JLO pede perdão aos familiares das vítimas do “27 de Maio”

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O presidente da República, João Lourenço, pediu hoje desculpas públicas e o perdão dos familiares das vítimas dos conflitos políticos registadas desde a proclamação da independência nacional.

Num discurso a propósito dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, o Chefe de Estado angolano pediu que os angolanos olhem para a frente a bem da reconciliação nacional, em vez de procurarem culpados. “Viemos junto das vítimas dos conflitos e dos angolanos no geral, pedir humildemente, em nome do Estado angolano, as nossas desculpas públicas e o perdão, pelo grande mal que foram as execuções sumárias naquela altura e naquelas circunstâncias”, afirmou.

Para o também presidente do MPLA, “este pedido público de desculpas e de perdão não se resume a simples palavras, ele reflecte o nosso sincero arrependimento e vontade de pôr fim à angústia que ao longo destes anos as famílias carregam consigo, por falta de informação sobre o destino dado aos seus ente-queridos”.

Na primeira vez que as autoridades governamentais se debruçam oficial e solenemente sobre a chamada intentona golpista, João Lourenço referiu que em 27 de Maio de 1977 “um grupo de cidadãos organizados levou a cabo uma tentativa frustada de golpe de Estado, matando altas figuras do poder instituído”. Por isso, “no intuito da reposição da ordem constitucional, a reacção das Autoridades de então foi desproporcional e levada ao extremo, tendo sido realizadas execuções sumárias de um número indeterminado de cidadãos angolanos, muitos deles inocentes.” 

O Chefe do Executivo defendeu que “apostura de um Estado perante situações adversas e de extrema tensão deve ser, sempre que possível, ponderada e comedida, pelas responsabilidades maiores que o Estado tem na defesa da Constituição, da Lei e da vida humana.”

João Lourenço evocou os esforços do país na promoção da paz pela via do diálogoe da sua diplomacia com o objectivo de apaziguar tensões e conflitos internos ou inter-estatais.“Entendemos ser importante esta acção da nossa diplomacia, porém, mais importante será trabalharmos continuamente para sararmos, em definitivo, as feridas ainda prevalecentes dos nossos próprios   conflitos políticos”, advogou.

Como exemplo da busca pela congraçamento definitivo das partes desavindas apontou a criação da Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos. Segundo disse João Lourenço, “tem vindo a trabalhar num ambiente de harmonia com os representantes de Partidos Políticos com assento parlamentar, com membros de Organizações da Sociedade Civil e familiares das vítimas”. 

Anunciou, por outro lado, que esta quinta-feira, 27, começa simbolicamenteo processo de entrega das primeiras certidões de óbito aos familiares das vítimas do conflito do 27 de Maio. “Nos próximos dias, daremos início ao processo de localização dos restos mortais (ossadas) de Alves Bernardo  Baptista (Nito Alves), Jacob João Caetano (Monstro Imortal), Ernesto Eduardo Gomes da Silva (Bakalof),  Sita María Dias Valles (Sita Valles), José Jacinto da Silva Vieira Dias  Van Dunem (Zé Van Dunem), António Urbano de Castro (Urbano de Castro), David Gabriel José Ferreira (David Zé), Artur de Jesus Nunes(Artur Nunes), Pedro Fortunato, Arsénio José Lourenço Mesquita (Sianuk), António Lourenço Galiano da Silva, Domingos Ferreira de Barros (Sabata), de ex-militares da 9.ªBrigada, de ex-militares do Destacamento Feminino e de ex-militares da DISA, vítimas do 27 de Maio de 1977, para a exumação e entrega aos familiares”.

Aproveitou igualmente para anunciar que “serão ainda entregues às respectivas famílias as ossadas de Jeremias Kalandula Chitunda, Elias Salupeto Pena e Adolosi Paulo Mango Alicerces, tombados em combate no conflito pós-eleitoral de 1992 na cidade de Luanda”. Mas advertiu que “pelo tempo transcorrido, é de se esperar que não se consiga localizar e identificar os restos mortais de todas as vítimas”.

Prometeu, entretanto, tudo fazer para que o maior número possível de famílias atingidas possam realizar um funeral condigno dos seus ente-queridos. E antecipadamente pediu “a compreensão de todos para aqueles casos em que não for possível atingir este objectivo”.