O PR é bobo da festa?

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É do bom senso que cair uma vez num buraco é normal. Cair duas vezes no mesmo buraco já é motivo de troça. Espatifar-se uma terceira e quarta vezes no mesmo buraco já vai além da simples distracção; pode indiciar, já, algum distúrbio. 

Nos quatro anos de consulado, que completa em Setembro, o Presidente da República já se espalhou em cascas de banana que, em muitas pessoas, provocam aqueles constrangimentos de fazer corar a cara de vergonha. Não parece ser o caso dele.

Com a solenidade que o envolve sempre, o discurso sobre o Estado da Nação de 2018 do Presidente da República foi apimentado com uma inverdade: a conclusão da mediateca do Bié. Como a casca de ginguba na água, a verdade não tardou a emergir: a mediateca não estava pronta.  

No seguinte, exactamente a 15 de Outubro, por ocasião da sua segunda mensagem  à Nação, João Lourenço anunciou, triunfalmente, que o troço da estrada nacional 100, que liga Cabo-Ledo a Lobito, já estava completamente reabilitado. O mesmo se teria passado com o troço que liga Lucala, Malange e Saurimo.
Nos dois casos verificou-se que o Presidente da República, mais uma vez, foi enganado.

Além das três constrangedoras inverdades, o Presidente João Lourenço viu, ainda, associado o seu nome a um faraónico projecto imobiliário que consistiria na construção de um bairro exclusivamente destinado a ministérios. Um projecto em que o “povo em geral” enxergou falta de sentido de governação e incapacidade de hierarquizar as necessidades do país.

Tomada pelo então ministro da Construção e Obras Públicas como questão de honra do seu pelouro, a extravagante ideia do bairro dos ministérios acabaria por ser abandonada a meio do trajecto e não é crível que a médio prazo ganhe vida.

Vergado à quimera de transformar Benguela na Califórnia de Angola, empreitada que, no entusiasmo da campanha eleitoral de 2017, colocou sobre os ombros de Rui Falcão, nos últimos dias o Presidente da República deu mais um salto às terras da ombaka para ver a quantas anda o sonho. 

Presidente da República em visita ao Hospital Municipal da Baía Farta

Durante a visita ao Hospital Municipal da Baía Farta, viu-se nos olhos do Presidente da República alegria pela obra em curso e orgulho pelos empresários locais porque, entretanto, alguém lhe assoprou que o empreendimento estava a ser financiado por homens de negócios locais.

Comovido, o Presidente da República até prometeu contrapartidas aos “filantropos” benguelenses. “Uma mão lava a outra”, disse.

João Lourenço ainda não tinha tomado o avião de regresso a Luanda quando foi informado que tinha caído em mais um “barrete”.  A construção do HMBF foi totalmente financiada por fundos públicos. Já no final da empreitada e para mostrar serviço ao Presidente da República, o governador de Benguela estendeu a mão a empresários locais a quem pediu “trocados” para comprar mobiliário e outros equipamentos em falta. 

Mas, no essencial, o Hospital Municipal da Baía Farta foi construído com fundos públicos. Sabem-no os ex-governadores de Benguela Armando da Cruz Neto e Isaac dos Anjos. E sabe-o o governador actual Rui Falcão.

O gesto de profunda gratidão  perante o suposto gesto altruísta dos empresários locais deu do Presidente da República a imagem de quem anda a leste de muita coisa.

No Presidente da República já não preocupa, apenas, a frequência com que se espalha ao comprido. O que é também cada vez mais preocupante é a contemporização com quem lhe coloca as cascas de banana no percurso.

A condescendência do Presidente da República contrasta com a cara de poucos amigos, com o seu semblante sempre fechado, sugerindo que não brinca com coisas sérias. Mas, aparentemente, há no seu próprio “inner circle” quem já perdeu o medo do semblante sempre severo do Presidente da República. Dir-se-ia, mesmo, que perdeu-se o respeito ao mais velho…

José Carvalho da Rocha, responsável pelo “barrete” da mediateca, é hoje governador do Uíge.  E ele não embaraçou o Presidente da República apenas no episódio da mediateca. Foi ele também o responsável pela farsa que foi o primeiro concurso para a atribuição da licença à quarta operadora de telefonia móvel. Gigantes mundiais das telecomunicações como a Vodafone e outros viram no concurso um jogo com cartas marcadas e desistiram.

Outro “artista” que causou constrangimentos ao Presidente da República é o actual ministro Ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território. Apesar das inverdades sobre estradas e do megalómano projecto da cidade dos ministérios, Manuel Tavares de Almeida sobreviveu a tudo e continua aí de pedra e cal. Diz-se que é um dos intocáveis no Executivo de João Lourenço.

Depois de haver passado a mão sobre os cabelos de José Carvalho da Rocha e de Manuel Tavares de Almeida, o Presidente da República vai, agora, levantar o chicote contra quem lhe mentiu em Benguela?

A frequência com que o Presidente da República cai em equívocos, sugere que lá na Cidade Alta e arredores ou a gente a cavar laboriosamente o buraco onde querem enterrar o chefe que fingem servir ou enxergam nele os “requisitos” de um excelente bombo da festa.

A condescendência e a contemporização são irmãs gêmeas da impunidade, que o Presidente diz fazer parte do “cardápio” dos males que combate.