Com os olhos (exclusivamente)
na próxima eleição

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Como se sabe, o afamado discurso do Cunene (ou Kunene, como grafa o KB Gala), foi “transversal”: começou com hosanas aos “políticos comprometidos com a paz” – à testa dos quais estaria, obviamente o orador – que “cancelaram agendas externas (de que ninguém tem conhecimento) para que pudessem, ao lado do seu povo, comemorar conjuntamente este grande bem”, cujo lugar, na ordem dos feitos mais marcantes do país, o perorador não sabe bem “se é o segundo maior depois da independência ou se vamos coloca-los ao mesmo nível, em pé de igualdade”.

O orador tem dúvidas sobre a ordem de importância os factos, mas do que tem absoluta certeza é que não estão comprometidos com a paz aqueles que não “congelaram todas as agendas que tinham para passar o sinal certo de que a paz deve ser defendida”. 

É, talvez, essa confusão sobre a importância cronológica dos factos que levou a que o acto oficial comemorativo do dia da paz tivesse sido realizado na véspera, porque ao 4 de Abril – dia da paz – o presidente do MPLA sobrepôs um acontecimento a que atribuiu maior relevância: a inauguração do Comité Provincial do Cunene.

O discurso inclui auto-elogios como a recuperação das “principais infra-estruturas destruídas pela guerra”; construção de “importantes infra-estruturas em praticamente todos os domínios para facilitar a vida dos cidadãos” ou, ainda, “conseguimos nesses 20 anos ligar o país de Cabinda ao Cunene”.

O empolgado orador fechou o capítulo com a sentença de “melhor do que isso não podia ser”.

A cereja no topo do bolo do consulado que agora chega penosamente ao fim foi, sem dúvida, a inauguração e colocação ao serviço do povo de projectos importantes, “que começaram ou que foram realizados neste período de dois anos da Covid-19”. Com os “sacrifícios” que o Executivo sempre associa às suas realizações, João Lourenço disse que “não deixamos de construir hospitais, de apetrechá-los devidamente; não deixamos de construir escolas, de apetrechá-las (…)”. Em suma, concluiu o inventariador das obras do Governo, “fizemos o bastante, não obstante a Covid-19”.

Dois depois de gabar a construção e apetrechamento de hospitais – realidade que nenhum angolano nega, pelo menos quanto à edificação e recuperação de infra-estruturas – o médico Pedro da Rosa anunciava, na sua página do Facebook, que “jovens profissionais da saúde no Bié morrem num aparatoso acidente ao regressarem do Huambo aonde foram transferir um recém nascido, por falta de um neonatalogista no Kuito”.

 De acordo com o médico, a “tragédia só aconteceu porque, para além da falta de especialistas, as formas como os pacientes são transferidos são inadmissíveis. A sobrecarga aos profissionais e o mau estado  técnico da viatura.

Depois de perguntar para “quê construir hospitais de raiz, com equipamentos topo de gama em detrimento de recursos humanos capacitados para o efeito?”, o médico Pedro da Rosa explica a sua adesão à greve nacional os médicos com “falta de medicamentos, materiais e condições adequadas para trabalhar”

Um comovente dístico que médicos empunham durante a greve é elucidativo do que está em jogo. 

Há países em que os governantes se debatem com o dilema sobre se devem governar para a próxima eleição ou se para a próxima geração.

Em Angola, o MPLA já resolveu esse dilema há muito: governa para a próxima eleição.

No comício do Kuito, João Lourenço até já definiu como quer ganhar a próxima eleição: por KO. Seja no ringue ou – mais provavelmente – na secretaria – João Lourenço pede aos militantes que apliquem ao adversário um KO técnico que o paralise por longo tempo.

«A melhor chapada que podemos dar a eles é derrotá-los nas eleições. Mas derrotá-los de forma copiosa. A derrota deles não pode ser pequenina. Tem que ser uma derrota grande que vão levar anos a se levantar”, ordenou.

Virado exclusivamente para as eleições, não há no discurso do presidente do MPLA uma única palavra, uma única resposta de Angola à escassez mundial  de alimentos, nomeadamente trigo e milho, provocada pela invasão russa à Ucrânia.

Também Presidente da República, João Lourenço não enunciou uma única medida que o Governo esteja a considerar para amortecer, internamente, os preços do trigo e do milho.

Desde que  a agressão russa à Ucrânia fez disparar os preços do milho e do trigo, a única entidade oficial que se pronunciou sobre a resposta de Angola a essa situação é o ministro do Comércio e Indústria.

Recentemente instado sobre o aumento dos preços do trigo e do milho, dois cereais muito presentes na dieta dos angolanos, Victor Fernandes deu uma resposta que, em países adultos, lhe teria valido o afastamento do Governo naquele mesmo dia

Recentemente instado sobre o assunto, Victor Fernandes deu uma resposta que, em países adultos, lhe teria valido o afastamento do Governo naquele mesmo dia.

“O mundo não vai parar de produzir trigo”. Trocado por miúdos, a resposta do ministro significa que Angola não pondera o aumento da produção interna do trigo e do milho.

Não está na perspectiva do Governo – ou pelo menos a do seu ministro do Comércio e Indústria, qualquer fomento da produção interna.

Com governantes focados apenas na próxima eleição e não no futuro do país, a Angola de nada valerá a cobiçada riqueza no solo, subsolo, em recursos hídricos e outros.