Diálogo tenso em Barcelona

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A segunda ronda negocial entre representantes do governo angolano e uma parte da família do falecido ex-presidente José Eduardo dos Santos (JES), realizada de forma virtual na manhã desta segunda-feira, 11, pode ter sido inconclusiva, segundo informou ao Correio Angolense fonte credível.

Os dois aviões que estavam em Barcelona desde meados da semana passada ao serviço do Estado angolano regressaram hoje a Luanda, um dos quais aterrou no meio da tarde, não se sabendo ao certo quem são os passageiros. “Presume-se que os ocupantes sejam os membros da equipa negocial do governo e tudo indica que as conversações não correram a contento para nenhuma das partes”, estimou a fonte.

Na reunião de hoje os negociadores do governo deram resposta à proposta de Isabel dos Santos, a primogénita do antigo presidente, de acordo com a qual há a possibilidade de as cerimónias fúnebres ocorrerem em Angola, mas só depois das eleições gerais, marcadas para 24 de Agosto próximo. 

Não se confirmam informações veiculadas por algumas publicações, segundo as quais a troco da “libertação” do corpo, o Estado angolano teria oferecido um perdão a hipotéticos crimes cometidos pelos filhos do presidente emérito do MPLA. Esse aludido perdão seria uma condição imposta por Isabel dos Santos, que exige o fim do que qualifica como perseguição judicial aos filhos de JES. Nestas exigências, Isabel dos Santos é secundada pelos irmãos, José Filomeno dos Santos, ausente, Tchizé, Coreon Dú e Joess Avelino. Das reivindicações consta igualmente um pedido para que à semelhança do que foi feito em honra de Agostinho Neto, também seja erguido um mausoléu para JES.

Catedral de Siracusa, na Sicília, escolhida para velório de parte da família de JES

Sem o poder da palavra final, a equipa negocial do governo em Barcelona teve que contactar Luanda para saber o que dizer. Foi por esta razão que domingo último, 10, não houve diálogo entre as partes. “Embora oficialmente nada tenha transpirado, há sinais fortes de que o governo de Angola não aceitou as condições impostas pela contraparte”, indicou a fonte.

A delegação do governo é liderada por Francisco Pereira Furtado, ministro-chefe da Casa de Segurança da Presidência da República, o procurador-geral da República, Hélder Pita-Grós, e o embaixador de Angola no Reino de Espanha, José Luís de Matos. 

Na ronda inaugural esta equipa foi reforçada com a presença do embaixador jubilado Brito Sozinho, tido como amigo de José Eduardo dos Santos. Na única intervenção que fez, o diplomata apelou à Isabel dos Santos e a quatro dos oito filhos de JES para que aceitassem a ideia do funeral do falecido ex-presidente ser realizado em Luanda. Brito Sozinho é de opinião, que JES merece um funeral digno, o que deveria ser feito em Angola. 

Isabel dos Santos perguntou-lhe se era amigo do pai, ao que respondeu “sim”. Diante, entretanto, de outra pergunta, esta, sobre as razões por que, sendo amigo, nunca frequentou a casa de JES, Brito Sozinho não teve resposta e a primogénita descartou-o como negociador. De modo que o diplomata já não participou na reunião de desta segunda-feira, 11.

A fonte disse ao Correio Angolense ser quase seguro que o funeral de José Eduardo dos Santos não terá lugar em Angola enquanto João Lourenço for presidente da República, tal é o ressentimento que estes filhos têm em relação ao actual chefe de Estado. 

Além de Isabel dos Santos, participaram na consulta virtual os filhos José Paulino “Coreon Dú” e Joess Avelino, assim como Marta dos Santos, irmã de José Eduardo dos Santos, a quem a sobrinha, em conversas prévias disse que a decisão sobre o funeral cabia aos filhos e a mais ninguém. 

Isabel dos Santos fez a mesma advertência a Ana Paula dos Santos com quem tem tido discussões acesas. As relações entre as duas nunca foram cordiais e azedaram quando Isabel dos Santos soube que Ana Paula dos Santos estava em Barcelona ao lado do pai, após terem vivido separados durante quase cinco anos. O tom com que Isabel dos Santos se dirigiu à madrasta, fez com que Joseane dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos e de Ana Paula dos Santos, saísse em defesa da mãe. 

A fonte do Correio Angolense revelou que as discussões de Isabel com a madrasta e com a irmã têm sido “feias”, com impropérios pelo meio. Como resultado destas desinteligências e também das intervenções de Tchizé dos Santos nas redes sociais, o clã Dos Santos está dividido. Ana Paula dos Santos e os seus três filhos (Danilo, Joseane e Breno) de um lado e os restantes filhos de José Eduardo dos Santos, de outro. 

Rotas dos aviões do Estado angolano que estavam em Barcelona

A delegação do Governo, também teve uma conversa com Ana Paula dos Santos, a qual, tal como Tchizé dos Santos, já tem ao seu serviço um escritório de advogados. Entretanto, Luís dos Santos, irmão de José Eduardo dos Santos, não viajou para Barcelona, como estava previsto.

Velórios 

Na manhã de hoje iniciou um velório público em memória de JES no Memorial Agostinho Neto, em Luanda. Na cerimónia, o presidente João Lourenço assinou o livro de condolências, seguido de outros representantes dos órgãos de soberania, assim como governantes, políticos e autoridades eclesiásticas, entre outros. No evento não esteve presente nenhum familiar directo do falecido ex-presidente. 

De igual modo, o governo mandou criar, em todas as restantes 17 províncias, locais para velórios públicos em memória de JES, eleito presidente emérito do MPLA no congresso extraordinário do partido realizado 9 de Setembro de 2018.

Também hoje à noite Isabel dos Santos e parte dos irmãos que estão na Europa realizam um velório em memória do pai na igreja católica de Siracusa, Sicília, conforme indicou a primogénita numa das suas contas nas redes sociais. É pouco provável que Ana Paula dos Santos e os filhos marquem presença nesse piedoso acto, uma vez que a corrente entre as duas alas do Clã dos Santos não tem passado. 

Para “homenagear condignamente a sua figura, a sua obra, os seus feitos e o seu legado ao serviço da Nação Angolana”, o presidente João Lourenço decretou luto nacional de sete dias a ser observado em todo o território nacional e nas missões diplomáticas e consulares.