JL “TROCA” CAROL POR SÍLVIA
NA CORRIDA À PRESIDÊNCIA

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A pouco mais de 7 meses das próximas eleições gerais, três dos 7 partidos com assento no Parlamento, no fundo os únicos que disputam verdadeiramente o poder, já definiram os respectivos rostos eleitorais.

Mesmo que, por remotíssima hipótese, o Tribunal Constitucional anule o  seu VIII congresso, realizado em Dezembro, a requerimento de António Venâncio, o cabeça de lista do MPLA será João Lourenço.

Pela CASA-CE, o rosto será Manuel Fernandes.

O Partido de Renovação Social (PRS) irá a jogo com Benedito Daniel, o segundo presidente da organização nos seus 32 anos de existência. Tal como o MPLA, o PRS é uma organização muito pouco dada a mudanças no leme.

Apesar de, através do Acórdão  n.º 720/2022, o Tribunal Constitucional haver extinta uma providência cautelar não especificada requerida por alguns militantes da UNITA para impedir a repetição do XIII congresso do partido, “por inutilidade superveniente”, a Corte não se pronunciou sobre a validade ou não do conclave dos “maninhos”. O acórdão não sabe a peixe e nem a carne.

Deste modo, a UNITA ainda não tem como adquirido que Adalberto Costa Júnior será o seu cabeça de lista, embora os Estatutos do Partido estabeleçam que o líder da UNITA não é necessariamente o seu candidato à corrida presidencial.

Treze anos depois do desaparecimento físico do seu fundador, Holden Roberto, a FNLA continua engalfinhada numa longa e aparentemente interminável rinha de galos. No último congresso, em Setembro do ano passado, a presidência foi disputada por cinco concorrentes, mas a vitória de Nimi-a-Simbi foi imediatamente contestada em tribunal por um dos derrotados. 

Atulhado de requerimentos de vencedores e vencidos, o Tribunal Constitucional decidiu anular o congresso.

Deste modo, os “irmãos” também  perante a dúvida sobre quem será o seu cabeça de lista.

Com a questão do “candidato natural” há muito arrumada, uma matéria que, aparentemente não gera ondas no seio do partido, o MPLA é, dentre todos os principais concorrentes, o que experimentará maior turbulência não apenas para compor a sua lista de candidatos, mas também para escolher o vice de João Lourenço.

Tendo ganho no congresso de Dezembro o tamanho de um bairro médio (os quase 700 membros, mais os familiares e respectivos animais domésticos e de estimação preenchem os requisitos), o Comité Central do MPLA vai transformar-se num ringue de luta livre, em que os lugares elegíveis na lista de deputados serão disputados a dentadas e bordoadas.

É que, para as próximas eleições, nem no seu melhor sonho o MPLA admite repetir a folgada maioria de 150 deputados.

O contexto actual impõe ao MPLA a obrigação de moderar as suas expectativas. A escolha de deputados para lugares elegíveis não será a única “sarna” que a direcção do MPLA e, nomeadamente, João Lourenço terão pela frente.

Sobre a mesa está, também, a escolha da companheira de João Lourenço na disputa presidencial.

A meteórica ascensão de Carolina Cerqueira – desde 2010 passou pelo Ministério da Comunicação Social, vice-presidência da bancada parlamentar do MPLA, ministério da Cultura até a posição actual de Ministra de Estado para a Área Social – fez supor que ela seria a “candidata natural” ao posto de vice-presidente da República.

Aliás, a criação do cargo de MEAS – numa sobreposição aos ministérios afins (Saúde, Educação, Ambiente, Cultura e Turismo, Família e Promoção da Mulher) teve o aparente propósito de conferir a Carolina Cerqueira a rodagem “competitiva” necessária para voos mais altos. 

Mas, além de criado à medida, o surgimento do cargo de Ministro de Estado para a Esfera Social agravou os gastos do Estado e eclipsou por completo o actual vice-Presidente da República.

No seu “formato” actual, o vice-Presidente Bornito de Sousa limita-se a deslocações ao aeroporto para as cerimónias de despedida e de recepção do Presidente da República, a audiências a representantes de pequenos grupos sociais e pouco mais.

Se o Presidente da República quisesse dar visibilidade ao seu vice ter-lhe-ia confiado a coordenação da área social do Executivo, com o que, com uma só cajadada, se mataria dois coelhos: pouparia os recursos hoje requeridos por Carolina Cerqueira e sua “tropa” e daria algum trabalho ao vice-Presidente da República.

Mas, homem de decisões repentinas e apertadas, muitas das quais não amadurecidas e nem sequer discutidas com os seus pares da direcção do MPLA, aparentemente João Lourenço terá mudado de ideia.

Nos últimos dias têm circulado insistentes informações na “Sede” dando conta que João Lourenço escolheu para sua parceira de “chapa” a médica Sílvia Lutucuta, ministra da Saúde.

Aos próximos, João Lourenço teria justificado a troca da Carolina por Sílvia Lutucuta, duas confessas desafectas, com a necessidade de emprestar alguma “tonalidade ovimbundu” à Presidência da República.

A ser verdadeira, a justificação de João Lourenço para a “mudança de rota” não resistiria à uma análise política séria. 

Não é a distribuição étnica do poder que alimenta o descontentamento popular. O desencanto com a governação do MPLA é transversal a todas as etnias e tribos que compõem Angola.

O actual vice-presidente da República, Bornito de Sousa, é malangino. Mas, como se sabe, Malange é das provinciais mais maltratadas pelo Governo. Ernesto Muangala, governador da Lunda Norte, nasceu em Cambulo, naquela província, mas é contestado unanimemente pelos seus conterrâneos. Natural de Cabinda, Austo Tomás foi seu governador, mas não deixou saudades por aquelas paragens. Natural daquela província, enquanto governador de Malange a Boaventura Cardoso é atribuída a afirmação segundo a qual os “sobas de Malange cheiram mal”.

A eventual indicação de Sílvia Lutucuta para disputar a vice-presidência da República em virtude das suas origens é um “bálsamo” que não cura nada. O povo ovimbundu não se renderá incondicionalmente ao MPLA pelo simples eventualidade de vir a ter uma das suas na vice-presidência da República. Do mesmo modo que todos os mestiços angolanos não se converteriam ao MPLA se a escolhida para a vice-presidência fosse a Carolina Cerqueira.

O Presidente João Lourenço é, de facto, uma permanente caixa de surpresas.

Em 2019, por ocasião do congresso que o consagrou como presidente do MPLA, “descobriu” que a discriminação da mulher pelo homem se extinguiria não pela via do mérito, mas com a promoção da paridade.

Mas em Maio de 2020 impôs condições para a promoção da mulher.

No acto de empossamento de Joana Lina no cargo de governadora de Luanda e após sublinhar que “começámos com uma (mulher-governadora provincial), hoje, estamos com quatro e não vamos ficar por aqui”João Lourenço estabeleceu as condições para continuar a promover mulheres para o exercício de cargos governativos. “Se vocês trabalharem bem, isso vai encorajar-nos a nomear outras mulheres”.

O Presidente da República nunca colocou tais condições aos homens que empossa. 

Imprevisível, não se sabe se para a putativa escolha de Sílvia Lutucuta o Presidente João Lourenço ponderou, simultaneamente, a origem étnica, o “bom” trabalho (algo que é contestado pela generalidade da classe médica), o equilíbrio do género ou se levou em consideração outros factores. 

Apesar da conhecida submissão do MPLA ao seu líder, é previsível que a putativa indicação de Sílvia Lutucuta agite um pouco as águas…

Depois de em Dezembro haver elevado para o Comité Central uma jovem com idade para, no máximo, estar no Comité Nacional da JMPLA, João Lourenço pode estar muito próximo de impor ao partido a sua vontade pessoal.

Até há pouco Sílvia Lucututa era apontada como a mais forte candidata à substituição de Carolina Cerqueira no cargo de Ministra de Estado para a Área Social.

Os recentes desenvolvimentos alteram substancialmente os dados do problema, e as relações entre ambas, que já não eram amistosas, podem agora “evoluir” para um estágio muito perigoso.

Doravante, os serviços de protocolo de uma e de outra terão de providenciar que ambas não se cruzem em nenhum corredor e menos ainda que se encontrem num mesmo elevador.

Homem culto e instruído, Bornito de Sousa há muito que se pôs à margem da disputa pela vice-presidência.

Aliás, neste mandato que caminha para o fim ele teve a certeza de que “nada cresce debaixo de uma grande árvore”. Também teve tempo para reflectir sobre o alcance de uma afirmação proferida pelo seu camarada de partido, Pitra Neto, na ressaca da vitória eleitoral de 2008, segundo a qual “o vice é a sombra e a sombra não brilha”. 

Num encontro informal com jornalistas, em Março de 2020, Bornito de Sousa falou-lhes da sua indisponibilidade para um segundo mandato à sombra de João Lourenço.