Quem tem medo da democracia?

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Do somatório de elementos como o de o líder da UNITA ter “o seu lugar por um fio, com um processo intentado por militantes do seu próprio Partido a correr no Tribunal Constitucional”, de o Bloco Democrático ter “recorrido ao expediente de integrar a coligação de partidos CASA-CE” por “incapacidade de reunir as assinaturas necessárias” e, finalmente, de Abel Chivukuvuku ter liderado “um projecto falhado de criação de um Partido Político inviabilizado pelo Tribunal Constitucional através do Acórdão nº 837-C/2020”, o Secretariado do Bureau Político do MPLA, em comunicado do dia 7 de Agosto, extraiu a conclusão de que a  Frente Patriótica Unida é um projecto que “não tem credibilidade”, e que “não pode ser levado a sério e, portanto, não tem condições de se apresentar como alternativa democrática ao projecto de Nação do MPLA”.

No dia 08, dois sujeitos disfarçados de “analistas” foram à TV Zimbo trocar por miúdos o colérico comunicado da véspera. 

Um, o mercenário assumido que não cumpre contratos, já que se põe à venda “antes  de terminar a época”, diz que o seu patrão circunstancial perde “tempo” ao reagir ao surgimento de um “nado-morto”. E repetiu o adjectivo pelo menos umas quatro vezes.  

O outro, também ele resgatado das catacumbas da falta de carácter e da sem-vergonhicee que em certos momentos também se disfarça de jurista, jurou a pés juntos que juridicamente a Frente Patriótica Unida não tem pernas para andar. Por muito pouco apostou a mãe, esposa e filhos se a FPU conhecer a luz do dia.

O país está perante uma clara e insofismável concatenação de ideias e de propósitos. O mandante está em perfeita sintonia com os seus paus-mandados.

A gritaria do mandante e seus paus mandados pretende sugerir que o surgimento da FPU desencadearia no país uma crise política sem precedentes. O MPLA e alguns dos seus seguidores veem na FPU o prenúncio de uma hecatombe nacional.

Falso alarme!

O alarme de que a FPU é uma ameaça nacional decorre da velha ilusão de que o MPLA é “o único e legítimo representante do povo angolano”. Por causa dessa sua errada percepção de Angola e dos angolanos, há, no Kremlin e arredores, gente que acredita que as dores de cabeça do MPLA são transversais a todos os angolanos; que todos os angolanos partilham as suas dores de cotovelo. Há no MPLA pessoas que acreditam piamente que todos os angolanos foram tomados por “doenças cardiovasculares, problemas pulmonares, diabetes, alzheimer, osteoporose, câncer” e outras patologias próprias de corpos envelhecidos, como é claramente o caso do partido que governa o país há ininterruptos 46 anos.

Os banhos de multidão de que o MPLA se jacta semanalmente se devem, apenas, ao imperativo da defesa dos postos de trabalho?

Há, no MPLA, gente que resiste à constatação de que Angola e os angolanos não são sua propriedade.

Em 2016, no auge das reivindicações dos jovens congregados no que se chamou de ‘revus”, um dirigente do primeiro escalão do MPLA prometeu bofetadas e pontapés a cidadãos que ousassem desafiar a proibição do governo provincial de Luanda de realização de uma manifestação pacífica.

Há, no MPLA, gente que olha para a generalidade dos angolanos com uma perspectiva paternalista. 

É essa gente que usa a comunicação social público como instrumento para dar da Frente Patriótica Unida a imagem de uma perigosa associação de malfeitores e delinquentes que ameaçam o país e as suas instituições.

É preciso rejeitar veementemente essa narrativa. 

É preciso rejeitar categoricamente a ideia de que o surgimento de uma coligação de políticos contrários às opções políticas do MPLA seja um grave factor de perturbação da ordem económica e social do país.

A ampla frente é uma ameaça, sim. Mas apenas à hegemonia política do MPLA. 

É preciso incutir no MPLA o hábito e o costume de que – como ensinou o velho Winston Churchill – sendo a democracia o “pior dos regimes políticos”, não há, porém, “nenhum sistema melhor que ela”.  

A democracia tem custos e espinhos. Para alguns membros do MPLA, o mais doloroso dos espinhos é aceitar o direito à diferença. Para alguns membros do MPLA não é nada fácil conformar-se com a ideia de que Angola é de todos os angolanos e não propriedade ou brinquedo às suas mãos. 

Por hábito e costume, o MPLA sempre associou o pensamento diferente à conspiração. O 27 de Maio prova-o de maneira cabal.

É com “naturalidade” que o MPLA interpreta a constatação de que a “juventude, que é o futuro da Nação, sente-se traída e impotente, porque os governantes, ao invés de governarem para o povo, roubaram o País e roubaram também o futuro da juventude”como um engodo que visa empurrar os jovens angolanos para as más causas, como a realização de manifestações violentas e a vandalização e destruição de bens públicos.”

Faz parte do seu DNA associar a constatação da “incapacidade do governo de resolver os problemas sociais tornou-se estrutural e congénita, tendo transformado a falta de água potável, as doenças endémicas, o desemprego, a educação sem qualidade, a falta de saneamento básico, a incompetência do governo e a corrupção em verdadeiros inimigos do povo angolano”  ao incitamento  dos angolanos “à rebelião e à desobediência às instituições legítimas” ou, ainda, “à falta  de respeito pela Constituição”. 

Da arrogância habitual, que deu lugar a afirmações zombeteiras de João Lourenço de que mesmo juntando tios, sobrinhos e vizinhos os adversários jamais lhe causariam qualquer mossa, o MPLA assume agora a postura de um pobre coitado incompreendido por uma associação de delinquentes que avalia o presente de forma incoerente e irresponsável e não tem qualquer visão de futuro para o País”.

Mas a vitimização já só convence menores de idade e incapazes mentais.  

Hoje, nem mesmo “blocos de betão” como Bento Kangamba e outros acreditam que a corrupção, a impunidade, a falta de atenção à Saúde e Educação, a insuportável carestia de vida se devam ao surgimento da Frente Patriótica Unida ou que Adalberto Costa Júnior, Abel Chuvukuvuku e Filomeno são culpados pelo facto de os governos de Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos não se haverem lembrado de fazer investimentos para o aproveitamento das “águas do rio Cunene, que sempre esteve lá”.

O medo e a insegurança que o MPLA incute nos angolanos por causa do surgimento da FPU esses, sim, ameaçam o País. 

Embora hoje o diabolize e o associe aos seus piores inimigos, o MPLA continua muito identificado com aquela afirmação do seu presidente emérito segundo a qual a “democracia não enche barriga”.

O anúncio da constituição da Frente Patriótica Unida está a tirar da toca os democratas de ocasião.

O  nr. 1 do Artigo 2. da actual Constituição dispõe que a “República de Angola é um Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos a soberania popular, o primado da Constituição e da lei, a separação de poderes e interdependência de funções, a unidade nacional, o pluralismo de expressão e de organização política e a democracia representativa e participativa”.

Num Estado que consagra o pluralismo de expressão e de organização política, por quê razão um grupo se arroga o direito de definir quem pode ou não “ser levado a sério” ou quem “não tem condições de se apresentar como alternativa democrática ao projecto de Nação do MPLA”

O MPLA quer chamar para si a prerrogativa de definir quem pode ou não organizar-se politicamente? E também quer escolher os adversários?

Já não lhe bastam a bola e os árbitros? Também quer escolher os adversários?

Desde  1992 que o MPLA joga em campo próprio, impõe as regras de jogo, é dono da bola, escolhe os juízes, joga com o vento a favor e, se não for impedido, vai pretender escolher o guarda-redes da equipa adversária. 

Por outro lado e agora que chamou também para si as vestes de classificador, é com muita expectativa que a cidadania espera a classificação que o MPLA atribuirá às várias dissidências da UNITA cuja transformação em partidos políticos apadrinha de modo aberto.

Uma nota final: se tem os mais de 5 a 6 milhões de militantes que recorrentemente  reclama ( e esses números já têm cabelos brancos…), o MPLA não deveria entrar em “órbitra” apenas porque três “amigos e vizinhos” decidiram fazer-lhe frente. O medo que o surgimento da Ampla Frente Patriótica para a Alternância lhe provoca sugere uma de duas hipóteses: ou não tem essa quantidade de militantes – e, portanto, tem feito bluff – ou não se fia muito na lealdade desses membros.

Considerando o nosso universo de eleitores, se cada um dos 6 milhões de militantes lhe confiasse o seu voto, o MPLA “limparia” folgadamente todas as eleições, não havendo “pão para malucos”… 

Ou os banhos de multidão (maioritariamente composta por funcionários públicos e autoridades tradicionais) de que o MPLA se jacta semanalmente se devem, apenas, ao imperativo da defesa dos postos de trabalho?