o SIC, a PGR, e IGAE, a novel DIIP (Direcção de Investigação de Ilícitos Penais), uma invenção de João Lourenço para completar o caos na Polícia, podem destapar as forças que se movimentam e lucram, indecorosamente, com a quarentena institucional.

Correio Angolense deu a palavra a três renomados médicos angolanos para opinarem sobre a quarentena institucional.

O nefrologista Daniel Matadi não tergiversa: “Sou manifestamente contra a quarentena institucional numa situação de transmissão comunitária como é a nossa.  Nesta fase da pandemia em Angola, gastar dinheiro com isolamentos institucionais tornou-se contraproducente. Além do mais, os tratados médicos dizem que  toda opção de tratamento e de isolamento institucional de um doente deve obedecer ao “Consentimento Médico Informado”, isto é, o doente deve ser informado sobre as vantagens e desvantagens de determinado procedimento médico, para que ele consinta, autorize , estando ele em pleno gozo das suas faculdades mentais. A nossa quarenta institucional não dá esta opção ao suposto doente”. Reforçando: “a quarentena institucional justificava-se na fase inicial da pandemia em que a doença foi importada e que era necessário controlar os contatos. Ali eu daria nota 10 à quarentena. Agora na fase de transmissão comunitária, a quarentena institucional para os assintomáticos e doentes leves é contraproducente. Não se deveria gastar dinheiro com assintomáticos. Isto não vem em nenhum protocolo da OMS”.

Mestre em Biociências, Maurílio Luiele vê a quarentena institucional como um desperdício de dinheiro. “A quarente institucional é muito dispendiosa. A quarentena absorve recursos que bem poderiam ser encaminhados para outros alvos”.

Segundo ele, a quarentena institucional justificou-se nos primeiros tempos da pandemia. “É evidente que naquela fase da importação de casos, fazia sentido. Mas à medida que se alastra a transmissão comunitária, deixa de fazer sentido. Os testes de rastreio, tidos como de elevada sensibilidade e especificidade, resolvem mais facilmente a questão, limitando os candidatos a isolamento por meio da testagem”.

De acordo com um ginecologista, que pediu para não ser identificado, “nesta fase de propagação comunitária do vírus SARS-CoV-2 a quarentena institucional tem valor muito reduzido. Numa escala de 0 a 10 valores, eu atribuiria 3 à quarentena institucional. Para mim, a quarentena institucional só seria aplicável a grupos de risco com sintomatologia moderada a grave para a covid-19”.

Como se constata, fora da “caixa” oficial também há neurónios a trabalhar. Há que considerá-los também.

Em tempo: o secretário de Estado da Saúde, Franco Mufinda, anunciou esta semana que a partir da próxima semana aviões de TAAG irão a Lisboa “resgatar” 7.000 angolanos.

A pergunta é: a rede de hotéis que suporta a quarentena institucional dará conta do recado, ou a Comissão Intersectorial de Prevenção e Combate à Pandemia do Corona vírus construirá novos Calumbos?

Nota final: em Benguela, não há reagentes para o testes rápidos de Covid-19. Em Luanda, ministra da Saúde e pares parece só ter atenção para a quarentena institucional.