Balde água fria

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Na sua derradeira Mensagem à Nação, no dia 15 de Outubro passado, o Presidente João Lourenço reivindicou para o seu Executivo um “investimento colossal” na área da saúde. 

Não há a mais leve dúvida que em infraestruturas hospitalares o Presidente João Lourenço fez em pouco menos de 5 anos o que “aqueloutro” não fez em quase quatro décadas consecutivas no poder. 

No actual consulado, foram construídos de raiz ou reabilitados o Hospital Geral e o Centro de Hemodiálise de Cabinda, o Hospital do Cuemba, o Hospital Central Strangway, no Kuito e o Centro de Hemodiálise do Bié, o novo hospital Dom Alexandre do Nascimento, o Centro Especializado de Tratamento de Endemias e Pandemias (CETEP), com capacidade para 1000 camas, o Hospital das Zona Económica Especial, também preparado para acolher 1000 camas, o Hospital da Sonangol para a Covid-19, o Centro de Hemodiálise de Benguela, Hospital de Campanha do Uíge para a Covid19, Hospital de Campanha para a Covid 19 na Lunda norte, o Instituto de Hematologia Pediátrica Drª Victoria do Espírito Santo, Clínica dos Veteranos da Pátria, em Talatona.   

Em fase adiantada de construção estão o Novo Hospital Militar e o Hospital Pedalé, ao Morro Bento.

De todos eles, a menina de olhos do Presidente da República  é o Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento

Naquela Mensagem à Nação, à sua já notável obra o Presidente João Lourenço prometeu acrescentar novos hospitais em Viana, Cacuaco, Ndalatando, Sumbe e Caxito.

Embora lhe enalteça o empenho no betão, empreitada quase toda ela executada pela Omatapalo, a classe médica aponta a João Lourenço descaso para com a formação do homem que dá vida e serventia às unidades hospitalares. 

Segundo entendidos na matéria, há, no moderníssimo Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento, equipamento hospitalar que nunca funcionou porque não há pessoas capacitadas para manuseá-lo.

Para suprir a gritante e inexplicável falta de quadros, o Governo recorreu à “importação” maciça de médicos e técnicos cubanos. 

Mas o expediente não resultou pois que, postos em Angola, os cubanos depararam-se com tecnologia de que nunca tinham ouvido falar.

Além de subestimar a capacitação de médicos e outros técnicos para o manuseio dos modernos equipamentos, à estratégia de João Lourenço é também a falha de não haver contemplado a construção de centros de saúde para os cuidados primários, com o que se diminuiria em grande medida a enorme pressão sobre as unidades terciárias. 

Animado pelo colossal investimento no betão do sector, o Governo impôs cortes radicais a gastos de dinheiro público no exterior. 

Em Janeiro do ano passado, a ministra de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira, anunciou, em concreto, o encerramento da junta de saúde em Portugal.

Em conferência de imprensa, Carolina Cerqueira  evocou “grandes investimentos em infra-estruturas e serviços médicos especializados em algumas capitais de província para o atendimento e apoio aos doentes, tanto em medicamentos como em assistência”.

Segundo ela, além de alinhada com os investimentos feitos no sector, a decisão punha fim a benefícios que contemplavam uma faixa da “população já de si privilegiada”.   

Depois do “colossal investimento” de que o Presidente da República falou demoradamente na sua última Mensagem à Nação e ao que se seguiu a garantia da ministra de Estado para a Área Social de que Angola já tem reposta para muitas patologias, “sabe” a banho de água fria a informação de que, terminada a sua visita de Estado a Cabo Verde, João Lourenço irá a Orlando, estado da Florida, nos Estados Unidos, em visita privada, um eufemismo recorrentemente usado pelas autoridades para se referirem a deslocações ao estrangeiro com propósitos médicos.

João Lourenço tem uma velha paixão pelos Estados Unidos da América. 

Desde os tempos de secretário-geral do MPLA que ele tem os EUA como principal destino para férias ou para tratamento médico.

Mas, tendo feito um “colossal investimento” na Saúde, que contemplaram vistosas infraestruturas como o Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento ou o Hospital Walter Strangway, os angolanos acreditaram que o seu Presidente da República também usufruiria desse investimento.

No dia em que o inaugurou (30/11/21), João Lourenço referiu-se ao Hospital Dom Alexandre do Nascimento como uma realização “que a todos orgulha, pelas capacidades e serviços que oferece aos angolanos”.

Para não variar, o Presidente da República vangloriou-se de ter visitado, em Dezembro de 2017, o Hospital Sanatório de Luanda, que deu lugar ao novo Complexo de Doenças Cardio-Pulmonares.

Na altura, muitos não entenderam como é que um Chefe de Estado visita um sanatório, pelo tipo de doenças que trata e, pior ainda, um sanatório num estado altamente degradado”, sublinhou, sem identificar quem franziu a testa à sua ida ao envelhecido hospital.

Descrita como “visita privada”, embora seja óbvio que a conta será integralmente paga pelo erário, a ida de João Lourenço a Orlando para tratamento médico está completamente desalinhada com a certeza de Carolina Cerqueira de que “muitas patologias já podem ser resolvidas em Angola”. É uma deslocação que também não casa bem com as palavras do próprio de que hospitais como o Dom Alexandre do Nascimento orgulham a todos, “pelas capacidades e serviços que oferece aos angolanos.

Fica agora claro que o sorriso triunfal de João Lourenço nas sucessivas  inaugurações de estabelecimentos hospitalares não reflecte nenhum confiança na sua capacidade e  na segurança dos seus serviços.

Dir-se-ia que que, apesar do “colossal investimento”, a elite angolana continua a preferir a segurança oferecida pelos serviços de saúde de outros países.

A “montanha” de hospitais construídos, ampliados ou reabilitados serve, exclusivamente, para comover o povoléu.

No fundo, nada que destoe da velha tradição das elites angolanas de evitar misturas com as “camadas”. É assim na saúde, como é também no ensino.

Os governantes gabam-se de “esforços” que fazem na saúde e no ensino. Mas nem eles frequentam os hospitais públicos e nem os filhos estudam em escolas públicas.

Quando confrontado com a informação de que o Presidente da República vai deslocar-se ao exterior para tratamento médico, aparentemente não emergencial, ao angolano comum assoma à máxima atribuída ao norte-americano James Farrel segundo a qual “faz o que eu digo mas não faças o que eu faço”.