Muitos casos de estudo na lista do MPLA

10426

No discurso com que segunda-feira, 23, se despediu do cargo de Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa disse isso: ”Iniciamos aos 16 anos e temos hoje de MPLA, o triplo do tempo de idade do membro mais jovem do Comité Central do MPLA”.

O membro mais novo do Comité Central a que Bornito de Sousa se refere é Daniela Tatiana da Silva Geraldo, que chegou a esse órgão de direcção do MPLA em Dezembro do ano passado com apenas 18 anos. Dir-se-ia que a jovem nascida na Huíla chegou ao CC mal acabou de ser “desmamada”.

Entre Bornito de Sousa e Daniela Geraldo há um “hiato” de meio século.

Bornito e Daniela podem ser avô e neta. Não obstante, ambos são colegas no Comité Central do MPLA e os votos de um e a da outra têm o mesmo valor.

Se candidatos como Roberto de Almeida (82 anos), Dino Matross (80), Luzia Inglês (74), Vicente Pinto de Andrade (72 anos), Fernando da Piedade Nandó (72) forem eleitos aprofundar-se-á a diferença de idade entre alguns deputados.

Com menos de 30 anos, candidatos a deputados como Arsénio Satyohamba, Santiago Primeiro ou Hemingarda João Fernandes poderão partilhar a mesma bancada parlamentar com colegas com idade de ser seus avôs ou mesmo bisavôs.

São ténues as possibilidades de Roberto de Almeida (93 na lista), Luzia Inglês (88) e Dino Matross (106) serem eleitos. A sua inclusão na lista de candidatos faz deles casos de estudo de apego ao poder. O caso de Nandó também deve despertar a atenção dos estudiosos.

Não há, em Angola, político com curriculum mais recheado do que o de Nandó. Vice e depois ministro do Interior, a partir de 2002 iniciou uma estonteante “escalada” que o levou sucessivamente aos cargos de primeiro-ministro (2002 a 2006), presidente da Assembleia Nacional (2008-2010), vice-presidente da República (2010-2012) e novamente presidente da Assembleia Nacional desde 2012 até aos dias de hoje. Aos 72 anos Nandó é o 7 º da lista de candidatos do MPLA. Num posição com eleição garantida,  o ainda presidente da Assembleia Nacional dispõe-se a continuar na casa das leis na condição não já de  passar a palavra, mas de implorar o seu uso. 

Proprietário da maior exploração avícola de Luanda, a Pérola do Kikuxi, a pergunta é: não há, ali, espaço para que Nandó instale um cómodo escritório onde possa alinhavar as memórias da sua vasta trajectória política?

A violenta decepção decorrente do facto de haver sido preterido por João Lourenço para a sucessão de José Eduardo dos Santos, em Fevereiro de 2017, fazia supor que levaria Nandó a dar por terminada a sua longa caminhada político-partidária. Nandó não só relevou a desfeita, como está disponível até mesmo para baixar de categoria.

Donde, novamente, a pergunta: o por quê razão  Nandó está “preso” à política? 

Não sendo crível que sacrifique a sua dignidade por um desinteressado amor à Pátria, o apego de Nandó ao “tacho” só pode ser explicado à luz de razões que escapam ao comum dos mortais.

Nandó, como muitos outros, deixa escapar pelo ralo a grande oportunidade de deixar a vida política activa pela porta grande.

Num inelegível 106 lugar, Dino Matross é outro dinossauro cujo apego ao “mel” mancha uma trajectória em que pontuam funções como a de director nacional das antigas FAPLA, ministro da Segurança de Estado, secretário geral do MPLA e deputado da Assembleia do Povo (1980-1992) e deputado à Assembleia Nacional de 1922 até à legislatura que vai agora a “enterrar”. Também ele bem sucedido no domínio empresarial, Dino Matross teria muito com o que o se ocupar fora da política. Como previsivelmente acontecerá, já que só um milagre pode levá-lo a ocupar novamente assento na Assembleia Nacional.

O antigo secretário-geral do MPLA é, agora, “colega de turma” da jornalista Zenilda Volola (107.º), João Pinto (108. º) Belarmino Van-Dúnem (110. º) e Domingos Betico (124.º). Ou seja, faz parte do “team” que só terá assento na Assembleia Nacional se o MPLA for capaz de dar à oposição o tal K.O. de que o Presidente João Lourenço falou no Cunene.

Aos 81 anos, Roberto de Almeida não só foi batido na ordem de precedência pela filha Djamila Huguete (33 lugar) como arrisca-se a tropeçar, nos corredores da Assembleia Nacional, com deputados com idade de ser seus netos. O que, seguramente, criará alguns constrangimentos a uns e outros. É que não é crível que um deputado abaixo de 30 anos se  dirija ao octogenário Roberto de Almeida como camarada ou colega. O mais provável é que o trate por tio Roberto ou mesmo avó, nos casos de deputados do interior do país, onde se cultiva o respeito à diferença de idade.

Tido, em alguns círculos benevolentes, como escritor, Roberto de Almeida ou Jofre Rocha, que é o nome que usa quando se traveste em autor de obras literárias, é, ele também, um caso de invulgar apego ao poder. 

Em Roberto de Almeida está, também, corporizado o típico caso das pessoas que desconhecem a hora de arrumar as chuteiras.

Tudo parecia indicar que a antiga secretária-geral da OMA faria coincidir a passagem do testemunho à Joana Tomás com a sua reforma da actividade política activa. Mas aos 74 anos de idade, Luzia Inglês (Inga) é a 88 ª da lista de candidatos a deputados pelo MPLA, o que quer dizer que os seus netinhos vão ter de esperar por outra altura para merecerem a atenção exclusiva da avô. 

Pouco mais de três gerações separaram Vicente Pinto de Andrade (60.º) e Patrícia Faria (103. º). Mas aos 72 anos, Vicente Pinto de Andrade já não consegue disfarçar sinais de “putrefacção” mental. O seu desempenho na “Revista Zimbo”, onde teve uma fugaz passagem, cobriu de vergonha a conhecida família originária de Golungo Alto. Aos 41 anos, música e advogada, Patrícia Faria justificaria a troca de posição com VPA. 

Outros casos merecedores de estudo são os de Pedro Mutindi e, ainda, de Nené Pizarro, que aparece num surpreendente 84.º lugar. 

No já referido discurso de segunda-feira, Bornito de Sousa disse que a “estafeta da existência tem a linha de partida e tem o momento de entrega do testemunho”.

Aparentemente, o que Bornito disse não se aplica a ele e nem aos seus camaradas de partido.

Aliás, no MPLA, o apego ao poder atingiu, já, características patológicas. 

Em Agosto de 2001, perante o Comité Central do MPLA, José Eduardo dos Santos prometeu que não seria o candidato do seu partido às próximas eleições presidenciais, que se realizariam em 2002 ou 2003.

José Eduardo dos Santos deixou o poder apenas 16 anos depois. E não por vontade própria. Foi praticamente arrastado até à porta de saída.

Há uma geração de veteranos que parece não ter percebido, ainda, a indisponibilidade do Presidente João Lourenço de mantê-los em lugares cimeiros do partido. Um inequívoco sinal nesse sentido foi dado na reunião do Comité Central que se seguiu à tomada de posse de João Lourenço. Nessa reunião, foram defenestrados do Bureau Político dinossauros como França Ndalu, Dino Matross, Francisco Magalhães “Nvunda”. Essa mesma vassourada também colheu notáveis como Manuel Vicente, Kundi Paihama, António Kassoma e Higino Carneiro.

Relegados para lugares praticamente inelegíveis, o Presidente João Lourenço está a reiterar a Dino Matross, Roberto de Almeida e Luzia Inglês que não conta mais com eles.