Saudades de JES por culpa de JLO

1627

Na passagem da sua mensagem do Estado da Nação (dia 15/10/2021), a que é obrigado por imperativo constitucional, em que abordava questões em torno do combate à corrupção e a impunidade, esperava-se que a bancada parlamentar do MPLA aplaudisse o Presidente da República. 

Por questão de simples lógica, o Presidente da República é, nas vestes de Presidente do MPLA, o chefe da bancada parlamentar do seu partido, ainda que o não seja “de jure”. 

Porventura, haverá alguma explicação e está explicação não deixará de estar relacionada com a história de corrupção (…endémica…) no país governado pelo próprio MPLA. 

Outra probabilidade é a de que os deputados da maior bancada parlamentar tivessem optado pelo silêncio para não atrair os olhos da opinião pública para si e para quem estava a proferir o discurso. 

Para os que olham a questão de fora do MPLA, o discurso do Presidente  da República encerra uma (eloquente) contradição.

 Isto é, o mesmo presidente que diz que está a combater a corrupção, é o mesmo presidente apanhado nas vestes de aliciador do poder judiciário.

 Desde logo, apanhado em sugestivos actos de aliciamento dos tribunais em troca de benesses (… e, pior ainda…) este tipo de corrupção por aliciamento está a ser feita por Decretos Presidenciais, como por exemplo, o famigerado DP 69/21, 16 de Março. 

Depois, o património perdido a favor do Estado deve ser incorporado à massa patrimonial estatal e dela não pode dispôr o Presidente da República.

Os Bispos da CEAST, por sua vez, num comunicado datado de 11/10/2021, afirmavam que “os angolanos não confiam na justiça.” 

Complementarmente, o jornal “Expansão” apurou, na sequência de um inquérito, que ” 9 em 10 angolanos” não confiam no Tribunal Constitucional.

A justiça angolana já tinha sido descredibilizada por um acórdão da sua homóloga espanhola no caso do julgamento do pedido de extradição do Senhor Panzo, ex- assessor para Assuntos Económicos do Presidente João Lourenço. 

Tendo granjeado um capital (político)  com o discurso de tomada de posse (Setembro de 2017), JLO desperdiçou-o ao longo de quatro anos de mandato, a tal ponto que é, agora, o responsável pelas saudades que muitos sentem dos tempos do ex-presidente José Eduardo dos Santos.

Contraditório? A resposta é afirmativa na medida em que a esperança alimentada por João Lourenço de um país melhor e com justiça elementar desvaneceu-se e, há um ano do fim do seu mandato, pouco ou nada mais se espera dele.

Os indicadores da democracia em Angola degradaram-se e desde logo a liberdade de imprensa que conhece (nos dias de hoje) um sequestro com cativeiro por parte do poder político.

Os direitos humanos não são respeitados, naqueles que são os elementos básicos, isto é, o direito à uma vida com dignidade, por parte dos cidadãos, que em várias partes do país (sobretudo no sul) vivem ou sobrevivem muitas vezes comendo raízes e folhas.

A justiça (independente e imparcial), um dos pilares em que assenta a democracia, descredibilizada, até porque a percepção geral é a de que foi capturada pelo Senhor “Ordens Superiores.”

Um obscuro personagem e secreto, ou nem tanto, que manipula, deturpa e aprisiona a democracia e os cidadãos.