Perdemos o “Big Ben”, aliás “Oparin”

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A notícia, tormentosa, chegou-me às primeiras horas da manhã desta segunda-feira, 3 de Agosto. Morreu Miguel António, “Kamuloji”. Na tradição kimbundo, concretamente da região de Icolo e Bengo, “Kamuloji” é nome dado ao filho (ou filha), cuja mãe desvive durante o seu parto. O Miguel António era filho nado na histórica Catumbela de encantos mil. Não sei se por lá impera semelhante tradição. Acredito que não, até porque “Kamuloji” é palavra da língua nacional kimbundo, que em português significa “bruxinho” ou “pequeno bruxo”, em alusão à morte da parturiente… Não sei donde saiu essa alcunha que permanecerá imperecível no mundo do desporto africano e de Angola, particularmente no Interclube de Luanda, agremiação que ele serviu durante quase três décadas, depois de ter iniciado caminho pelo Dínamos.

Conheci o “Kamuloji” em finais de 1981, quando nos encontrámos numa sala do Complexo Estudantil Karl Marx-Makarenko para prestarmos prova de admissão ao primeiro curso de jornalismo, que iria abrir na República Popular de Angola. Na sala estavam também o meu irmão de criação e compadre César Ferreira “Loth”, brilhante jornalista e jurista momentaneamente de passagem pela administração pública, no ministério dos Transportes; o Francisco José Henriques, actual director da Rádio Viana; o falecido Francisco Cassanda Silva, que depois iria para a ANGOP; e o Teófilo Borges Moniz, este mesmo, o grande futebolista que passou ao lado de uma descomunal carreira, dividida por quase uma dezena de clubes luandenses. Doutras pessoas já não me recordo. Destas me lembro porque aprovaram no teste, tal como eu. Então, migrávamos do PUNIV, onde já estávamos no último ano, mas sem garantias de o terminar e entrar na Universidade porque não havia professores para muitas disciplinas. O mesmo já havia acontecido no ano lectivo anterior, pelo que tínhamos cadeiras em atraso. Ou cauda, como se diz no vernáculo estudantil. Portanto, o curso de jornalismo, com promessa de termos todos os professores, foi recurso para mim e para essa malta. Ou seja, jamais sonhei ser jornalista!

Na turma, única, misturámo-nos com jornalistas já credenciados, totalizando 42 alunos, uns saídos do “partido”, da “jota” e até da “bufaria”, sem teste, valendo para a admissão apenas a “pureza ideológica”. Alguns dos nomes mais sonantes das redacções dos MDM – não havia cá mídia ou comunicação social. Eram Meios de Difusão Massiva – estavam na sala, onde, pasme-se, fumava-se sem problema algum. Graça Campos, Luís Costa, Silva Júnior, Wadijimbi de Carvalho, Manuel Luciano, Abílio Cambambe, Sílvia Milonga, Paulo Jeremias, Amaral Júnior “Maninho”, Antunes Guanje, Henrique Matos, Sebastião Quinza, Amélia Barros, Paulo Mateta e José Miguel Filipe “Feuerbach” eram alguns dos profissionais já tarimbados. Os provenientes dos MDM ficaram igualmente desobrigados do teste de admissão que teve uma parte escrita e outra oral, esta sob direcção do Adelino Marques de Almeida, então o coordenador do curso, que havia sido todo decalcado (com as devidas adaptações) da Universidade de Havana, donde procederam os professores das disciplinas técnicas. 

Tivemos dos melhores professores de jornalismo a que podíamos aspirar. Deram-nos “joias” do escol da academia e da mídia cubanas. Só dois exemplos: Pedro Martinez Pires, director de Informação da Rádio Havana-Cuba, e Ricardo Sainz, director do diário Juventud Rebelde. A Miriam Rodríguez Betarcourt, da Universidade de Havana e autora de vasta obra sobre de Jornalismo, também foi nossa professora, tal como a experimentada Irene Trelles, da mesma “casa”. De Angola também não podíamos nos queixar da qualidade dos docentes. Tínhamos, entre outros, o Daniel Dias (nas costas dele chamávamo-lo “Somoza”), o Fernando Campos (passara pelo Banco Mundial) e a Gabriela Antunes, pedagoga de mão cheia. Versada, era daquelas que conhecia os alunos até de olhos fechados e que sabia quem cabulou em quem, sem estar na sala e nem precisar de câmaras de videovigilância…

A “Gaby”, como carinhosamente a chamávamos nas nossas conversas nos corredores – à frente dela jamais nos atreveríamos a tratá-la com tanto intimismo – era a professora de Inglês e punha-nos ensalsados. Alguns de nós chegamos ao ensino médio sem nunca termos estudado inglês no Liceu. E por esses alunos ela puxava mais. Um deles era o “Kamuloji”, um rapaz sagaz que sabia sair ileso do torniquete da professora. Quando a “Gaby” se lhe dirigia em inglês, ele balbuciava qualquer coisa ininteligível (não sei em que idioma! Se fosse nos dias de hoje era capaz de jurar que era em mandarim!) e depois dizia sempre uma gracinha em português e a turma escangalhava-se a rir. Aquele rapaz de apenas 20 anos dava nas vistas, não só pelo seu tamanho descomunal, mas pelo seu jeito garoto, alegre, descontraído, quase inconsequente… embora não o fosse.

O nosso livro de leitura de Inglês tinha, obviamente, inúmeras referências à Inglaterra e aos Estados Unidos. Um dia, às voltas com uma pergunta da “Gaby” sobre qual era a designação da grande torre encimada pelo relógio que virou símbolo de Londres e que se acha na torre do Palácio de Westminster, o “Kamuloji” preparava-se para inventar uma a fim de distrair a professora. Mas esta disse, não sem uma ponta de sarcasmo e algum enfado: “é o Big Ben, meu senhor! Big Ben, como tu”. Estava enfadada porque já havia tocado no tema várias vezes. Como fazia sempre, a “Gaby” contou a história do “Grande Benjamim”, municiando-nos com mais uns lingotes de cultura geral. Nesse dia, baptizou-o de “Big Ben”. Na noite desta segunda-feira, 3 de Agosto, quando recebei a mensagem do Paulo Mateta, o meu padrinho de casamento e do Graça Campos também, o texto era lacónico: “Perdemos o Big Ben”…

O “Big Ben” é o “Kamuloji” ou “Oparin” [cientista russo, considerado um dos precursores dos estudos sobre a origem da vida], como um dia lhe apodou a professora de Materialismo Dialéctico, brincando com o seu atrevimento, ele que a tudo queria responder, às vezes mesmo quando não sabia! O “Big Ben” sequer completou o primeiro semestre – seguramente tinha tarefas mais ingentes no desporto e abalou da classe –, mas deixou marcas indeléveis na turma e quase todos nos lembramos dele! Loquaz, irreverente, divertido, eternamente jovial. Há dias, pouco antes das eleições no “seu” Interclube ouvi-o na Rádio 5 e fiquei muito orgulhoso da sua sagacidade. Lembrei-me dos velhos tempos do Instituto Karl Marx. Pareceu-me um dirigente maduro. E comentei isso mesmo com o Mário Rosa na última semana, quando quase nos travámos de razões por causa da maka da renovação de mandatos nas associações desportivas. 

Poucos anos depois do Karl Marx, cruzei-me com o “Kamuloji” no desporto. Eu no jornalismo, ele no dirigismo. Divergimos muito no que a política e gestão desportiva diz respeito. Muito mesmo. Mas respeitamo-nos imenso. E, vez por outra, num passado já um pouco distante, quando nos encontrávamos havia sempre faiscante, mas breve troca de argumentos, após o que tomávamos umas e outras num “Wiskritório” que havia na Cidadela. O Grémio, de tão boas memórias! Gostaria de ter escrito este texto, de ter feito esta homenagem com ele em vida. Mas não fui a tempo. Não o fiz antes, porque jamais pensei que a morte o colheria tão rapidamente do nosso seio. Quem diria que aquele ser vibrante e cheio de vida sucumbiria tão precocemente! Adeus “Oparin”. Ou “Big Ben”. Dá no mesmo.