Pelo seu líder e pela sua Igreja, tocoístas prontos para o que der e vier

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Em 2015, através do despacho n. 396, de 16 de Novembro, o então ministro da Justiça e dos Direitos Humanos pôs fim à balbúrdia que reinava no seio da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, comumente chamada Igreja de Simão Toco, fundindo as três diferentes alas que reclamavam a liderança da congregação religiosa.

No Despacho, Rui Mangueira sustentava a fusão das três alas com base em muitos elementos identitários comuns a todas elas, nomeadamente, o facto de terem “o mesmo fundador, origem”, usarem “a mesma denominação” e terem a mesma “natureza e missão específica”.

Para a tomada da sua decisão, o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos elencou, também, a manifestação de vontade expressa pelas três alas de se congregarem numa única entidade.

Dessa convergência, emergiu, então, a Igreja de Nosso Senhor no Mundo “Os Tocoístas”.

Com aquele despacho, Rui Mangueira revogava o Decreto Executivo n. 14/92, de 10 de Abril, através do qual o ministro da Justiça à época, o já falecido Lázaro Dias, com recurso não se sabe bem a quê artimanha jurídica, reconheceu três denominações que partilhavam nome, símbolos, patrono e outros valores. 

Eram elas a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo – “Os Tocoístas” (12 Mais Velhos); Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo – “Os Tocoístas” (Anciãos Conselheiros da Direcção Central) e Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo – “Os Tocoístas 18 Classes e 16 Tribos).

No Despacho 396, Rui Mangueira determinou que a Conservatória dos Registos Centrais procedesse ao registo da “nova denominação religiosa única e aos actos subsequentes das denominações religiosas revogadas”.

Cinco anos depois, a Câmara do Cível Administrativo, Fiscal e Aduaneiro do  Plenário do Tribunal Supremo anula o Despacho de Rui Mangueira e o quadro no seio dos tocoístas retrocede ao ano de 1992, quando três alas se digladiavam pela liderança da mesma denominação.

O Acórdão que anula o acto administrativo praticado por Rui Mangueira foi suscitado pela ala conhecida por “12 Mais Velhos”, a qual sempre se opôs à unificação.

O Supremo repôs a situação existente em 1992, mas deixou em aberto questões importantes como, por exemplo,  o destino do património reclamado em nome da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo – “Os Tocoístas”.

No imediato, a decisão do Tribunal Supremo visa o Bispo Afonso Nunes, que lidera a Igreja.

São, por ora, totalmente imprevisíveis os desdobramentos futuros da decisão do Supremo sobre o funcionamento da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo “Os Tocoístas”.

Dom Afonso Nunes e sua ala já interpuseram recurso junto do Tribunal Constitucional requerendo a anulação da decisão do Supremo.

Aparentemente sereno, o Bispado da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, em comunicado do dia 02, assegura que a “Igreja de Cristo continuará com a sua marcha triunfante, rumo à cidade santa nova de Jerusalém e os verdadeiros tocoístas cerrarão sempre fileiras em torno do líder espiritual sua santidade, pai Mayamona nosso venerável e eterno dirigente. Rumo à igreja única, una e indivisível”

Não obstante os gestos de aparente serenidade, as hostes estão agitadas, sobretudo porque multiplicam-se rumores de que indivíduos ligados a outras alas interpretam a decisão da Câmara do Cível Administrativo, Fiscal e Aduaneiro do  Plenário do Tribunal Supremo como carta branca para o assalto à imponente catedral dos tocoístas, ao bairro Golfe.

Embora D. Afonso Nunes e outros colaboradores não acreditem num cenário de invasão da sua catedral, mesmo porque “Angola é um país que reconhecemos ter um governo competente, capaz e sábio o qual permitirá que insurgentes criem pânico e desordem social”, alguns acólitos já se preparam para todas as eventualidades.  

Monteiro Pinto Capunga, empresário, membro do Comité Central do MPLA e deputado à Assembleia Nacional, é uma espécie de comandante de uma tropa de choque.

“Da nossa Igreja e do nosso líder, D. Afonso Nunes, ninguém nos afasta”, adverte, bastante exaltado.

Ao Correio Angolense, Capunga disse ter a certeza que a decisão da  Câmara do Cível Administrativo, Fiscal e Aduaneiro do  Plenário do Tribunal Supremo foi “cozinhada por um conhecido juiz. Estamos a consolidar as provas que temos e dentro de pouco tempo traremos a público as manobras desse senhor”.

O episódio ocorrido na Igreja Tocoísta suscitará inevitáveis inquietações no seio do MPLA.

Além do deputado Monteiro Capunga, o MPLA tem outros “barões” que militam na Igreja Tocoísta. Um deles é o general Fernando Garcia Miala, o poderoso director do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado, é também um tocoísta de “cabeça, tronco e membros”.

Desde que D. Afonso Nunes ascendeu à sua liderança, o líder dos tocoíatas tem tido mais do que simples relações de cortesia com o MPLA e com o seu presidente. 

Ao tempo de José Eduardo dos Santos, D. Afonso Nunes era presença assídua no palácio presidencial. 

A mando de José Eduardo dos Santos, a Sonangol deu decisivos aportes financeiros para a construção da majestática catedral dos tocoístas. 

Com o Presidente João Lourenço, o bispo D. Afonso Nunes também mantém uma relação muito estreita. No mês passado, ele defendeu o alargamento para três dos mandatos do Presidente João Lourenço. O assunto não está na proposta de revisão constitucional que o Presidente da República apresentou à Assembleia Nacional. 

Por isso mesmo, acredita-se que o líder dos tocoístas não falou por falar.

Com o discreto apoio do MPLA e do seu Presidente ninguém se surpreenderá se D. Afonso Nunes conseguir alterar a tendência do resultado no Tribunal Constitucional.

É talvez por isso que o deputado Monteiro Capunga se antecipa com toda a segurança: “mudar o nome da nossa igreja ou perdermos o nosso património? Não, isso não vai acontecer. A Igreja é nossa e nós não vamos mudar de nome e no nosso património ninguém tocará”.