Há 60 anos iniciavam, em Luanda, os campeonatos de basquetebol de Angola (*)

487

Numa altura em que as equipas se treinavam apenas duas vezes por semana e os atletas não eram exclusivos do basquetebol, dividindo-se com outras modalidades, principalmente atletismo e futebol, a Associação Provincial de Desporto de Angola decidiu dar dimensão verdadeiramente competitiva à “bola ao cesto”, organizando o primeiro campeonato da então província de Angola, após tentativas frustradas em 1956, 1957 e 1959…

Apesar de ter sido lançado em território angolano no longínquo ano de 1930, o basquetebol só fez disputar o primeiro Campeonato de Angola passados exactos 30 anos sobre o desafio de apresentação, ocorrido a 18 de Maio no stadiumdo Ferrovia Atlético Club, no vetusto bairro dos Coqueiros. Foi, pois, em 1960, após algumas tentativas falhadas, que a bola cor de laranja começou a rolar, disputando-se a edição inaugural do “Provincial”, numa época em que Angola, colónia portuguesa, era uma das províncias ultramarina do grande “Império” lusitano. 

Em rigor, foram três as tentativas goradas de se organizar o campeonato de Angola de basquetebol. A primeira aconteceu em 1956, numa altura em que já se disputava o Campeonato de Angola de futebol, assim como os de natação e ténis de campo. Seguiram-se outros intentos, igualmente fracassados, em 1957 e em 1959. Após o último fiasco, a Associação Provincial do Desporto (APD) percebeu que era preciso conferir dimensão verdadeiramente competitiva ao basquetebol e lançou as bases para organizar pela primeira vez o Campeonato Provincial de Angola. A tarefa era gigantesca, visto afigurar-se tremendamente difícil reunir numa dada cidade todos os campeões dos distritos onde havia provas oficiais da modalidade. É que, jogadores, técnicos e até dirigentes tinham outros afazeres. Ou seja, eram autênticos amadores do desporto.

A equipa do Sporting de Benguela, primeira campeã de Angola de basquetebol

As tentativas falhadas justificam-se por várias razões, sobrelevando-se duas entre estas. A primeira era a inexperiência da APD, que havia sido criada poucos anos antes. A segunda e provavelmente a mais ponderosa o descaso de grande parte dos clubes em ralação à modalidade. Esse desinteresse explica-se, em certa medida, pelo facto de quase nenhum clube dispor de atletas dedicados exclusivamente ao basquetebol. Naqueles tempos a “bola ao cesto” tinha pouquíssimos jogadores “seus”. Então era comum atletas se dividirem entre o basquetebol, o atletismo e, às vezes, uma terceira modalidade que não eraras vezes era o futebol! Isso era tão vulgar que numa fase final de um “Provincial” feminino a equipa do Portugal de Benguela acabou substituída pelo Recreativo da Catumbela porque quase todas as jogadoras da turma “alvi-negra” haviam ido participar num “Nacional” de atletismo na Metrópole, o mesmo que dizer em Portugal! 

Depois de tomadas algumas medidas, sobretudo de natureza organizativa, eis que por orientação do Conselho Provincial de Educação Física (CPEF), que era o equivalente do actual Ministério dos Desportos, a APD (uma espécie de mega federação que respondia por todas as modalidades, com excepção do futebol) decidiu organizar os campeonatos dos mais populares “desportos pobres”. Para tanto, estribou-se na Lei n.º 20803, das actividades gimno-desportivas do Ultramar, que a partir de Junho de 1956 iria regular todo o desporto angolano. Como vinha acontecendo há já alguns anos, na temporada 1959/1960 vários distritos, designadamente Luanda, Malanje, Moçâmedes, Huambo, Huíla e Cabinda organizaram os respectivos campeonatos de basquetebol. Só que, dessa vez havia um elemento nunca antes colocado na equação. Essas provas passaram a ser qualificativas para o Campeonato de Angola, que se iria disputar pela primeira vez.

Vítor Alves, melhor marcador do primeiro Campeonato de Angola e de algumas outras edições da prova

Como os “Distritais” haviam sido realizados praticamente no início do ano – antes da tomada de decisão da organização dos “Provinciais” –, a APD entendeu ser necessário a disputa de uma eliminatória a duas “mãos” entre o campeão e o vice-campeão de todos os distritos que tiveram campeonatos. Após esse “mano-a-mano”, ficaram apurada as equipas para a primeira edição dos Campeonatos de Angola de seniores (masculino e feminino) e juniores (masculino), inicialmente aprazado para 31 de Julho de 1960. O local escolhido foi o estádio Coronel Horácio Sá Viana Rebelo, do Sporting de Luanda, então o melhor e mais moderno recinto de que a cidade e a província dispunham! Na mesma quadra iriam ser disputados paralelamente os “Provinciais” de hóquei em patins (seniores e juniores masculinos), em longas jornadas que começariam às 16h00 e se prolongariam noite adentro, às vezes até depois da meia-noite, acolhendo sete (!) jogos por noite. Mais: movimentariam cerca de 300 atletas em representação de 16 clubes, de seis distritos, os mais desenvolvidos nas modalidades em compita.

No dia marcado, os campeonatos não iniciaram devido a chegada tardia das equipas do Sul da província. Isto porque o vapor“Timor”, embarcação que iria transportar as “embaixadas” de Moçâmedes, Huíla (os representantes deste distrito deslocaram-se por terra ao litoral namibense para tomar o barco) e Benguela, estava atrasado. Impunha-se, em face disso, o adiamento das provas por pelo menos 24 horas, o que foi aceite sem delongas pelas formações que já haviam escalado Luanda. Finalmente Angola iria fazer disputar os seus campeonatos de basquetebol e de hóquei em patins, algo que há muito perseguia. Às primeiras horas da manhã do dia primeiro de Agosto as delegações dos três distritos chegaram a capital angolana e à noite realizou-se uma monumental cerimónia de abertura em que desfilaram todas as equipas participantes, ovacionadas por uma assistência numerosa, nem parecendo que a equipa de futebol de “Os Belenenses” jogava nesse dia ali bem próximo, no Estádio dos Coqueiros!

Nos primórdios do basquetebol angolano, o Sporting de Benguela reiunou de forma quase imperial

No basquetebol sénior masculino competiriam Sporting de Malanje, Benfica do Lubango, Benfica de Moçâmedes, Atlético Clube de Nova Lisboa, Clube Atlético de Luanda e Sporting de Benguela. Em femininos bateram-se Benfica de Luanda, Recreativo e Beneficiente do Bocoio, Benfica do Lubango e Atlético de Moçâmedes. Em juniores estiveram na liça Académica da Huíla, Portugal de Benguela, Atlético de Moçâmedes e Sporting de Luanda. 

Atlético de Luanda e Sporting de Benguela eram os favoritos ao triunfo na prova principal. Ambas as formações mediram forças logo na segunda jornada, com vitória da turma da capital por 35-23, com 11-10 ao intervalo, já favoráveis aos atleticanos. Cifras magras para um jogo de basquetebol, mesmo naqueles tempos de puro amadorismo. Sendo que à luz do regulamento o campeonato se disputava apenas a uma volta e tendo em atenção a valia dos oponentes, estava claro que os “azuis” iriam somar por vitórias os restantes desafios e depois erguer a taça de campeão. Só que, os “verde-e-brancos” de Benguela protestaram a partida logo após o seu termo, alegando erro técnico duplo traduzido no facto de aquando da marcação de uma falta pessoal e de outra técnica, os lances em causa terem sido interrompidos pela mesa de júri, o que terá causado confusão aos juízes da partida. Foi o suficiente.

Os campeonatos seguiram o seu curso normal durante uma semana sem que houvesse decisão relativamente ao protesto. A 7 de Agosto, três dias antes da data oficial do termo dos campeonatos, caiu a “bomba” sobre a cidade de Luanda. A APD considerou procedente o protesto dos “Leões” de São Filipe! O jogo iria repetir-se a 12 de Agosto de 1960, depois de disputadas todas as jornadas. A notícia revivificou a banda sportinguista e desmoralizou as hostes atleticanas. Depois disso, ambas as equipas venceram os jogos todos que tinham em falta antes do derradeiro “recontro”. Não havia favoritos, embora animicamente a turma benguelense parecia melhor. 

A formação do Benfica de Luanda, onde se destacam Agostinho Reis (5), Mário Palma (10) e António Guimarães (11), foi a maior vencedora do Campeonato Provincial de Angola, entre 1960 e 1975.

Entretanto, na antevéspera do que foi com siderado o “jogo do ano”, os restantes campeonatos encerraram. Em femininos a vitória coube ao Benfica do Lubango, em cujas fileiras estiveram Maria Regina Peyroteo, Maria Dina Monteiro, Maria Eduarda Camacho, Maria da Conceição Peyroteo, Ernestina Coimbra e Maria do Céu; e em juniores o triunfo final foi do Sporting de Luanda, em cuja equipa desfilaramJorge Lima, Garrido da Costa, Mário Lousada, José Castro e Silva, Carlos Francisco, António Araújo, Maurício Ascensão, Manuel Barroso e Roberto Monteiro “Nini”. No hóquei em patins sénior a taça foi conquistada pelo Benfica de Luanda, competindo com a Casa do Pessoal do Porto do Lobito, Óquei Clube do Huambo, Sporting de Moçâmedes e Académica da Huíla. Já em juniores o troféu foi arrebatado pelo Sporting de Moçâmedes, que disputou a prova com FC Luanda e Lobito Sport Club.

No dia aprazado para o “tira-teimas” as duas equipas adentraram o “Sá Viana Rebelo” com vontade de ganhar. O Sporting de Benguela possuía excelentes executantes, sendo Vítor Alves um jogador diferenciado pela sua extraordinária capacidade de conversão de lançamentos de média e longa distâncias. O Atlético em nada devia ao seu adversário, mas apresentara-se sem uma unidade fundamental, no caso Manuel Barbosa, que se lesionara ainda nas primeiras jornadas. Os nervos tomaram conta de ambas as equipas e o jogo foi pontuado por incríveis falhanços de parte a parte nos mementos de finalização. O equilíbrio, entretanto, imperou, algo também determinado pela agressividade defensiva dos contendores. De modo tal que, ao intervalo o placardregistava apenas a raquítica marca de 16-13, a favor dos luandenses, que desde o início estiveram sempre à frente da contagem, a despeito da boa réplica adversária.   

Equipa do Sporting de Luanda, campeã de Angola de 1969, no Aeroporto Internacional Craveiro Lopes (actual 4 de Fevereiro), antes de partir para Lisboa a fim de disputar a fase final do Campeonato de Portugal.

Nos primeiros minutos da segunda parte os benguelenses aproximaram-se no marcador e após uma série de lançamentos bem-sucedidos, já depois de largamente passados 10 minutos, abriram vantagem relativamente confortável de 25-17. Nessa altura, dois jogadores do Atlético, “Zezé” Van-Dúnem e Fernando Martins, abandonaram a quadra por lesão e o Sporting não se fez de rogado. Investiu contra as hostes atleticanas, cuja reacção foi mal-sucedida, em razão do desacerto dos seus lançadores, completamente tomados pelos nervos. À época, praticamente só havia substituições quando alguém estivesse impedido de actuar por lesão ou por exceder o limite de faltas. Vítor Alves, entretanto, acertava quase todas na cesta, com o que ajudou a sua equipa a vencer a segunda metade por 18-10. Resultado final: Sporting, 31 – Atlético, 26. No final do encontro, houve tentativa de desmandos por parte de alguns espectadores descontentes com a derrota luandense, mas não passara disso mesmo.

Sob arbitragem de Brazão Antunes (Luanda) e Mota Lemos (Lobito), as equipas alinharam e marcaram do seguinte modo:

Sporting de Benguela:José Louro (2), Vítor Alves (17), João Pompeu (2), Sousa Fernandes (4), Carlos Saraiva (2), Coco Fançony (4), Luís Magalhães, Dionísio Mendonça e José Almeida. Não alinhou o castigado Rogério Araújo.

Atlético de Luanda:Fernando Martins (6), Fernando Moreira (6), Jaime Monteiro (5), José Teixeira (9), Gastão Augusto, José Carlos “Zezé”, António Van-Dúnem, Joaquim Alcobia e Morais. Não alinhou o lesionado Manuel Barbosa.

Parecia que terminava assim um mega-festival desportivo jamais visto em Angola e que fez disputar 42 jogos, sendo 29 de basquetebol e 13 de hóquei em patins. Os benguelenses festejaram efusivamente. Mas a festa teve duração efémera, tal como aconteceu com o Atlético na partida da segunda jornada, quando defrontou esse mesmo oponente. No “Sá Viana Rebelo” correu a notícia, de certo modo já esperada, de que o Atlético de Luanda fizera declaração de protesto, argumentando erro técnico da arbitragem. Fundamento: ao sancionar uma falta, o árbitro lobitanga Mota Lemos indicou a reposição pela linha lateral, ao passo que o árbitro principal, o luandense Brazão Antunes, que apitou simultaneamente com o seu colega, ordenou a reposição pela linha de cabeceira, o que acabou sendo feito. Nesses casos, a lei indicava bola ao ar e o Atlético agarrou-se a esse argumento como carrapato em pele de boi. Por isso, o Sporting de Benguela sequer tivera tempo de posar para a fotografia com a taça que lhe fora entregue, porque teve de a restituir aos directores da APD presentes no local. Enfim, mais uma makaem perspectiva.

Os dias transcorreram e não havia notícias da APD relativamente ao protesto, numa altura em que os decisores não podiam fazer recurso a imagens de televisão porque simplesmente não existia. Passadas quase duas semanas a APD anunciou em comunicado oficial de 24 de Agosto de 1960 que, para a resolução do protesto pendente, havia sido nomeado um Conselho Técnico, composto por Amparo Santiago da Mota Gomes, Armando Bezelga Ferreira, Carlos do Patrocínio e Raul Barros.

No último dia do mês de Agosto de 1960 o Conselho Técnico anunciou ter julgado improcedente o protesto do Atlético. Dificilmente seria diferente. Afinal, caso fosse tomada decisão contrária, o campeonato ameaçava nunca mais terminar e o titânico esforço da APD iria ralo abaixo. Provavelmente as autoridades terão percebido isso mesmo e decidiram julgar improcedente o protesto atleticano. A isso acrescia-se o facto de nenhum dos jogadores dedicar-se a tempo inteiro à actividade desportiva, sendo que cada um tinha a sua ocupação noutras áreas da vida social e já haviam “perdido” quase duas semanas fora dos seus empregos. Um novo desafio supunha novas despesas e o refazer da logística para o efeito, além de novos pedidos de dispensa às entidades patronais, o que não era, de forma alguma, viável, principalmente naqueles tempos de dificuldades mil nas comunicações e transportes. Desse modo, nos lugares subsequentes da tabela classificativa geral posicionaram-se Atlético de Luanda, Benfica do Lubango, Benfica de Moçâmedes, Sporting de Malanje e Atlético de Nova Lisboa. Vítor Alves foi o melhor marcador da competição com 123 pontos em cinco jogos, uma média 24,6 por desafio, numa altura em que em regra as equipas treinavam duas vezes por semana e não havia linha dos 6,75 metros! 

O Sporting de Benguela, que nada tinha a ver com questões administrativas da APD e exerceu apenas o seu direito de protesto, sagrou-se campeão provincial de Angola. O primeiro da história do basquetebol angolano, tendo repetido a doseem 1961, 1963 e 1966. Até 1975, ano da independência de Angola em que o campeão foi o CDUA, outras equipas conquistaram o ceptro. O Atlético de Nova Lisboa ganhou em 1962, ao passo que o Benfica de Luanda arrebatou os títulos em 1964, 1967, 1968, 1970, 1971 e 1972. Já o Sporting de Luanda venceu em 1965 e 1969, cabendo ao FC Luanda os triunfos de 1973 e 1974, ano em que o Campeonato de Angola se disputou em sistema de Liga a duas voltas, em vez da habitual fase final em regime de concentração. Pelo meio, concretamente em 1971, chegaram os primeiros americanos ao basquetebol angolano, cabendo a primazia nesse capítulo ao Ferroviário de Angola, que contratou Greg Rankin, seguindo-se o Benfica de Luanda, com Richard Almstedt, curiosamente ambos com 2,05 metros, uma enormidade para um basquetebol que considerava “gigante” a quem tivesse 1,90 de altura. Até 1974 os “américas” viraram moda no basquetebol angolano e quase todos os clubes de primeira linha os tinham. Inclusive o FC Vila Clotilde e a Juventude Huilana, sendo exactamente a edição do “Estadual” de 1974 a que mais americanos somou, num total de oito.

(*) Adaptado do livro Caminhos do Basquetebol Angolano (1930-1975) Vol. I, da autoria de Silva Candembo, ainda no prelo.