Joana Lina, uma “batata quente” nas mãos do Presidente da República

486

Apesar da imensa onda de reprovação ao seu desempenho da governadora de Luanda, o Presidente da República ainda não decidiu se mantem ou não Joana Lina no cargo.

Joana Lina  tem enfrentado uma crescente onda de contestação motivada, sobretudo, pela sua desastrada actuação em relação ao lixo.

Nomeada em Maio do ano passado, a primeira e mais importante medida que tomou foi não renovar os contratos que vinculavam o Governo de Luanda a operadores de limpeza. 

Sem limpeza e recolha de resíduos sólidos, Luanda, em toda a sua extensão, foi sucumbindo à imundice até transformar-se, literalmente, num aterro sanitário a céu aberto.

Em Fevereiro deste ano, o Presidente da República aprovou uma despesa de 34,89 mil milhões de kwanzas (cerca de 44 milhões de euros) para aquisição de serviços de limpeza pública e recolha de resíduos sólidos na província de Luanda.  

Pouco mais de um mês depois da sua abertura, no dia 29 de Março o Governo de Luanda anunciou os resultados do concurso. Foram habilitadas a ELISAL, ER-Sol, Multilimpeza, Jump Business, Chay Chay e Consórcio Dassala/Envirobac. No dia seguinte, as empreitadas foram adjudicadas com a assinatura dos respectivos contratos. 

Contudo, quase duas semanas depois, a contratação de novas operadoras não se traduziu em nenhuma melhoria na recolha de lixo. Arrastado pelas águas das chuvas que têm se abatido de maneira inclemente sobre Luanda, o lixo espalha-se por todas as artérias, dando da província e, nomeadamente, da sua capital a imagem de um acabado aterro sanitário a céu aberto.  

Ante o crescendo de reprovação ao desempenho de Joana Lina e temendo os danos colaterais que isso poderia provocar à imagem do partido, o Comité Central do MPLA  decidiu a semana passada “aliviar” a governadora de Luanda do cargo de primeira secretária provincial da organização, que acumulava.

A “separação de águas” ocorrida em Luanda não traduziu  qualquer mudança de estratégia do MPLA no sentido de não concentrar numa mesma pessoa responsabilidades governativas e partidárias. Na Huíla, Nuno Bernabé Mahapi Dala, recentemente nomeado governador, foi “eleito” sábado primeiro secretário provincial do MPLA. O mesmo deverá acontecer a breve trecho com Luís Nunes, o novo governador de Benguela. O que se passou em Luanda foi um caso isolado e decorreu mesmo do entendimento, no seio do MPLA, de que a sua primeira secretária provincial não estava a dar conta do recado. 

Aparentemente, ao afastamento de Joana Lina da direcção do MPLA em Luanda deveria seguir-se a sua exoneração de governadora provincial.

Mas esse não é um entendimento consensual no seio do próprio MPLA.

“O camarada Presidente não está perante uma situação fácil. Qualquer decisão que vier a tomar acarreta riscos. Manter a camarada Joana Lina no cargo de governadora pode transmitir aos cidadãos a ideia de que o partido não está preocupado com os graves problemas que afectam a província; por outro lado, manter a camarada significa, também, continuar a expô-la a linchamento público. Mas exonera-la também pode significar que o Partido e o seu Presidente estão a abrir mão de uma militante dedicada, comprometida”,segundo disse ao Correio Angolense um membro do Secretariado do Bureau Político do MPLA, que pediu para não ser nomeado. 

A governadora de Luanda não está, ela própria, a tornar cada vez mais difíceis as opções que o MPLA e o seu Presidente terão, mais cedo ou mais tarde, que tomar a seu respeito.

A semana passada, o semanário Novo Jornal, noticiou que a governadora de Luanda estaria bastante “irritada” com as operadoras que contratou para limpar Luanda.

Segundo a publicação, Joana Lina não descarta a possibilidade de rescindir os contratos assinados há pouco menos de duas semanas.

O Novo Jornal cita uma fonte presumivelmente do Governo Provincial de Luanda como tendo dito que Joana Lina já “ligou para as operadoras, a fim de saber o que se está a passar, e alertou que olhando para a situação, há a prerrogativa de rescindir os contratos com algumas empresas e colocar outras que estejam em melhores condições”.

À generalidade das operadoras de limpeza contratadas é reconhecida incapacidade técnica, material e, sobretudo, financeira para levarem a bom porto o compromisso assumido com o GPL.

Na semana em que foram anunciados os vencedores do concurso para a limpeza de Luanda, o semanário Expansão revelou que algumas das empresas escolhidas eram detidas pelas entidades que o Presidente João Lourenço incluiria entre “as forças ligadas aos que mais delapidaram o erário público”.   

A empresa ER -Sol, uma das escolhidas, não tem nenhum percurso em limpeza e recolhida de resíduos sólidos. Acredita-se que foi “eleita” por estar associada à antiga primeira dama, Ana Paula dos Santos e ao seu filho Danilo, de quem Joana Lina será madrinha. 

A incapacidade que vem sendo demonstrada pelas operadoras contratadas pelo GPL está a ter repercussão na vida profissional da governadora de Luanda.

A semana passada, o site Club-K baseou-se em fontes do gabinete da governadora que lhe teriam assegurado que Joana Lina praticamente desistiu de trabalhar.

Segundo a publicação electrónica, Joana Lina delegou no director do seu gabinete, Edilson Paulo Agostinho, os mais importantes dossiers que lhe chegam à mesa de trabalho.

As fontes do Club-K identificam na governadora muitos “sinais de fadiga”. Ao que dizem essas fontes, Joana Lina deixou de “ler relatórios muito extensos”. Edilson Agostinho é neste momento descrito como o verdadeiro governador de Luanda. “A Joana Lina não dá um passo, pequeno que seja, sem o parecer dele”.   

Contudo, apesar da notória incapacidade de governar Luanda, algo que foi acentuado pela direcção do MPLA ao afastá-la da direcção provincial da organização, Joana Lina não tenciona “facilitar a vida” ao Presidente João Lourenço, tomando a iniciativa de demitir-se.

Ao Correio Angolense, o mesmo membro da direcção do MPLA que pediu para não ser identificado resumiu que Joana Lina “tem andado abatida, cabisbaixa mesmo, mas não acredito que venha a pedir demissão. É demasiado orgulhosa”.