As pernas curtas da mentira

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Ncomunicado do Departamento Provincial de Comunicação Institucional e Imprensa do CPP da Lunda Norte do dia 30 de Janeiro, anuncia-se, ipsis verbis, “a ocorrência de um acto de rebelião armada praticado por um grupo de aproximadamente 300 elementos, afectos ao movimento Protectorado Lunda Tchokwe (…) Os manifestantes eram portadores de armas de fogo do tipo AKM, caçadeiras, ferros, paus e outras armas brancas, bem como pequenos engenhos explosivos artesanais (…).

Nas imagens que circulam nas redes sociais  – e não foram desmentidas pela Política – constam um punhal, três paus, 2 ferros, uma AkM preta com carregador, uma carcomida AKM castanha sem carregador e duas velhas caçadeiras. 

Temos, portanto, que é com esse “impressionante” arsenal bélico que os rebeldes ou manifestantes (que a Polícia interpreta como sendo a mesma coisa, o que não é verdade) se dirigiram “às instalações de esquadra policial do Cafunfo para a sua ocupação efectiva” (segundo a versão da Polícia da Lunda Norte) ou “para de certa forma destronar o poder instituído” (segundo leitura do Comandante Geral da corporação, Paulo de Almeida.

Há aqui, desde logo, duas leituras não concordantes: “assaltar” uma esquadra policial é o mesmo que “de certa forma destronar o poder instituído”? O “poder instituído” esgota-se numa esquadra policial?

Adiante. Se a Polícia só conseguiu apresentar publicamente aquele arsenal bélico, então temos que 290 “rebeldes” dirigiram-se à esquadra, a qual queriam “assaltar” ou para “de certa forma destronar o poder institído” desarmados. Por mais ginástica que se faça não é possível distribuir 10 artefactos inteiros por 300 indivíduos.

Donde, ou as nossas Forças de Defesa e Segurança estão muito mal preparadas ou alguém está a atirar areia aos olhos dos angolanos.  Considerados os meios supostamente usados pelos atacantes e o número de manifestantes desarmados, aquilo que se passou em Cafunfo tem nome: massacre.( https://www.facebook.com/severino.carlos.7/videos/3987036174639759/)

A produção de diamantes atraiu para Cafunfo tudo quanto seja FAA, Polícia (com todos os seus ramos), todos os ramos dos Serviços de Investigação e de Segurança Interna, além de uma amálgama de empresas de segurança privadas detidas por generais das FAA e altos chefes da Polícia. Todas esses forças militares e militarizadas co-habitam aí como que ensanduichadas.

A pergunta é: com tanto dispositivo militar e militarizado disponível na região porque recorrer ao massacre para abafar uma manifestação de 300 pessoas, 290 das quais desarmadas?

Também está a circular nas redes sociais – e a Polícia não nega a sua autenticidade – um documento datado de 06 de Janeiro através do qual o Secretariado Regional de Cafunfo do Movimento do Protetorado Português da Lunda Norte comunica ao  administrador municipal do Cuango que iria realizar, no dia 30 de Janeiro, uma “manifestação pacífica para exigir diálogo ao governo angolano e o estabelecimento da Autonomia Lunda Tchokwe relamada há 15 anos”.

No documento, o Movimento do Protectorado Lunda Tchokwe solicita ao Comando Municipal “a devida protecção dos manifestantes”.

Ora, faz sentido que quem tenha comunicado às autoridades o propósito de se manifestar de modo pacífico e tenha, também, solicitado a protecção da Polícia, arregimente, paralelamente, meia dúzia de meios letais para afrontar as mesmas autoridades? Ademais, como é que 290 pessoas desarmadas iriam “destronar o poder instituído”? À guelhetada, cabeçada, socos ou a pontapés?

Por outro lado, numa localidadde apinhada de toda a sorte de serviços de investigação e de inteligência, ninguém se deu ao trabalho de monitorar os manifestantes? Ninguém os viu a mobilizar armas para irem tomar de assalto a esquadra policial de Cafunfo ou “de certa forma destronar o poder instituído”? Muito estranho!

Depois da visita relâmpago que fez a Cafunfo, o Comandante Geral da Polícia garantiu que “hoje, podemos afirmar que a situação está estável e tranquila, e a localidade de Cafunfo voltou à normalidade”. É possível que a situação tenha voltado “ à normalidade” apenas um dia depois da carnificina? Sempre agarrado as saias do poder, o Jornal de Angola não titubeou e segunda-feira estampou: “Situação em Cafunfo é estável e tranquila”. Essa mentalidade de cachorro submisso…

Desde que chegou ao poder, João Lourenço tem-se desdobrado em iniciativas diplomáticas para encontrar soluções negociadas para os vários conflitos que varrem a região dos Grandes Lagos. Ainda há poucos meses, conseguiu, em Luanda, um histórico aperto de mão entre os desavindos Yoweri Museveni, do Uganda, e Paul Kagame,  presidente do Rwanda. A semana passada, reuniu em Luanda vários chefes de Estado da África Central para discutirem a pacificação da Repúbica Centro Africana.

Por quê razão o Presidente da República tem essa disponibilidade para contribuir para a solucão de problemas alheios e não tem nenhuma para os problemas domésticos? O Presidente da República jamais se pronunciou a respeito de assassinatos de cidadãos angolanos. É lícito concluir que a João Lourenço as vidas dos angolanos não importam?

É do mais elementar senso que a árvore não perde a vida com o simples corte dos seus ramos. Quando as raízes não são afectadas, a árvore renasce com mais vigor. É uma perda de tempo e de vidas procurar a solução para o problema da Lunda no cano da arma. Em Cabinda, a opção militar não sufocou as reivinidações independentistas. Na Lunda Norte também não será diferente. Mesmo porque ali florescem cada vez mais as causas da insatisfação das populações. A miséria em que vivem as pessoas é indiscretível. Os 10 manifestantes mortos não levaram consigo na vala comum o ideário perseguido pelo povo Lunda Tchokwe. Como ensina a sabedoria popular, a morte de uma andorinha não significa o fim da Primavera. As causas da insatisfação da população permanecem intactas.

Rui Filipe Ramos, um experimentado jornalista do Jornal de Angola, visitou recentemente a região e sábado, a propósito do massacre de Cafunfo, postou este comovente texto nas redes sociais: “Deixaram chegar a isto, eu andei pelas estradas e aldeias da Lunda Norte ainda não há muito tempo, peço desculpa se importuno, meus camaradas, mas aquela pobreza do povo é obscena, podem vir mil ou um milhão de respostas e análises, eu permaneço teimoso na minha: não há direito de as populações terem atingido tal grau de miséria. Desculpem se ofendi alguém.”

No mesmo sentido pronunciou-se o Bispo de Cabinda. “O que se passou em Cafunfo-Lunda Norte, é muito grave (…) Este País é grande demais e nele cabemos todos! É muito rico, mas é preciso que se deixe de roubar e se distribua bem a riqueza mediante a diversificação da economia geradora de empregos. Não podemos continuar neste paradoxo que faz das zonas de exploração de riqueza verdadeiros pântanos de pobre!”

Já Dom José Manuel Imbamba, Arcebispo de Saurimo, faz perguntas inquietantes: Há necessidade para tanta violência, desumanidade e falta de respeito pela dignidade e vida humana? É tão difícil criarmos pontes de diálogo, compreensão, tolerância e fraternidade? Os problemas sociais, de miséria, exclusão e analfabetismo são mais do que evidentes nesta região Leste: em vez da política dos músculos não seria mais sensato cultivarmos a política do diálogo para juntos resolvermos e vencermos as assimetrias sociais gritantes tão notórias?”

Quer individualmente quer como entidades colectivas, as Igrejas Metodista Unida de Angola, Tocoísta e Kimbanguista, sempre atreladas ao poder, observam um comprometedor silêncio.

É um tremendo engano supor que a manipulação e a distorção dos factos altera o seu curso.

Em Cafunfo, o Comissário-Chefe da Polícia Nacional já deixou claro que não se pode contar com essa corporação para um inquérito justo e imparcial. Ao qualificar como vândalos os cidadãos que supostamente se dirigiram à esqudra da policia local para “de certa forma destronar o poder instituído”, Paulo de Almeida já tomou partido.

Na Rádio Nacional de Angola, o comentarista Milonga Bernardo distorceu propositadamente os factos ocorridos em Cafunfo. Em pelo menos duas ocasioes, MB atribuiu aos manifestantes propósitos independentistas. Sucede, porém, que os membros do chamado Protectorado da Lunda Tckokwe nunca reclamaram independência ou auto-determinaçao. Reclamam, sim, autonomia.

Ora, um jurista que não consegue distinguir um conceito do outro tem de mudar de profissão ou regressr aos bancos da escola média média para fazer refrescamento.

Nas redes sociais há um intenso movimento de repulsa ao massacre de Cafunfo.

A sociedade está a fazer a sua parte, aconselhando o Executivo a privilegiar outras soluções para acomodar as reivindicações das populações, sejam elas de Cabinda ou da Lunda.

Que o Presidente da República não se deixe contaminar pelo trinfalismo dos “falcões” de que se fez rodear. Não é certamente por acaso que o núcleo principal do seu séquito é constitituido por militares, mesmo que na reserva.

Vejamos: Presidente da República (General); Vice-Presidente da República (General); Juiz Presidente do Tribunal Supremo(Brigadeiro); Procurador Geral da República (General); Chege da Casa de Segurança (General); Presidente da Assembleia Nacional (General); Chefe do Serviço de Segurança (General); ministro do Interior (General). Fora do circuito institucional, as únicas pessoas autorizadas a bater a porta do PR a qualquer hora e sem marcação de audiência são o já referido Eugénio Laborinho, o General Disc iplina (CEMG das FAA) e o angito Procurador Militar, António dos Santos “Patónio”. Os tres poderes (Executivo, Legislativo e Judicial são liderados por militares. Será que é de lá que lhe vem a garantia de que as desavenças internas solucionam-se, invariavelmente, com recurso a ponta do fusil? 

Os trágicos acontecimentos de Cafunfo impõem que a sua investigação seja feita por deputados de todas as bancadas parlamentares, Procuradoria Geral da República e membros da sociedade civil.

Permitir que a investigação seja feita exclusivamente pela Polícia é o mesmo que admitir que alguma vez o porco será algoz do javali.

Uma nota final: o comunicado da Polícia da Lunda Norte refere que os feridos resultantes da carnificina foram prontamente encaminhados a hospitais. Não é isso o que mostram as imagens que circulam nas redes sociais. Nelas vislumbram-se feridos a agonizar enuanto militares e polícias escarnecem do sofrimento dos seus compatriotas.

É caso para dizer que a selvajaria imoôs-se neste país.