Clã dos Santos: Tchizé capitanea o desmoronamento

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Há uma batalha silenciosa que decorre debaixo da guerra de comunicados sobre a tutela e o estado de saúde de José Eduardo dos Santos.

Trata-se de uma “encarniçada” batalha sobre os bens do antigo Presidente da República.

Até há poucos dias, tanto Isabel como Tchizé dos Santos tinham como certo que não só teriam a palavra final sobre o destino a dar ao corpo de José Eduardo dos Santos, na eventualidade de vir a falecer em Espanha, como, também, na repartição dos bens do antigo Presidente da República. 

A inesperada ida de Ana Paula dos Santos a Barcelona não apenas surpreendeu as duas irmãs, como lhes retirou a tutela do pai.

Com Ana Paula por perto, isto é, ao lado do marido, Isabel dos Santos perde o estatuto de “Next of Kin, o familiar a quem os médicos reportavam o estado de saúde de José Eduardo dos Santos, e Tchizé deixa de poder escudar-se na doença do pai para manter os seus filhos menores em Barcelona.

O comunicado de treça-feira, 16, através do qual o ex-Presidente da República diz que o médico intensivista João Afonso é a única entidade a quem autoriza para falar da sua saúde, liquidou definitivamente os propósitos de Isabel e Tchizé de transformar o pai num instrumento de negociação com o Governo.

Com a tutela do pai irremediavelmente perdida para Ana Paula dos Santos, mulher com quem José Eduardo dos Santos continua casado, apesar de não viverem sob o mesmo tecto há mais de 5 anos, Tchizé dos Santos, sobretudo, deu início a uma “intifada” contra tudo o que lhe está à mão de semear: Executivo angolano, General Miala, o médico João Afonso, o meio irmão Danilo e até a própria tia, Marta dos Santos.

Na mesma quarta-feira em que o pai confiou no médico João Afonso a responsabilidade exclusiva de falar sobre o seu estado de saúde, a primogénita de José Eduardo dos Santos postou nas redes sociais uma enigmática mensagem.

A pior traição sempre vem daqueles em que mais confiamos”, diz a mensagem cujo destinatário é desconhecido.

Mas pouco dias antes, o normalmente recatado Coréon Dú postou uma mensagem intrigante e também ela de destinatário não identificado. 

O problema é mútuo. Não é awkward pois ele sabe que não é amizade o que quer/precisa e ela deve evitar continuar a posicioná-lo no ´friend zone´. Muito pessoal gosta de deixar os outros em banho maria indiretamente alimentando esperanças. Retirem o ´vamos ser amigos´ da mesa”.

Mas a “cortina de fogo” que Isabel e Tchizé fazem a respeito da tutela e do estado de saúde do ex-Presidente da República disfarça uma silenciosa batalha pelos bens de José Eduardo dos Santos.

Casada em regime de separação de bens, Ana Paula dos Santos não teria nada a reclamar do património do marido. 

Enquanto primeira dama, Ana Paulo teve oportunidades para construir a sua independência económica. E ao que tudo indica, construiu.

Porém, o facto de José dos Santos haver oferecido, recentemente, à Maria Luísa Abrantes (Milucha) uma grande fazenda no Kwanza Sul pode “legitimar” algumas reivindicações de Ana Paula dos Santos. 

Mãe de dois dos seus filhos, Milucha nunca teve uma relação oficial com José Eduardo dos Santos.

Entre Setembro do ano passado e Março deste, período em que esteve em Luanda, Milucha frequentou assiduamente a casa de José Eduardo dos Santos ao Miramar. Estima-se que é nessas idas e vindas que a mãe da Tchizé e de Coréon Dú convenceu o pai dos filhos a “doar-lhe” a grandiosa fazenda que o Estado angolano deu de bandeja a José Eduardo dos Santos no Waku Kungu. 

Ainda não se sabe se o presente a Milucha poderá ter algum efeito de bola de neve junto das outras mulheres que também são mães de filhos de José Eduardo dos Santos. 

Mas observadores que seguem atentamente o que se passa em e em torno de Barcelona coincidem em que a ofensiva generalizada da Tchizé contra madrasta, meios irmãos, primos e tias visa, exactamente, reduzir ao mínimo o número de beneficiários directos do espólio de José Eduardo dos Santos.

No centro da disputa pelo espólio do antigo Presidente da República poderá estar o seu antigo assistente para as Comunicações, General Leopoldino Fragoso “Dino”.

Embora não exista nenhuma prova documental, o General Dino é geralmente considerado como “cofre” de José Eduardo dos Santos.

Sob a liderança de José Eduardo dos Santos, Angola foi saqueada em várias centenas de biliões de dólares.

Estimativas do FMI, Banco Mundial e outras organizações internacionais convergem em que só no período entre 2002 e 2012, o “boom” petrolífero terá gerado receitas superiores a quase 700 biliões de dólares. Quase ou toda a dinheirama foi parar aos bolsos de familiares de José Eduardo dos Santos e de outras pessoas que ele apadrinhava.

Em 2011, em meio a acusações, nunca provadas, de David Mendes segundo as quais sabia quanto e onde José Eduardo dos Santos tinha domiciliado dinheiro no estrangeiro, o então Presidente da República desafiou a quem tivesse evidências do seu enriquecimento ilícito a apresenta-las à Unidade Financeira do Banco Nacional de Angola.

“Na internet, alguém pôs a circular a notícia de que o Presidente angolano tem uma fortuna de 20 biliões de dólares no estrangeiro. Se essa pessoa fosse honesta e séria, devia indicar imediatamente ao Departamento de Inteligência Financeira do Banco Nacional de Angola os nomes dos bancos e os números das contas em que esse dinheiro está depositado, para que o Tesouro Nacional possa transferir esse montante para as suas contas”, disse numa reunião do Comité Central do MPLA.

Não há ciência de que David Mendes alguma vez tenha procurado aquela entidade do BNA para fundamentar as suas acusações. 

Pai de 8 filhos (Isabel, José Filomeno, Tchizé, Coréon Dú, Joes, Eduane Danilo, Joseane, Eduardo Breno), José Eduardo dos Santos proporcionou a cada um deles condições para o sucesso material. No auge do consulado do pai, Isabel dos Santos, por exemplo, foi considerada pela revista Forbes como a africana mais rica. Com o falecido marido Sindika Dokolo, Isabel era presença assídua nos maiores areópagos do jet set mundial.

O combate à corrupção, um compromisso eleitoral do actual Presidente da República, tropeça quase exclusivamente em indivíduos que tiveram uma relação muito próxima com José Eduardo dos Santos. 

Arisco, José Eduardo dos Santos terá diluído o  dinheiro que é suposto ter desviado para si próprio entre os filhos, outra parentela, amigos e colaboradores próximos. 

Como bens próprios são lhe atribuídas as mansões ao Miramar e Morro da Luz, ambas construídas com dinheiro do Estado, extensas fazendas agrícolas, nomeadamente no Wako Kungo e na Gabela, e casas no Principado do Mónaco e no Brasil. Não existem provas, mas no Brasil é regularmente referido que José Eduardo possuirá uma fazenda com milhares de cabeças de bois no Estado de Goiás. 

Quanto ao General Dino não se sabe a fama de ser tesoureiro de José Eduardo dos Santos casa com a realidade.

O que se sabe, sim, é que não satisfeitas com o pé de meia dos filhos, algumas antigas amancebadas do ex-Presidente acreditam que ainda têm dinheiro a receber do General Dino.

O problema é que nenhuma delas pode provar documentalmente que o ex-assistente alguma vez foi guarda livros e tesoureiro de José Eduardo dos Santos. 

Independentemente do desfecho que venha a conhecer a batalha pelos bens de José Eduardo dos Santos, é seguro que as relações entre os seus filhos ficam profundamente feridas.

As agressões, reiteradas, de Tchizé dos Santos à reputação de Ana Paula dos Santos abrem feridas difíceis de sarar na prole de José Eduardo dos Santos.

Retido no leito onde, entre outras, luta contra devastadoras sequelas da Covid que contraiu em 2021, no Dubai, onde foi consolar a filha Isabel após a morte do marido, José Eduardo dos Santos assiste, impotente, ao desmoronar do seu núcleo familiar. 

E responsabilidade maior cabe, indiscutivelmente, a Tchizé dos Santos. 

Na verdade, a antiga deputada do MPLA levou as divergências com a madrasta e seus filhos a patamares muito indecentes. E como isso faz jus ao título de sanzaleira, que conquistou por “mérito” próprio. Uma sanzaleira que, é bom repeti-lo, continua em estado de negação.