As diferenças de uns e outros

449

Em países sérios, ao menor deslize os governantes ou se penitenciam publicamente ou colocam os respectivos cargos à disposição. Não há terceira opção.

Há poucos dias, Cabo Verde deu mais uma demonstração de que a honra e a seriedade não estão condicionadas à dimensão territorial ou aos recursos naturais. Cabo Verde mostrou que não é por se ter menos dinheiro que se é menos digno.

Luís Filipe Tavares, ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde, afastou-se do posto há uma semana na sequência de uma reportagem intitulada “A Grande Ilusão”, emitida pela estação televisiva lusa SIC. 

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros foi o responsável pela indicação do português César do Paço para o posto de cônsul de Cabo Verde na Flórida, Estados Unidos.

Luís Tavares, um deslize que lhe custou o cargo

Sucede, porém, que além gravitar em torno de André Ventura, o líder do recém criado Chega, um partido racista  que se coloca no extremo da extrema direita portuguesa, César Paço teve um forte pendente com a justiça do seu país. Segundo a estação televisiva, César Paço andou fugido à justiça portuguesa durante mais de uma década.  A SIC teve acesso a um processo no arquivo distrital de Faro onde se prova que César do Paço foi contumaz, isto é, recusou-se deliberadamente a comparecer perante juiz, mesmo depois de citado, entre 1994 e 2002.

Com eleições legislativas e presidenciais à porta, a oposição de Cabo Verde começou a fazer a festa. Em bloco, a oposição exigiu explicações ao Governo. 

Depois de estrebuchar em vão alegando que entendia não existirem razões para recuar na nomeação de um foragido da justiça, no dia 12 de Janeiro, uma terça-feira, Luís Filipe Tavares acabou por sucumbir às pressões da oposição. 

Mais ou menos na mesma altura em que Luís Tavares era “frito” pela oposição do seu país, a TVI exibia uma reportagem em que expunha o que chamou de negócios do nosso ministro da Energia e Águas e familiares, cujas movimentações financeiras teriam passado por Portugal.

Sob o título Ministério Público português investiga negócios do ministro angolano de Energia e Águas, a TVI revelou que o “Ministério Público de Portugal abriu um inquérito ao ministro angolano da Energia e Águas, João Baptista Borges, por suspeitas de branqueamento de capitais”.

Na reportagem, a TVI sugere  como João Baptista Borges e vários elementos da família se envolveram em negócios ligados ao sector da energia em Angola, que teriam passado pela banca portuguesa. “O sobrinho de Borges tem várias empresas e, nos últimos anos, conseguiu vários contratos de milhões no setor da Energia, em Angola, sempre através de outras empresas” diz a emissora, que cita um documento no qual a companhia Hong Kong Yongda Holding subcontrata uma empresa, a Diverminds, para apoio técnico em contratos públicos no sector da Energia, em Angola, por quase um milhão de euros.

João Baptista Borges : cara dele tipo nada…

Em Portugal, segundo a TVI,  “existe uma outra empresa, exactamente com o mesmo nome desta offshore: Diverminds, também em nome do sobrinho do ministro”, Ricardo Borges.

Segundo a TVI, sedeada em Lisboa, a empresa iniciou a atividade em 2018 e, seis meses depois, começou a circular dinheiro. “Passou, pelo menos, por um dos principais bancos portugueses e acabou por fazer soar as campainhas: a banca, obrigada por lei a reportar movimentações suspeitas, denunciou o caso à Polícia Judiciária”, revela a TVI que diz que, frente a um eventual crime de branqueamento de capitais, a Unidade de Informação Financeira da Polícia Judiciário (PJ) decidiu encaminhar os dados recolhidos para o Ministério Público, que já abriu um inquérito.

Em nome da Diverminds, em Portugal, são registados vários bens, como carros de luxo, um prédio inteiro no Porto e um apartamento em Lisboa. A investigação da TVI garante ainda que o sobrinho do ministro tem mais empresas: a Plurienergia conseguiu um negócio com a Ambergol, Ambiente e Energia de Angola, por 500 mil euros, pagos em quatro vezes e enviados directamente para uma conta em Portugal. “Ao mesmo tempo, Ricardo Borges abriu mais duas empresas offshore, exactamente com o mesmo nome, nos Emirados Árabes Unidos: a Plurienergia Limited e a Plurienergia DWC” acções concretas.

A TVI que revela ainda que o ministro de Energia e Águas abriu uma empresa offshore com um dos filhos, estando em funções no Governo angolano, e deu como morada um apartamento em Lisboa. “Não se conhece a actividade concreta, mas emitiu várias facturas a uma outra empresa, na zona franca da Madeira”, revela a investigação que afirma ter tido acesso a documentos do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação nos quais descobriu o nome do ministro na constituição de uma offshore nas Ilhas Virge, quando já estava em funções no Governo. 

Em Cabo Verde, um descuido ou desatenção de Luís Tavares custou-lhe o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Em Angola, um país que já teve como Ministro Plenipotenciário de Angola junto da UNESCO, o traficante de armas Pierre Falcone, a decisão do Luís Tavares teria sido tomada como um deslize irrelevante.

Com toda a certeza e porque anunciada com vários dias de antecedência, o ministro da Energia e Águas viu a reportagem da TVI.

Refastelado no que se presume ser um luxuoso sofá, João Baptista Borges terá acompanhado descontraidamente o programa e, no final, ter-lhe-á ocorrido e feito o que todos fazem: telefonar de imediato ao chefe de gabinete do Presidente da República a marcar audiência urgente para, mais uma vez, reclamarem de perseguição por parte de “sectores portugueses inconformados com a nossa soberania”.

Mesmo quando expostos em hasta pública, demissão nunca foi opção para os governantes angolanos. 

Os dois exemplos aqui trazidos traduzem duas realidades distintas. Uma, a de Cabo Verde, um país de dimensão territorial quase insignificante, mas habitado e, sobretudo, governado por pessoas dignas, honestas, patriotas. Outra, a de Angola, um país de dimensões territoriais gigantescas, generosamente servido de recursos naturais, mas  – não há bela sem senão – governada por gente sem escrúpulos, miserável do ponto de vista moral, gatuna, anti-patriótica, gente que ama mais o dinheiro e outros prazeres materiais do que a própria família.

Enfim, continuamos a ser geridos pela mesma clique de “criminosos”, que o irlandês Bob Geldof denunciou nos anos 80, acusação contra a qual alguns dos “criminosos” reagiram com fingida mágoa.