Ausência de Kangamba na campanha divide MPLA

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O tumulto protagonizado por centenas de motoqueiros no último dia da pré-campanha eleitoral, sábado passado, 23, em Luanda, reacendeu uma disputa surda no seio da superestrutura do MPLA, devido ao afastamento de Bento Kangamba da campanha eleitoral, ele que é classificado por muitos dos seus camaradas como activista de valia tal que jamais devia ser dispensado da “batalha” que resultará na eleição do próximo presidente de Angola e dos deputados à Assembleia Nacional para o mandato 2022-2027.

A informação foi dada pelo Correio de Angolense por fonte credível que integra o Comité de Campanha do partido no poder. De acordo com a fonte, aquele problema teria sido evitado, se a pessoa do partido indicada para negociar com os motoqueiros fosse o empresário-político, de quem dizem ter “calo” neste tipo de negociações.

“O camarada Bento Kangamba seria a pessoa indicada para tratar do assunto, mas infelizmente alguns dentro do partido, geralmente travestidos de intelectuais e do alto da sua soberba, acham que o homem já não serve”, disse a fonte para quem o oficial-general na reserva “está talhado para lidar com pessoas de estratos populacionais menos favorecido, como é o caso daqueles jovens que fazem pela vida e mereciam outro tipo de abordagem”.

A fonte explicou que ditos intelectuais do MPLA entenderam deixar Bento Kangamba de fora da equipa da campanha eleitoral, usando um critério altamente subjectivo, que é o da “intelectualidade”. Desconfia, porém, que pode ser vítima da silenciosa “purga”, visando figuras ligadas ao ex-presidente José Eduardo dos Santos. “É uma possibilidade que não pode ser descartada. A forma como familiares, amigos e até pessoas supostamente próximas do presidente emérito do partido estão a ser tratadas, dá muito que pensar”.

Outra razão que pode explicar o afastamento do proprietário do Kabuscorp FC da campanha do MPLA para o pleito de 2022 é o desconhecimento dos seus feitos nas campanhas de 2008 e, principalmente, de 2012, segundo a fonte, que preferiu não ser identificada. “Muitas das principais figuras que estiveram no ‘Estado-Maior’ das campanhas anteriores não estão agora, pois eram conotadas com o presidente José Eduardo dos Santos. Por isso, não dimensionaram bem o quão importante o camarada Bento Kangamba seria e ainda pode ser”, defendeu a fonte que vimos citando.

“Em 2008, ano em que o MPLA teve a votação mais expressiva da história das eleições em Angola, o comício do MPLA no Dundo estava para ser cancelado, porque o grupo de acompanhamento do partido à província e até o general Kopelipa tinham chegado à conclusão que não havia condições de o MPLA fazer o comício naquela cidade. O ambiente era hostil e por todo o lado da cidade havia bandeiras da UNITA e do PRS. Quando parecia tudo perdido, Bento Kangamba entrou em cena e numa só noite arrumou o assunto. A verdade é que os resultados do partido nas eleições foram positivos. Na altura, em pleno comício, o presidente José Eduardo dos Santos agradeceu-lhe publicamente, levantou-lhe o braço e reconheceu que foi graças àquele ‘homem da região’ que o comício se concretizou. Para o sucesso da actividade, ele falou com vários actores, inclusive responsáveis do PRS e da UNITA, além, naturalmente, do MPLA”, detalhou.

A fonte revelou que nas eleições seguintes, em 2012, Bento Kangamba jogou papel fundamental e quase nos mesmos moldes que o fez no Dundo. Ele foi a Cabinda inverter um quadro que era altamente adverso ao partido. Na ocasião, nem figuras como os generais Zé Maria, Higino Carneiro e Kopelipa conseguiram impor a sua vontade. “Bento Kangamba estava de viagem, por estrada, de Saurimo para Malanje. Foi accionado e um avião particular foi buscá-lo a Malanje. Chegado a Cabinda falou com vários líderes de organizações juvenis e influencers locais, tendo conseguido resolver o que parecia ser impossível”, revelou.

“Mesmo fora do contexto eleitoral, foi de grande utilidade a apagar fogos. Certamente muitos ainda se lembrarão de uma grande manifestação de ex-militares ocorrida em 2010 e que descia do Eixo Viário, em Luanda, ameaçando instituições governamentais como o ministério do Interior e outros. Na altura, o ministro do Interior era Sebastião Martins. Aflito, ligou ao Chefe da Casa Militar do PR, o general Kopelipa, que, por sua vez, contactou Bento Kangamba para resolver o problema, algo que conseguiu depois de negociar com a liderança dos amotinados” recordou.

Para a fonte, “estão a subestimar em demasia o grande cabo eleitoral que é Bento Kangamba, homem que tem uma incrível capacidade de penetração em praças eleitorais teoricamente da UNITA, como Benguela, Huambo e Bié, onde agora Adalberto da Costa Júnior se passeia. No passado, ele obliterou a acção da UNITA nessas províncias. Também tem junto da juventude tem grande influência, razão pela qual ficou conhecido como empresário da juventude”. 

E acrescenta: “Se calhar, ninguém no partido foi tão solidário com os mais desfavorecidos como ele. Por onde passou, ajudou muita gente, famílias inteiras, oferecendo alimentos, motorizadas, geradores e até casas, fazendo-o sempre com recursos próprios. Este é um capital que jamais poderia ser desbaratado. Mas os ditos intelectuais pensam que é com palavras bonitas que convencem o povo dos bairros periféricos e dos kimbos”.  

Ao que o Correio Angolense apurou, até sábado passado a disputa relativamente a este tema dentro do comité de campanha e da direcção do MPLA era ainda surda. Mas com a UNITA a somar pontos e com a maka dos motoqueiros viralizada nas redes sociais, o assunto pode resultar em “refrega” verbal numa das próximas reuniões diárias de balanço. De um lado estão os “intelectuais” e do outro militantes que se consideram “pragmáticos” e para os quais “a intelectualidade não é suficiente para abordar todos os extratos da população votante, havendo largas franjas cujo trato deve ser diferenciado”.