No “Secretariado do MPLA abundam muitas cabeças mas poucos cérebros”… (I)

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(Gustavo Costa In Novo Jornal, 02 Outubro de 2020)

Certo dia, questionado sobre as razões da sua aliança com o regime do apartheid dominante na África do Sul, o “Barbas”(Jonas Savimbi) respondeu tranquilamente: “quando você está a se afogar não escolhes a mão que está a te salvar”. Ironia das ironias, o MPLA parece hoje enxergar em Adalberto da Costa Júnior as mesmas águas revoltas nas quais Jonas Savimbi temia afogar-se. Para evitar o afogamento, Savimbi pendurou-se com todas as suas forças aos racistas brancos sul-africanos. Por medo de Adalberto da Costa Júnior, o MPLA faz recurso aos mais bárbaros e primitivos sentimentos que habitam no ser humano: o racismo, a xenofobia, enfim, a intolerância. Paradoxo: em Cafunfo e por causa dos acontecimentos ali ocorridos, o MPLA repete a velha e conhecida ladainha de que o país vai de Cabinda ao Cunene e do Mar ao Leste. Nem mais um pedaço, nem menos um pedaço. Mas em Luanda, o mesmo MPLA usa o mais poderoso meio de comunicação social público, a TPA, para dividir os cidadãos deste país em mais ou menos angolanos.
Savimbi conviveu até à sua morte com o estigma de aliado dos racistas sul-africanos; o MPLA hoje está em alegres núpcias com o racismo e a xenofobia. Mas ao contrário de Savimbi, acostumado, na UNITA, a que todos se vergassem a todos os seus caprichos, no MPLA há vozes que se estão a levantar contra o “vale tudo”, contra o recurso a mercenários e oportunistas, contra falsos militantes. O Correio Angolense faz aqui um breve resumo de muitos avisos à navegação que partem de militantes consequentes do MPLA e de conhecidos e reconhecidos actores da sociedade civil.

《Quem bajulou o Presidente JES durante décadas, deve agora bajular o Presidente J. Lo também? Kumé Antão? Hoko! (desculpem, queria dizer então. Lá onde digo Antão, não digo Antão, porque digo então)》- Fragata de Morais, in Facebook

Jacques A. dos Santos

《(…) Como se não bastasse a verborreia do preto imbecil, seguiu-se a conversa sem nível da branca, tão imbecil quanto o preto, porém mais oportunista e, por isso, mais perigosa. Empurrada por alguém que a promove sem cuidado, surge-nos nos ecrãs da TPA, a participar de um programa prestigiado mas longe de ser isento, num exercício de demagogia pura, descaradamente, a ressuscitar os demónios do racismo que sustentam a mediocridade. A branca, na sua tristonha intervenção, mostrou-se pela nulidade natural da sua pessoa e pelo imenso vazio da sua mensagem.
Utilizando linguagem perigosa, plena de malandragem, oportunismo e ambição, mostrou a quem quis ver, todos os atributos que caracterizam a gente sórdida. São pessoas que, como ambos, preto e branca, jamais terão a possibilidade de entender como os cidadãos norte-americanos, há doze anos, elegeram o mulato Barack Obama como seu presidente, tendo hoje uma vice-presidente negra, recém-eleita. Do preto, não possuo qualquer dado que me permita qualificá-lo. Da outra, a parceira branca de raciocínio oco, na sofreguidão oportunista que a impede de percepcionar os efeitos da exploração rácica, disse asneiras irreparáveis de que, infelizmente, a direcção da TPA se tornou cúmplice, num descuido (?) indesculpável da sua linha editorial. Foi em muito má hora que decidiram convidá-la para aquele triste sarau. (…) Não sou tipo de falar à toa. Tenho o testemunho de angolanos, portugueses e luso-angolanos, uma mão cheia de provas dos assuntos e dos factos vergonhosos, alguns que eu próprio já conhecia e me permitem qualificar essa senhora. É uma pessoa sem escrúpulos! Perita em traição, roubo e burla contra pessoas e instituições! (…) Ver depois um órgão da importância e com as responsabilidades do Bureau Político do MPLA, a produzir um comunicado tão deficiente, tanto na forma como no conteúdo, aguardado pelo impacto forte que provocaria face ao contexto actual, é deprimente e ao mesmo tempo preocupante. Porque, tristemente ferido de uma falsa identidade, já que empola a negritude e explora subtilmente o racismo, de um modo que nunca me habituei a ver nos procedimentos do glorioso MPLA, onde se defendeu sempre, para além da unidade nacional, a ideia de que o racismo tem, sempre teve, uma base económica a sobrepor-se à cor da pele de cada um. Não prosseguir nessa linha é dar campo aos mais reles ataques à condição de origem étnica. E é assim que passamos a compreender os protagonismos de certos indivíduos, transformados em gestores, dirigentes e deputados do partido que nos habituamos a respeitar, e cujas intervenções, de tão medíocres, chegam a causar náuseas, mesmo a quem não sofra do estômago.
Finalizo, afirmando que apoio, sim, a intervenção pública dos padres e bispos católicos e não apenas esses, no momento que vivemos. Sou absolutamente a favor das suas oportunas, conscientes e consistentes intervenções a favor da nossa Angola e da unidade entre os seus filhos. Primeiro, porque são cidadãos como qualquer um de nós, com o seu direito de opinião adquirido. Têm necessariamente preferências, como todos nós temos, por clubes de futebol ou por organizações políticas. Mas ao contrário de muitos de nós, os respeitáveis prelados falam da Angola total, dos nossos concidadãos e das suas dificuldades e não se imiscuem na luta e nos programas partidários de nenhuma agremiação. É preciso vencer a pandemia e a crise económica com gente honesta e esclarecida. Só assim Angola nos merece. 》Jacques A. dos Santos, in Jornal de Angola de 13 de Fevereiro de 2021

Gustavo Costa

《 (…) O recurso a essa tese (‘desangolanizar’ o líder da UNITA) é inconsistente, denota perda de controlo, mas pode acabar por rebentar por dentro com o efeito de uma bomba de neutrões. Não havendo, à volta desta ‘pandemia’ , uns mais puros do que os outros, ao fazer essa desesperada fuga para frente, o MPLA esqueceu-se que, ao lançar o cuspo para o ar, tem agora o cuspo a encharca-lhe a cara de porcaria. Ao fazer essa guinada, o MPLA nega a sua própria história e recusa tirar uma fotografia ao seu passado, ao tentar, à pressa, rasgar um presente recheado nas suas fileiras de originários de portugueses sim, de cabo-verdianos sim, de são-tomenses sim, mas também de zairenses e namibianos ! Ao fazer recurso a um (não) argumento para tentar desferir um golpe (baixo) ao líder da UNITA, o MPLA arrisca-se agora a abrir uma caixa de Pandora, não podendo esconder-se por detrás das máscaras que elegeram como um dos cabeças de cartaz do seu Comité Provincial de Luanda um conhecido comerciante polaco. Nem por detrás da máscara da sua última aquisição, que importada do submundo da vigarice em Portugal, que, meia lusitana, meia angolana, acaba de ser eleita a derradeira estrela-paraquedista do programa A Política no Feminino da TPA…Duvido, por isso, que, agarrado a esse guião, o MPLA tenha sucesso. Duvido porque trilhando um caminho perigoso e abrindo feridas internas, está-se a esquecer que, debaixo das suas pernas, há um espelho que permite a toda a gente ver-lhe a cor e o tamanho das cuecas. Do que não duvido, porém, é que, muitas vezes, antes de atirarmos pedras para o telhado do vizinho, devemos olhar primeiro para o nosso telhado. 》Gustavo Costa in “O Espelho” in Novo Jornal, 12.02.2021.

José Eduardo Agualusa

《Atacar o Adalberto por ter dupla nacionalidade ou por ter tido dupla nacionalidade ou fazer ataques raciais é a pior estratégia que o MPLA poderia escolher. Parece-me um disparate total, um tiro no pé com uma bazuca. Já nem vou falar de questões de ética ou de moral porque presumo que a esta altura dos acontecimentos o partido dos camaradas não dê muita importância à ética e à moral. Vamos falar de estratégia política. Ao contrário do MPLA, que foi fundado por angolano de ascendência portuguesa, a UNITA não tem nada a provar, não precisa provar que é um movimento de angolanos negros, porque foi sempre. Os militantes da UNITA escolheram o Adalberto, votaram nele pela competência e não pela cor da pele. A UNITA não vai perder o voto dos seus militantes pelo facto do Adalberto ser mestiço. Ao contrário, despertar esse tipo de polémica neste momento poderá prejudicar, isso sim, o MPLA. Muitos militantes do MPLA, que sempre tiveram dupla nacionalidade e são de ascendência europeia, irão provavelmente sentir-se agredidos e humilhados e a ser tentados a passar-se para a UNITA ou a votar na UNITA. , em qualquer caso será sempre a UNITA a ganhar; Adalberto deve estar a rir e tem bons motivos para rir. O MPLA não tem que preocupar-se com a UNITA, tem de preocupar-se com os seus estrategas. O MPLA continua a ser o pior inimigo do MPLA e antes disso já estava em guerra civil consigo próprio. Essa polémica só servirá para aprofundar ainda mais essa guerra civil.》José Eduardo Agualusa, in MFM, 13 de Fevereiro de 2021