Quem traiu a Pátria?

2098

O antigo comandante da Polícia Nacional saiu a disparar para vários destinatários e (parece), sobretudo, para o palácio.

O seu discurso de despedida continha várias pistas sobre o clima político intra-poder.

Decerto que tendo sido um servidor colocado no cerne do poder por longos anos, tal facto (porventura) tenha diluído o valor que merecia da parte da opinião pública.

Opinião pública que, todavia, aprendeu o sentido do seu discurso. 

No trecho em que afirmou (resumidamente) que “quem comanda a Polícia é o Comandante-Geral”, a ilação a se extrair desta afirmação é, claramente, a de que é outra a entidade que orienta a actuação da corporação castrense. 

Uma, que é imediata, o Ministério do Interior, e a outra, a Presidência da República.

Foi comovente (noutro trecho do seu discurso) a sua defesa da submissão das instituições castrenses ao estado democrático de direito.

Porventura, este terá sido o recado mais forte enviado aos seus ex-chefes.

Inegavelmente, o discurso de despedida do ex-comandante geral da PNA suscita várias questões importantes a respeito da actuação da corporação ao longo do mandato do actual Presidente da República. 

Uma das ilações que se podem extrair, do discurso, é a de que no topo do poder em Angola não há vontade de cumprir os preceitos constitucionais. 

Pelo contrário, a ordem é actuar extra-constitucionalmente e os episódios de 10/01/2021 podem ser indiciadores  desta tendência.

Por certo que o agora ex-porta-voz do Ministério do Interior (exonerado sem prévio aviso, dizem) tem o mesmo entendimento da matéria, pois refere-se na sua reação a um “poder desmedido.”

Primeiro, se duas altas patentes da Polícia se pronunciam no mesmo sentido sobre a mesma matéria, há, no mínimo, “fumaça” de alguma irregularidade.

Depois, ficou também como uma espécie de denúncia com destinatário desconhecido a confissão segundo a qual “nunca traí a Pátria.”

Quem, afinal, traiu a Pátria?