Uma assustadora viagem por estradas em que se erguem inquietantes sinais de desgovernação!

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Quem sai de Luanda, seja para que destino for, antes mesmo de aquecer o banco, é quase imediatamente ferido por marcas que indiciam descaso governamental para com os seus próprios bens – no caso edifícios (?). Além de estradas (?) que se transformaram em “cemitérios” de camiões e pessoas, há ainda a condição miserável da maioria dos postos policiais, mais apropriados a um não-Estado…

Há muitos anos, muitos anos mesmo, na década de 1960, um grupo de jovens nacionalistas empreendeu viagem para o vizinho Congo Brazzaville, a fim de se juntar ao MPLA na luta pela independência de Angola. Depois de atravessar a fronteira, deixando atrás uma guarita de alvenaria, asseada, devidamente pintada e com soldados do exército português elegantemente ataviados, do outro lado, o grupo teve um choque: era a primeira vez que a maioria entrava em território independente da administração colonial. O posto fronteiriço, ao qual se dirigiram no lado congolês, escandalizou sobremaneira o grupo. Era uma tosca choupana de capim onde se achava um punhado de militares mal-amanhados, com botas empoeiradas e ar desleixado. À frente do posto, um pau torto – fazia de mastro – tinha no cimo segurada por dois pregos uma bandeira surrada pelo vento e pela chuva.

Depois de passarem o posto, estarrecidos, os jovens candidatos a guerrilheiros entreolharam-se de forma interrogatória e um deles – até há bem pouco tempo foi figura de proa do MPLA – disse com todas as letras: “Quando conquistarmos a nossa independência, Angola não será assim”, pressagiou para, depois, acrescentar: “Não podemos permitir que isto aconteça”. No caso, “isto” significava o desalinho que haviam acabado de ver. O cenário completava-se com um improvisado “fogão” à lenha, feito com três pedras, no topo das quais repousava uma panela tomada pela fuligem. O fumo saído das achas ardentes encobria levemente um tosco letreiro de papelão dependurado na parede frontal do pardieiro, onde se podia ler “Poste de Frontière”. O quadro, de acordo com o que relatou ao Correio Angolense um dos presentes, remetia-os para um sentimento misto de incredulidade e decepção. Afinal, era suposto os donos da terra fazerem melhor pelos “seus” que o “colono explorador”!

Uma das vergonhas está a poucas dezenas de quilômetros da capital do país…

Apesar do sonho e do ideário daquela rapaziada, o que aconteceu em Angola após a independência nacional teve muito de análogo com o que viram à entrada do Congo. Foi quase uma réplica perfeita, com o desmazelo a imperar na generalidade das instalações governamentais, principalmente no interior do país. E não é sequer necessário afastar-se muito de Luanda. À entrada do Sumbe, tanto a Norte como a Sul, os postos policiais são um rebaixamento. Paredes desbotadas, empoeiradas e sujas, passando a imagem de um Estado que se demitiu de uma das suas principais obrigações. E são estruturas já deixadas pela administração portuguesa, que não foram devidamente conservadas! 

Numa longa viagem de Luanda a Saurimo, passando pelo Uíje e por Malanje, o Correio Angolense constatou in loco como muitas instalações governamentais reflectem, de forma despudorada, a (des)governação de que o país é alvo durante anos a fio e agora está difícil de reverter. Inicialmente, pusemo-nos a caminho para uma outra missão, mas as reiteradas réplicas do cenário do “outro lado da fronteira” com o Congo com as quais nos deparamos impeliram-nos a enveredar por esta reportagem. 

Depois de Caxito, uma densa vegetação, onde sobressai imenso bananal, bordeja a Estrada Nacional n.º 225. E a primeira “réplica” não está distante. O choque acontece praticamente às margens do rio Dange, a 65 km de Luanda. O posto policial, também herdado da administração colonial, se acha no cimo de um pequeno outeiro de difícil acesso, principalmente para deficientes físicos e idosos. A subida é íngreme e no tempo chuvoso torna-se escorregadia. Sem escada nem rampa de acesso, quem tem que adentrar o velho edifício, a fim de fazer o rastreio sanitário obrigatório em razão da crise pandêmica que o Mundo vive, tem de submeter-se a uma sessão involuntária de ginástica. Como naquele casebre do Congo, um dos símbolos maiores da República, a bandeira nacional, está surrada (vide imagem) pelo vento. Rasgada mesmo, com parte da catana e da roda dentada carcomida. A da Polícia Nacional, ao lado não tem sorte melhor. É também um farrapo. A imagem que as duas bandeiras transmitem é a de um não-Estado, de baderna institucional, pois não é crível que na Logística da corporação não haja bandeiras novas para substituir as que já lá estão há séculos. Custa a acreditar, porque em determinadas zonas do casco urbano de Luanda (o aeroporto internacional é uma delas) o giro da polícia é feito com caríssimos automóveis 4X4 de marca… Lexus! Verdadeiro luxo.

Um posto destes, que em princípio é para lidar com estrangeiros, só é possível numa país-anedota como Angola…

Após demorada paragem para a despistagem do Coronavírus, a nossa viagem prossegue. Úcua, Kibaxi, Kitexi e finalmente Uíje, donde partimos para Malanje. Até chegar à terra da Palanca Negra Gigante, num percurso de 304 km, os controlos abundam e são quase todos improvisados. Na sua maioria são palhotas, indignas de um do Estado que se pretende sério. As estradas são péssimas e, por isso, às quatro horas e meia previstas pelo sistema GPS pode-se acrescentar mais uma e meia ou duas…

O pior, entretanto, estava por vir. Um verdadeiro inferno esperava por nós no troço Malanje-Saurimo. Antes da partida e para aproveitar a rede de telefonia móvel celular, ligamos o GPS. As coordenadas geográficas indicavam 10 horas e 22 minutos para cobrir a distância de 564 km entre ambas as cidades. Aparentemente, o tempo previsto levava já em consideração o estado caótico da via. É que, por exemplo, Luanda está separada de Benguela por 542 km e em regra a distância é coberta em muito menos tempo. De acordo com o GPS, seis horas e 58 minutos. 

Este posto de polícia, à entrada do Sumbe (saindo de Luanda), cuja estrutura foi deixada pela administração colonial, é dos melhorzinhos… agora imaginem os outros!

Tão logo deixamos Malanje, percebemos que as dificuldades seriam imensas. Velocidade a rondar entre os 30 e 50 km/hora e uma boa parte da viagem é feita em ziguezagues, tantos são os buracos para desviar. Outra parte é feita ao lado do que num passado muito distante já foi estrada, a EN 170. Um dos viajantes do nosso automóvel reclama dos intermináveis solavancos e escarnece: “Este é o único país do Mundo em que o carro tem de circular ao lado da estrada, em vez de fazê-lo na própria estrada!” Sorrimos com prazer. Mas o medo não nos largava. Afinal, as ladeiras são cemitérios de dezenas de automóveis e camiões que ali resvalaram em razão do estado da estrada (!). 

A nossa marcha corre devagar, devagar, devagarinho. Os camiões que vamos ultrapassando no percurso chiam, marcham pachorrentamente, talvez a 10 Km/hora, porque não podem arriscar, sob pena de seguirem os que já estão nos vales ao lado, onde jazem milhões de dólares consubstanciados em camiões de carga seca, camiões-frigoríficos, camiões-cisterna, camiões-cegonha e toda a sorte de maquinaria. Todos lá no fundo, irrecuperáveis. Tudo por causa das estradas, que, entretanto, estão a ser reabilitadas. E desta vez parece que são estradas de verdade e não as de “esferovite” que foram feitas durante um processo a que pomposamente chamaram de “Reconstrução Nacional”. Um dos pontos críticos é o Morro de Kabatukila, na comuna de Xandel, Município do Quela, em Malanje.

Quela, Caculama, Mucari, Xandele, Xá-Muteba e Kapenda-Camulemba. Após quase 270 km, outro posto policial. Este chama a atenção de todos por se tratar de uma unidade (?) do Serviço de Migração e Estrangeiro (SME). A visão da instalação é aterradora. Um casebre de chapas de zinco enferrujadas pelas intempéries do tempo, sobre o qual alguém teve a desfaçatez de colocar um pedaço de contraplacado com o distintivo do SME (vide foto). O pedaço de papelão do posto do Congo assomou à nossa mente. A imagem deprimente daquele posto espelha descaso governamental, falta de seriedade. E uma questão se impõe: não era possível colocar naquela lonjura próximo da localidade de Xamiquelengue um contentor-escritório e um contentor-dormitório, como há muitos da Polícia em Luanda, de modo a conferir dignidade àqueles homens? Fica difícil acreditar!Como em todos os postos policiais, também aqui fica-se uma eternidade. Em regra, o pessoal de serviços nos postos demora uma infinidade de tempo para registar dados simples como nome, idade, temperatura corporal e contacto telefónico. 

Um Estado sério não pode se permitir exibir desse modo um símbolo da República …

A viagem segue lenta. Xinje, Kacolo e Mona-Kimbundo, a poucas dezenas de quilómetros de Saurimo. Nesse trecho, o manto escuro da noite vai tomando devagarinho o lugar do dia até impor-se como o seu negrume assustador. Distantes, as luzes dos arredores da capital da Lunda Sul ainda são fraquinhas. Atravessámos o Rio Chicapa e de seguida surge-nos o último posto de controlo antes do nosso pouso. A imagem do “Poste de Frontiér” do Congo assomou-se-nos novamente à mente. Nas imediações de uma das mais asseadas capitais de província do país, há uma tenda cansada, em cuja lateral, bem aos olhos dos passantes, um soldado uniformizado bate um funji num penalão que parecia excessivo para tão pouca gente, talvez uns cinco elementos, entre polícias e militares – pelo menos os que estavam visíveis. Os feixes de luz que saem dos rasgões da barraca alumiam suficientemente bem para percebermos que as botas do cozinheiro de plantão estão esbranquiçadas devido à fuba que transborda do enorme receptáculo que mais parecia destinado um pelotão. Enquanto esperávamos a nossa vez de sermos atendidos para a vistoria ao comprovativo do teste de Covid, olhávamos curiosos para o soldado que suava em bica por força dos impetuosos movimentos para deixar a tchima (entenda-se, funji) sem bolhas. E, em conversa, tentávamos adivinhar qual era o conduto. Um dos soldados ao lado de nós ouviu a nossa descontraída troca de impressões e aproveitou imediatamente para, como quem nada quer, espetar-nos o sabre. “Vamos comer com água, chefe”, disse a sugerir que aquela refeição devesse ser acompanhada por um líquido menos santo. Embora não tenha dito abertamente, supusemos que seria algo etílico. Mas fizemos ouvidos de mercador, demos os comprovativos a assinar e continuamos a caminhada até ao destino final, Saurimo. Quando chegamos, exaustos, olhamos para o relógio já tarde da noite e percebemos que havíamos acabado de cumprir uma penosa jornada de 14 horas de viagem por estradas assustadoras em que os sinais de desgovernação são inquietantes.