Mushingi. Uma nódoa no curriculum

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Em Novembro do ano passado e enquanto aguardava  a sua confirmação pelo Senado para ser nomeado embaixador em Angola, a newsletter Africa Monitor Intelligence descreveu Tulinabo Salama Mushingi como um “indivíduo especialmente sensível a perversões como opressão política, a má governação e a pobreza extrema”.

De acordo com a AMI, Mushingi seria particularmente sensível a essas perversões porque conviveu com elas no seu país de origem, a República Democrática do Congo.

“As suas origens na RD do Congo, onde inicialmente conviveu com tais perversões, é apontada pelo próprio como causa da sensibilidade com que reage a desigualdades/injustiças a que estão sujeitas as populações de múltiplos países africanos”.

A newsletter descrevia, também, o futuro embaixador norte-americano em Angola como um “honest man” para quem “uma boa democracia pode contribuir eficazmente para a ultrapassagem de problemas com que os países africanos, na sua maioria, vivem confrontados”.

A Africa Monitor Intelligence atribuía a Tulinabo Salama Mushingi desabafos de acordo com os quais em todos os países africanos por onde passou (Moçambique, Zâmbia, República Centro Africana e outros, primeiro ao serviço do Peace Corps e depois como diplomata de carreira) teria notado uma tendência para o tratarem mais como um africano do que como um norte-americano. 

Por essa razão, ter-se-á dado conta de subtis tentativas para o tentarem influenciar tirando partido de uma pseudo identidade comum.

Confirmado como embaixador, Tulinabo Salama Mushingi encontrou uma Angola com níveis de pobreza chocantes e em que a comunicação social pública não faz a intermediação entre a sociedade e os poderes públicos. Uma Angola em que a comunicação social pública é uma mera correia de transmissão do Executivo.

À saída da última audiência que o Presidente João Lourenço lhe concedeu, Nina Maria Fite, a embaixadoraque antecedeu Mushingi, disse ter recordado ao líder angolano o seu compromisso com a liberdade de imprensa, um dos mais importantes pilares da democracia.

Tulinabo Salama Mushingi apresentou as suas cartas credenciais ao Presidente João Lourenço em Março do corrente ano.

No dia 26 de Julho, o novo embaixador dos Estados Unidos jurou ter constatado, no curto período de seis meses que está em Angola, imensas “reformas políticas, democráticas e sociais” no país. “Sou novo, mas posso dizer que só não vê quem não quer ver, porque há uma diferença, que se pode sentir”.

A embaixadora Nina Fite trabalhou em Angola durante três anos e no encontro de despedida ao Presidente João Lourenço exprimiu inquietações com o estado da liberdade de imprensa em Angola.  

Dir-se-ia que em pouco menos de seis meses o embaixador Mushingi viu em Angola “reformas políticas, democráticas e sociais” que escaparam completamente à sua antecessora.

Pouco depois, a embaixada americana em Luanda emitiu uma nota que sugeria alguma imprudência nas declarações de Mushingi.

Um funcionário da embaixada que falou a jornalistas na condição de não ser identificado disse mesmo que o embaixador Mushingi teria falado para lá da conta.

Em Washington soube-se que o próprio Departamento de Estado teria instruído o embaixador a clarificar as suas declarações.

Segundo o Departamento de Estado, as declarações de Mushingi, a pouco menos das próximas eleições, traduzem alinhamento com o Presidente João Lourenço, que concorre para a sua reeleição.

Depois das declarações que, no essencial, ignoram graves atropelos aos direitos humanos e à liberdade de imprensa em Angola, é muito improvável que Tulinabo Salama Mushingi continue a sustentar o perfil de “indivíduo especialmente sensível a perversões como opressão política, a má governação e a pobreza extrema”.

Aliás, depois dessas declarações, o embaixador americano originário do Congo Democrático torna-se mais vulnerável a suspeitas de não haver resistido a “tentativas para o tentarem influenciar tirando partido de uma pseudo identidade comum”.

Dir-se-ia que inebriado pela audiência que lhe foi concedida pelo Presidente João Lourenço, o embaixador Tulinabo Salama Mushingi pode ter deixado cair uma nódoa muito séria no seu curriculum. Daquelas nódoas que resistem à lixívia e a todos os tipos de tira nódoas.