Candidato do MPLA prega
ódio e desprezo aos adversários

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O Presidente João Lourenço – é sabido e consabido – não é um grande orador. Quase sempre que leu discursos escritos ou falou de improviso entediou os ouvintes. Houve uma excepcão: o discurso de investidura, no dia 26 de Setembro de 2017. Lido pausadamente, e pontuado por fortes “soundbites”, por detrás daquele discurso parecia estar um homem capaz de levantar multidões e até mesmo de enlouquecê-las. As pessoas de boa memória guardam desse discurso frases de efeito como “Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido”. Aos ouvidos dos angolanos também soou bem a afirmação de “pretendemos que a reforma da administração pública esteja centrada na simplificação de procedimentos e na valorização do capital humano, de modo que permita reter os melhores quadros, através de uma política virada para os domínios da formação, motivação, remuneração e carreira dos agentes e funcionários públicos. É dever destes a resolução célere dos problemas e das necessidades dos cidadãos que recorrem aos seus serviços” ou, ainda, o compromisso de que como “Chefe de Estado, irei trabalhar para que os sagrados laços do contrato social estabelecido entre governantes e cidadãos sejam permanentemente renovados, através da criação de espaços públicos de debate e troca de opiniões, bem como através da criação de meios eficazes e céleres para se exigir o respeito pelos direitos e para garantir a participação plena dos cidadãos na resolução dos problemas das comunidades em que estão inseridos”.

Mas, infelizmente, o autor de tão belas palavras e esperançosos compromissos eclipsou-se no final do discurso. Desde então, o que temos é um Presidente da República cujo discurso alterna a vulgaridade com a deselegância, o insulto com o desprezo ao próximo, a altivez com a má educação. O discurso que proferiu terça-feira, em Ondjiva, nas vestes de Presidente do MPLA, entrou já para os anais da história política angolana como a pior intervenção pública já alguma vez feita por um representante do partido que reclama ter nas suas fileiras a nata da intelectualidade angolana. Onde quer que se encontre, por certo que Agostinho Neto não se orgulha do seu segundo sucessor. Do “Manual” de insultos aos adversários, ufanismo, banalidades, tacanhez e outras da mesma família “redigido” em Ondjiva, Correio Angolense destaca as seguintes “preciosidades”:  

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 «Aqueles políticos que estão verdadeiramente comprometidos com a Paz juntaram-se a essa festa do Povo. Cancelaram todas as suas agendas internas e externas para que pudessem, ao lado do seu povo, comemorar conjuntamente este grande bem, que não sei se é o segundo maior depois da Independência ou se vamos colocá-los ao mesmo nível, em pé de igualdade. Os políticos sérios, que valorizam a Paz, juntaram-se às comemorações do 4 de Abril, juntaram-se ao Povo, congelaram todas as agendas que tinham para passar o sinal certo de que a Paz deve ser defendia, a Paz está em primeiro lugar, quaisquer outras agendas são secundárias; primária é a defesa da Paz. »

(Há um ano, o Presidente da República não incluiu o líder da UNITA entre os convidados do almoço oficial alusivo ao Dia da Paz. Por quê, agora, a ausência de Adalberto Costa Jr. do acto comemorativo da data faz dele um descomprometido com a paz?)

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 «Trabalhámos ao rolantim (ralenti – era, por certo, o que queria dizer), mas nunca deixámos de trabalhar. Só assim se compreende que projectos importantes que começaram, ou que foram sendo realizados nesse período de dois anos da COVID-19, estejam hoje a ser inaugurados e colocados ao serviço das populações. Estou a referir-me aos importantes investimentos que temos feito na área social. Com muito sacrifício, nesta altura da COVID não deixámos de construir hospitais, de apetrechá-los devidamente; não deixámos de construir escolas, de apetrechá-las, fazendo com que deixe de haver crianças a estudar debaixo de árvores e sentadas numa lata de leite em pó, a fazer de assento, a fazer de carteira. Fizemos bastante, não obstante a Covid 19.»

(No Executivo de João Lourenço não há um único ministro que não aluda ao “esforço” e “sacrifício” que o exercício das suas missões pretensamente requerem. Contudo, até hoje, nenhum deles colocou o lugar à disposição por exaustão. A campeã do “ esforço”, Sílvia Lutucuta, continua agarrada ao posto e, se lho permitirem, permanecerá por lá por longos e “ eternos” anos. Ânimo tem o bastante) 

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«(…) foi também nesse período de quase cinco anos que fizemos uma viragem radical no que diz respeito à gestão da coisa pública.(…) Temos de assumir que ainda há gestores que mexem no erário. Mas não com tanto descaramento, com tanta falta de medo como era no passado, porque hoje sabem que até podem fazer, mas se forem apanhados, não haverá impunidade.»

 (A execução do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios – PIIM – atesta que a farra com dinheiro público ainda não acabou) 

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«(…) às vezes, quando a gente utiliza a expressão corrupção, acaba por ser uma palavra bonita. Como o acto em si não é bonito, temos de chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. Corrupção é roubo!»

 (Entre outras, todos dicionários da Língua Portuguesa definem a corrupção comodepravação de hábitos, costumes; devassidão; acto ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, com oferecimento de dinheiro; suborno, uso de meios ilegais para apropriar-se de informações privilegiadas, em benefício próprio. Na generalidade, roubo é definido comodesvio, dilapidação, esbulho, espoliação, exploração, furto, gatunagem, ladroagem, ladroeira, pilhagem, pirataria, rapina, roubalheira, saque, subtraçãoou usurpação. Portanto, é aconselhável manter alguma diferenciação entre corrupção e roubo) 

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«Como dizia, o problema no passado não era só haver roubo, haver corrupção. Mais grave do que isso, era a impunidade. Ninguém fazia nada [contra a corrupção], o que acabava por encorajar os outros a fazerem o mesmo. Neste mandato demos um passo importante na luta contra a corrupção. É evidente que não nos podemos ainda dar por satisfeitos com o que conseguimos.»

 (A bancada parlamentar do MPLA não é testemunha o fim da Era da Impunidade) 

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«A barragem que inaugurámos ontem custou 137 milhões de dólares. Há pessoas que, sozinhas, roubaram cinco, seis vezes mais do que isso. Então, dava para fazer quantos Cafus? Nós precisamos fazer aqui, no Cunene, quatro, cinco Cafus. Então já estavam feitos com o dinheiro roubado por uma só pessoa – uma só pessoa! – dava para fazer quatro, cinco Cafus.»

 (Além do mundialmente famoso Manuel Vicente e do agora encrencado Álvaro Sobrinho, há indivíduos que contraíram ao BPC dívidas que dariam, sim, para construir vários Cafus. A direcção do banco recusa-se a partilhar com os credores, que somos todos nós, os nomes de quem não quer devolver o que era suposto ter tomado de empréstimo) 

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 «Todos nós sabemos que, quando se aproxima um exame, há aqueles alunos que ficam muito perturbados, muito inquietos, porque não se prepararam. Então, têm medo do júri, sabem que vão reprovar. Ao longo do ano, quando deviam estar a estudar, faziam coisas feias, praticavam actos de banditismo e outras coisas e o professor não vai perguntar nada sobre banditismo. Essa matéria não existe!»

 (É suposto um Presidente da República e candidato à sua reeleição ter medo de identificar os bandidos que infernizam a vida dos cidadãos?)

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 «O único programa de nação que eles têm é mobilizar alguns jovens radicais das cidades, dar-lhes meia dúzia de tostões para irem comprar uma cerveja, se calhar algo mais droga do que isso, para cometerem actos de vandalismo. Este é o programa de governação que, infelizmente, a nossa oposição tem.»

 (É decente tomar por vendidos e drogados os jovens que se manifestam por emprego, saúde, educação? Em Angola é conhecida alguma organização política que prega a violência, a anarquia? À falta de melhores argumentos, não teria sido preferível que o Presidente do MPLA falasse de coisas de que tem verdadeiro conhecimento? 

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 «O Povo é o dono dos bens públicos. Então, o povo precisa dos autocarros para se movimentar e aquele que diz que vou ser governo destrói esse bem público do povo? Acham que isso é de alguém esperto? E qual é o contrário de esperto?»

 (A resposta induzida não dignifica quem fez a pergunta. João Lourenço precisa de impor a si próprio alguns limites. Avisa a sabedoria popular que quem diz o que quer ouve o que não quer. O Presidente do MPLA está a pôr-se a jeito) 

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 «Eles destruíram o comité do Partido de Talatona no dia 10 de Janeiro do corrente ano (…)»

(“Eles” quem? No 11 de Janeiro, na abertura de uma sessão do Conselho de Ministros, o Titular do Poder Executivo dirigiu uma inédita Mensagem à Nação na qual garantiu que os autores do ataque ao comité do MPLA teriam deixado no “terreno operacional” impressões digitais bastante expressivas. Uma semana depois, exonerou o comandante-geral da Polícia, muito provavelmente por não lhe ter servido na bandeja as cabeças dos autores das impressões digitais que garantiu serem expressivas. Estranhamente, Paulo de Almeida foi substituído por Arnaldo Carlos, o então director-geral do SIC que deveria seguir as ditas impressões digitais até aos seus proprietários. O facto é que decorridos três meses, João Lourenço continua a não saber quem são “eles” … Mas, mesmo assim, não se coíbe de graves insinuações.  

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«A melhor chapada que podemos dar a eles é derrotá-los nas eleições. Mas derrotá-los de forma copiosa. A derrota deles não pode ser pequenina. Tem que ser uma derrota grande que vão levar anos a se levantar.» 

(Alguém pode tomar como democrata um indivíduo que aspira não a derrotar o adversário, mas a exterminá-lo?) 

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E, finalmente, a chave de ouro: «A missão está dada e vou resumir em duas palavras: vencer o adversário por KO, levá-lo ao tapete»