O regresso do general 4X4

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general Francisco Higino Lopes Carneiro teve a cabeça muito próxima da guilhotina.

Em 2018, Higino Carneiro, Manuel Rabelais e Augusto Tomás conformavam o trio do que as novas autoridades do país exibiam como prova de que o combate à corrupção e a à impunidade não cedia a nomes.

Ministro dos Transportes, governador de Luanda e director do GRECIMA, respectivamente, Tomás, Higino e Rabelais entraram na Era Lourenço sob suspeitas de haverem praticado graves crimes contra o bem público no longevo consulado de José Eduardo dos Santos.

Acusado de praticar crimes de peculato, violação das normas de execução orçamental, abuso de poder económico e de participação económica,  em Agosto de 2019 Augusto foi condenado a pena de 14 anos.

O antigo ministro dos Transportes cumpre a sentença no estabelecimento prisional de São Paulo, depois que viu rejeitados todos os recursos que fez ao Supremo e, depois, ao Tribunal Constitucional.

Em Março de 2021, o Tribunal Supremo condenou Manuel Rabelais a pena de 14 anos e seis meses de prisão. O antigo director do GRECIMA foi a julgamento sob a acusação de haver defraudado o erário em mais de 30 milhões de dólares.

Além da pena de prisão, Rabelais perdeu para o Estado património como a Rádio Global e a TV Palanca.

O antigo director do GRECIMA aguarda em liberdade o julgamento do recurso que interpôs logo após a leitura da sentença.

Terceiro do trio “montra” de que nomes não assustam a luta contra a corrupção e a impunidade, também conhecido como Peito Alto e General 4×4, ambas alcunhas atribuídas pelo desaparecido semanário Angolense, Higino Carneiro esteve com a cabeça muito próxima da guilhotina.

Em Setembro de 2021, o Procurador Geral da República, Hélder Pitta Gróz, assegurou que já se encontrava em tribunal o processo em que o antigo governador de Luanda ia acusado dos crimes de peculato, nepotismo, tráfico de influência, associação criminosa e branqueamento de capitais.

Acossado pelas suspeitas de que teria usado dinheiro do Governo Provincial de Luanda para apoiar a campanha eleitoral do MPLA em 2017, em 2019 Higino Carneiro viu frustrada uma tentativa de ser recebido pelo líder do partido, João Lourenço, a quem pretenderia esclarecer como empregou os fundos presumivelmente subtraídos do erário.

Embora não estivesse judicialmente impedido de viajar, enquanto esteve no radar da Procuradoria Geral da República  o antigo governador de Luanda evitou a aproximação ao aeroporto internacional 4 de Fevereiro.

No dia 25 de Janeiro de 2019, as autoridades migratórias frustraram uma viagem de Manuel Rabelais a Lisboa. Na altura, disse-se que o presidente da Assembleia Nacional, Fernando Dias dos Santos, Nandó, não teria autorizado a viagem de Rabelais.

Peito Alto não quis arriscar esse constrangimento.

Em Setembro passado, Hélder Pitta Gróz disse que além do envio a tribunal do processo envolvendo Higino Carneiro, a PGR estaria a trabalhar para concluir, no espaço de tempo mais breve, processos em que são visados os generais Kopelipa e Dino, dois antigos pesos pesados de José Eduardo dos Santos.

Nos primeiros dias de Maio deste ano o Tribunal Supremo surpreendeu o país com a decisão de arquivar o processo de Higino Carneiro.

O Tribunal Supremo fez o despacho de despronúncia e arquivamento do processo movido contra Higino Carneiro, o que iliba o antigo ministro da prática dos vários crimes de que era acusado”, anunciou no dia 7 a Rádio Nacional de Angola.

É difícil dissociar  o arquivamento do processo contra Higino Carneiro de informações, recorrentes, de que o antigo governador de Luanda ameaçava não ir a fundo sozinho.

Fontes que lhe são próximas atribuíram ao general Peito Alto ameaças de que abriria a boca se lhe faltassem apoio e solidariedade dos seus pares do MPLA.

Em vários círculos repete-se que Higino Carneiro teria financiado a campanha eleitoral do MPLA em 2017 com dinheiro desviado do Governo Provincial de Luanda.

O despacho de despronúncia do Tribunal Supremo recolocou o general 4X4 no “colo” dos camaradas.

A colocação de Higino Carneiro no terceiro lugar da lista dos seus candidatos pelo círculo provincial de Luanda significa que o MPLA enxerga nele um activo eleitoral numa praça que promete uma renhida disputa.

Higino Carneiro entra em campo na próxima semana, levando a mensagem do seu partido aos quatro cantos de Luanda.

Alinhado com o líder, Higino Carneiro repetirá que o MPLA continua comprometido com a luta contra a corrupção e contra a impunidade. Mesmo se essa ladainha não case bem com algumas pessoas.

É pena que o Tribunal Supremo não tenha proporcionado a Higino Carneiro a possibilidade de provar a sua inocência.

Uma absolvição decidida em tribunal teria conferido ao general 4X4 autoridade moral para condenar a corrupção e a impunidade.

Não tendo sido julgado e absolvido, sempre sobram algumas (ou muitas) dúvidas…

Seja como for, o general fez um percurso notável: de um quase réu, que muito dificilmente escaparia à moldura penal que coube a Tomás e a Rabelais, Higino é agora uma das estrelas rejuvenescidas com que o MPLA conta para a dificílima disputa que aí vem.

Dir-se-ia, em suma, que, como o pássaro fénix, também o general 4×4 renasceu das cinzas.