Agostinho Neto falava kimbundu? Algumas notas e curiosidades

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Corre o mês de Setembro de 2021 e em Setembro (em Angola) falar do primeiro Presidente da República tornou-se incontornável, independente dos quadrantes de visão de cada um.

Se vivo, Agostinho Neto teria completado 99 anos e, por isso, no próximo ano (2022), será o centenário sobre a data do seu nascimento.

Para melhor se compreender a trajetória de Agostinho Neto, a metodologia a seguir é dividi-la em ciclos de vida. 

O primeiro, que vai desde o seu nascimento (1922) até 1947 (partida para Portugal); de 1947 (chegada a Coimbra) até ao seu primeiro regresso a Angola (1959); da sua fuga de Portugal (1962) até ao seu segundo regresso a Angola (1975) e, finalmente, de 1975 a 1979, ano da sua morte em Moscovo.

Na madrugada do dia 17 de Setembro de 1922, nasceu, na aldeia de Kaxicane, um menino a quem foi dado o nome de António Agostinho Neto. Seus progenitores:  Agostinho Pedro Neto (reverendo e professor) e Maria da Silva Neto (professora). Até aos anos 8 anos, viveu em Kaxicane. Era uma criança introspectiva, pouco faladora e que vivia rodeada de livros. O seu pai era o seu professor. Eram, pai e filho, muito parecidos: estudiosos e sossegados.

No início dos anos 30 veio a Luanda para continuar os estudos e obteve 18 valores no exame de admissão no liceu. Matriculado no Liceu Salvador Correia (só havia dois liceus em Angola, o outro era em Sá da Bandeira, hoje Lubango) onde se torna aluno do quadro. 

Certa vez, conta Adriano Sebastião, um professor deu um exercício para os alunos resolverem e estes não conseguiam. O professor disse: “se vocês não conseguem resolver o exercício, vou chamar o negro para os resolver“, referindo-se a Agostinho Neto.

Por três vezes, Agostinho Neto cancelou a matrícula porque o pai impusera que ele esperasse o irmão mais velho (Pedro) que se atrasava em alguns anos. 

Aos 14 anos, Agostinho Neto falou pela primeira vez em público, por ocasião das cerimónias fúnebres do missionário norte-americano Robert Shilds, na Liga Africana. Agostinho Neto fora também secretário do missionário norte-americano Ralhp Dodge, na Missão Evangélica  de Angola.

Funda o Centro de Estudos da Juventude Metodista (CEJM) e passa a ministrar aulas aos jovens. Para os mais velhos, ele era o professor “Antonico”; para os jovens, era o “professor pequeno.” 

Antes de se tornar poeta, Agostinho Neto foi um excelente ensaísta político, social e cultural, escrevendo artigos de fundo nos jornais “Estandarte”; “Farolim” e “O Estudante”.

Dentre os ensaios, destacam-se: “Instrução ao nativo”; “A nova ordem começa em casa”; “Uma causa psicológica: marcha para o exterior”; “A propósito do teatro de Fodeba Keyta” e Heróis” – o primeiro deles.

Chegado a Portugal, Agostinho Neto logo inicia uma intensa actividade política a par dos estudos na Faculdade de Medicina. Num relatório, o chefe da polícia do Porto escreve que “entre os activistas, há um, que é tranquilo, mas é o mais activo”, referindo-se a Agostinho Neto.

Neto insere-se nas actividades da Casa dos Estudantes do Império e é o seu secretário, coordenando a sua revista (ensaios, poesias, conferências) e filia-se ao MUD- juvenil, organização adstrita ao Partido Comunista Português.

É numa manifestação do MUD que é preso em 1955. Mas, a sua primeira prisão deu-se em 1951 quando distribuía panfletos com apelo à paz mundial – do Conselho Mundial da Paz.

Agostinho Neto e seus camaradas bateram a porta num certo endereço e veio atendê-los um sujeito literalmente de pijamas. Este sujeito pediu um tempo para ir vestir-se condignamente. No regresso, apareceu fardado de polícia e deu ali mesmo voz de prisão. Passou mais de três meses preso na cadeia de Caxias, em regime de reclusão.

A prisão de Agostinho Neto (Aljube, no Porto, 1955) foi a mais longa e durou mais de 2 anos, sendo 18 meses sem acusação formal.

Finalmente, julgado (1957) é inocentado, tendo a sua equipa de defesa sido chefiada pelo advogado António Arménio e entre outros pelo Dr. Fernando Mourão, brasileiro e anti-fascista.

A 18 de outubro de 1958 (finalmente) licencia-se em Medicina e recebe o diploma e no mesmo dia casa-se com Maria Eugenia.

Depois, trabalha no hospital Santa Marta, onde faz uma especialização em medicina tropical e também outra especialização em pediatria, no hospital Dona Stefânia, ambos em Lisboa.

Em Dezembro de 1959, Agostinho Neto regressa a Angola com Maria Eugenia Neto e o seu primeiro filho, Jorge, com apenas alguns meses.

Depois, vai ao Guinza (localidade de Calomboloca) apresentar a esposa e filho aos familiares. Dá-se aqui um episódio interessante e engraçado. Conta-se que alguém, presumindo que Neto já não se lembrava do kimbundu, providenciou um tradutor. Agostinho Neto dispensou-o imediatamente.