Tão jovem e tão “bandeiroso”…

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Em 1988, Angola, Cuba e África do Sul assinaram o que mundialmente ficou conhecido como Acordo Tripartido de Nova Iorque, nos termos do qual foram estabelecidas as  balizas para a independência da Namíbia e a retirada de todas as forças estrangeiras do território angolano.

Esse acordo pôs fim a um longo período de intervenções militares sul-africanas em Angola. 

Quando esse histórico evento aconteceu, o actual ministro da Economia e Planeamento tinha, apenas, 10 anos.

Com aquela tenra idade, ninguém exigiria que Sérgio de Sousa Mendes dos Santos tivesse a mínima noção do que significava o Acordo Tripartido de Nova Iorque e a sua repercussão no teatro operacional angolano.

Mas hoje, aos 43 anos de idade, membro do Executivo de Angola, Sérgio Santos tem obrigação de saber que as agressões sul-africanas ao nosso país cessaram naquela data. O nosso ministro da Economia e Planeamento tem obrigação de saber que, 33 anos depois, Angola não pode mais escudar-se nas investidas militares sul-africanas para justificar o mau estado da generalidade da sua malha viária.

No Cunene, onde teve há poucos dias um encontro com empresários locais, Sérgio Santos disse uma daquelas barbaridades que fariam corar de vergonha todas as pessoas sensatas. 

Um empreendedor, de 30 anos, disse ao ministro temer que as 40 anos já esteja arrumado numa cama de hospital “a tomar comprimidos por causa da coluna” em consequência do calvário que é andar diariamente pelas estradas do Cunene. Segundo esse empresário, Félix Mateus, o Governo deveria investir prioritariamente na recuperação de estradas e só depois deveria financiar a compra de tractores.

A reacção do ministro da Economia e Planeamento a essa perturbadora antevisão do empresário e a comparação que estabeleceu entre as estradas de Angola e da vizinha Namíbia  foi espantosa. Segundo ele, os angolanos não podem pretender acordar e ver “as nossas estradas já iguais às da Namíbia e da África do Sul” porque, “foram muitos anos de destruição das estradas de Angola fruto das invasões dos que saíram do sul”.   

Aos 43 anos e já  “doutorado” em arrivismo,  Sérgio Santos não desaproveitou o encontro para colocar a sua pedrazinha no edifício que institucionalizou a bajulação em Angola. Reconhecendo que nos últimos 10 anos as “coisas correram um bocado mal”, o jovem ministro não deixou, contudo, de ressaltar que o Presidente da República “está a corrigir”. 

O nosso Governo tem sido herói por causa dos anos de destruição das estradas de Angola fruto das invasões dos que saíram do sul”, disse o ministro, citado pelo semanário Valor Económico. Para exemplificar o que o Presidente da República está a corrigir, o ministro disse que o Executivo destinou recursos para brigadas de estradas. Com alguma relutância ele  reconheceu, contudo, que  é necessário  “pôr mais dinheiro nas estradas”. 

Por mais voltas que se dê é de todo impossível deixar de ver nas declarações do ministro da Economia e Planeamento um insulto à memória dos angolanos.   

Se dedicasse alguma atenção ao passado recente deste país, o jovem ministro saberia que é por vontade própria dos seus governantes que Angola não tem, hoje, uma malha viária de que se possa orgulhar.

Um ministro da Economia e Planeamento atento é obrigado a saber que, entre 2002 e 2008, as exportações de petróleo angolano somaram mais de 190 mil milhões de dólares e as receitas fiscais ultrapassaram os 140 mil milhões. Temos, portanto, que em 6 anos, circularam pela Sonangol e pelo Banco Nacional de Angola mais de 330 mil milhões de dólares.

Depois do forte abanão da economia global em 2008, provocado pela crise do Suprime, nos Estados Unidos, o preço do petróleo voltou a subir e em 2012, quando a unidade estava cotada em 112 dólares, Angola produzia diariamente mais de 1.800.000 barris.

Nesse período, além das fartas receitas proporcionadas pelo petróleo, o então Governo de Angola endividou o país à China em mais de 35 mil milhões de dólares. 

A retoma do preço do petróleo em 2010 coincidiu com a aprovação da actual Constituição da República de Angola, a qual doou a José Eduardo dos Santos todos os instrumentos jurídicos para a privatização do país em seu proveito e no do seu grupo.

Economista de formação, Sérgio Santos por certo saberá que os mais de 330 mil milhões de dólares que o petróleo gerou entre 2002 e 2008 e os outros biliões provocados pelo “boom” de 2012 dariam não para construir estradas do primeiro mundo, mas para construir, a partir do nada, um país do primeiro mundo.

Com gente séria e honesta, Benguela já seria, há muito, a Califórnia com que o Presidente João Lourenço sonha, mas, seguramente, não conseguirá construir.

O Dubai, que é hoje a nova meca mundial, a cujos encantos as nossas elites não resistem, foi construída com muito, mais muito menos dinheiro. 

Se gerida por pessoas sérias, só a “montanha” de dinheiro tomado de empréstimo à China teria dado lugar a estradas, pontes e outras infraestruturas de que as presentes e futuras gerações se orgulhariam por anos a fio.

Sucede, porém, que a gestão do bilionário empréstimo caiu nas mãos de corruptos e salteadores. 

Os chineses, a quem os nossos (des)governanantes confiaram levianamente a reconstrução do país, nunca esconderam ao que vieram: vigarizar os angolanos. O primeiro sinal muito sério dos propósitos chineses foi dado em 2008, quando o Hospital Geral de Luanda desabou, mal os construtores tinham desmontado o estaleiro.

Em paralelo, foram se somando evidências e provas de que as estradas que os chineses andariam a reconstruir pelo país não passavam de verdadeiros embustes.

Desse período dito de reconstrução nacional, Angola “herdou”, essencialmente, aquilo que o nosso povo chama de estradas de esferovite, uma colossal dívida à China e fortunas construídas com o roubo e desvio do dinheiro que deveria sustentar uma reconstrução séria do país.

Não há, nesse saque do dinheiro público angolano qualquer mão sul-africana. 

Angola não tem estradas nacionais dignas desse nome porque os seus governantes aliaram-se a chineses inescrupulosos e, juntos, roubaram o dinheiro que deveria apoiar a reconstrução nacional.

Trinta e três anos depois do fim das invasões sul-africanas ao país e 19 depois do fim da guerra interna, é embaraçoso para os angolanos que um seu governante impute a um país estrangeiro o mau estado das suas estradas. 

Mas, bem vistas as coisas, Sérgio  Santos não disse nada que nos devesse surpreender. No fundo, o que o jovem ministro fez foi, apenas, oxigenar o velho discurso do MPLA assente na desresponsabilização e no sacudir a água do capote. Um discurso em que não há lugar à autocritica e à humildade.

O que o ministro da Economia e Planeamento disse inscreve-se na mesma linha de um famoso discurso de José Eduardo dos Santos numa reunião do Comité Central do MPLA, em 2011.

Dizem, por exemplo, que há pobreza no país. Nunca ninguém disse que não há e esta situação não é recente. Quando eu nasci e mesmo quando os meus falecidos pais nasceram já havia muita pobreza na periferia das cidades, nos musseques, no campo, e nas áreas rurais”.

Em 2011, e exercendo o poder já lá iam 32 anos, José Eduardo dos Santos ainda não se sentia obrigado a pôr fim ao flagelo da pobreza porque quando veio ao mundo “já havia muita pobreza”.

Em Fevereiro deste ano, passados 10 anos, o Bureau Político do MPLA, partido no poder há ininterruptos 45 anos, assumiu que o Governo que sustenta não se sente obrigado a acabar com as assimetrias no país porque são um fenómeno herdado do colonialismo.

“É um facto que existem assimetrias regionais no desenvolvimento socioeconómico do nosso país, mas essas assimetrias remontam ao período da colonização portuguesa (…). Não é realista e justo pensar-se que, em apenas 45 anos, os sucessivos governos de Angola independente já́ deveriam ter feito a correcção dessas assimetrias, o que os portugueses foram incapazes de corrigir durante mais de cinco séculos.”

É a essa cartilha de desresponsabilização, disseminada entre os militantes do MPLA, que o ministro da Economia e Planeamento recorreu para justificar o saque e a pilhagem a que o país esteve sujeito. É nesse discurso da fuga para frente, da ausência de compromisso com o país, que Sérgio Santos se apoia para explicar o que não foi bem feito, para justificar a ladroagem e o antipatriotismo de muitos dos seus camaradas de trincheira.

Nas reuniões do Comité Central do MPLA a que participa, Sérgio Santos senta-se ao lado de indivíduos que desviaram para os próprios bolsos dinheiro que permitiria a construção de boas e duradouras estradas em Angola. 

Qualquer condutor que se preze, sabe que a fixação dos olhos no retrovisor do carro acaba, fatalmente, em acidente. O ministro da Economia está algemado a um passado que, ainda por cima, não conhece. 

“Banderas” como a de Sérgio Santos são constrangedoras para os jovens que carregam sobre os ombros a patriótica responsabilidade de construir uma Angola decente. Uma Angola em que o mérito não pode ceder ao arrivismo, ao lambe-botismo, ao vale tudo, incluindo cobiçar cargos de colegas, com o alto patrocínio do padrinho…

Recentemente, o Club-K noticiou que o administrador do Cazenga, Tomás Bica, teria sido instruído pelos seus superiores a dar férias temporárias à sua afiada e quase sempre inoportuna língua. De acordo com o mesmo sítio, a orientação teria decorrido da constatação de que as repetitivas declarações de Tomás Bica, nomeadamente sobre o conflito territorial com o seu homólogo de Cacuaco, estariam a dar do MPLA uma imagem de desagregação.

Nas redes sociais, o súbito silêncio de um deputado do MPLA é também atribuído a uma “orientação superior” no sentido de congelar temporariamente a (má) língua e os dedos.

Sérgio Santos também pode estar a necessitar de uma orientação que o afaste temporariamente dos microfones. Quando os tem pela frente, o jovem ministro empolga-se em demasia.