Bastante perturbador

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Lê-se, apesar de tudo, na declaração  do BP do MPLA, de 05/02/202,  bons e interessantes trechos. Em que os redactores “revelam”, abundantemente, um talento para a  ficção, mas muito mais  para o terror, de categoria B,  especialmente dedicada ao público desobediente. É para ser levado a sério – e até guardar como relíquia.

Como neste trecho particularmente perturbador: “A abertura democrática que se vive realmente em Angola desde as últimas eleições que elegeram o Camarada João Lourenço como Presidente da República é algo que veio para ficar que deve ser aproveitada e aperfeiçoada no interesse do país e dos angolanos.” 

Se lessem apenas este trecho, os aproveitadores da “abertura democrática” proporcionada pelo “Camarada Presidente da República” certamente achariam normal, mas, a declaração reservava ainda uma de várias advertências: 

“Contudo, o que temos vindo a constatar é que esta maior liberdade de imprensa, de expressão, de reunião e de manifestação, está a servir para promover o desrespeito á constituição e á lei, aos símbolos nacionais, o desrespeito à autoridade instituída, o desrespeito ao património público, o que é perigoso para a estabilidade político-social e contrária ao bom ambiente de negócio, atractivo do investimento privado, que se vai criando, ultimamente.”

Ler, adequadamente, este trecho com bastante espírito de obediência, ou seja, demos-vos um bocado mais de liberdades do que o anterior Presidente, se julgarmos que não são merecedores deste bocado a mais, suspendemos a dádiva, até porque, por não saberem usá-la na forma como queremos, estão a estragar o ambiente de negócios.

Entendam de uma vez por todas: a relação povo-governantes é de subordinação e aquelas regiões, como Cafunfo, devem dar-se por satisfeitas com o que lhes concedemos, porque há outras, como o Bengo e Kwanza-Norte, e o próprio Soyo, de onde extraímos petróleo,  as quais só reservamos algumas migalhas – e por isso, devem agradecer.

Numa eventual revisão da constituição haverá, porventura, quem proponha esta emenda, no capítulo dos poderes de prodigalidade do Presidente da República.

Revelada que está a quem pertence a constituição,  há também que anunciar a quem pertence, em regime de exclusividade, o povo, este  rebanho de ovelhas cujo pastor é o “nosso” Deus-Presidente – e mais ninguém. 

Depois, somos nós (do MPLA) os únicos no país capazes de vos dar comida, que até desminamos as vossas pequeninas lavras, portanto, cerrem fileiras em torno do executivo liderado pelo Camarada João Lourenço, 100 por cento angolano.

Porque aquele político (vocês sabem quem é) não tem escrúpulos e até é um estrangeiro que tem uma agenda política cujo objetivo é separar o povo angolano do seu amado e desejado partido. 

Em 500 anos os colonos não conseguiram desenvolver Angola, nós só estamos atrasa-lo há 45 anos, fazendo as contas de subtrair, como veem, ainda vamos precisar de mais 450 anos. 

A declaração, claro, suscitou uma onda de euforia e alegria nos militantes, será adoptada como documento de trabalho e orientador, rumo às eleições de 2020.

Alguns acharam apenas graça, outros aproveitaram a declaração para preencher os muitos  tempos vazios proporcionados pelo feriado gordo do 4 de Fevereiro, mas há quem tenha entendido  a grave ameaça ao estado democrático de direito.