Castigados pelas chuvas e desprezados pelo Presidente

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Tecendo algumas linhas sobre a enxurrada  que inundou Luanda e enxarcou a vida de cidadãos, antes mesmo que o Presidente da República se lembre que é o Titular do Poder Executivo, convém recuar àquele ano de 1963.

Àquela data, Luanda recebeu uma “generosa” carga de água e a descarga ( os mais velhos contaram) durou da manhã até ao final do dia sem cessar.
A baixa de Luanda ficou inundada; carros submersos e miúdos a darem pinos de felicidade.

Nos muceques, o cenário era outro, tal como agora, tenebroso pelo número de sinistrados e, depois, pelas mortes registadas, algumas horríveis, como são as mortes por eletrocussão.

E em muitos casos, senão todos, por que o cidadão não tem acesso à rede pública de energia ou esta, sequer, chega à sua zona de habitação.
De modo que qualquer rede que lhe chega ao alcance serve as suas pretensões e, ademais, em muitos bairros, (” é só negrura” !!!…) como escreveu num poema Agostinho Neto.

Desde logo, a renda mensal de muitas famílias só chega para comprar pão e manteiga, chá ou café, e se chega, é à custa de muitos sacrifícios.
Bom, a enxurrada (brutal…) teve o condão de, mais uma vez, destapar a incompetência, insanável, dos sucessivos governos de Luanda e com um custo elevado de mortes e destruição patrimonial de cidadãos pobres.
Porventura,  sem recursos para reeguerem as suas vidas, ainda terão de fazer das tripas coração para darem um enterro condigno aos seus ente queridos.

“Morreu um príncipe de Endiburgo, de causas naturais, e o nosso Presidente  chorou o óbito. Morrem 14 concidadãos seus e o Presidente não decreta o luto”

Neste ambiente fúnebre, tudo o que se espera é que algum ente de bem venha em seu socorro e ajude a atenuar a dor e o sofrimento.
Pelo contrário, não ouviram sequer uma palavra de conforto da “governadora trabalhadora” e para “melhorar” o ambiente, nem do Presidente da República.

No “Jornal de Angola” são  informados que as prioridades do Presidente que elegeram são outras e dentre elas não constam as suas aflições.
Morreu um príncipe de Endiburgo, de causas naturais, e o Presidente  chorou o óbito. Morrem 14 concidadãos seus e o Presidente não decreta o luto.

E este é o presidente que jurou cumprir a Constituição e que no seu discurso de posse proclamou, solenemente, que (a citação é de memória) “ninguém é tão pobre que não seja protegido” pelo Estado.
Sobretudo, vem se mostrando particularmente indiferente ao sofrimento dos cidadãos e  mais preocupado em jogar xadrez, tendo como oponentes o país e as suas populações; os partidos políticos oposicionistas e a liberdade de imprensa e de expressão.

Insensível, por exemplo, ao atentado à saúde pública em curso na cidade capital do país, cuja pretensão e desejo é captar investimento estrangeiro.
E um investidor estrangeiro chega ao país e vai almoçar com a ministra das Finanças num restaurante na ilha de Luanda.

Uma vez sentados,  é-lhes servida a refeição e, de repente, comparece uma mosca no prato do visitante querendo repartir a refeição com ele.
Não é uma mera hipótese, é uma real possibilidade, nestes dias numa capital de um país da África Ocidental.