Um “flop” chamado Furtado

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Há sensíveis três semanas, o general Francisco Pereira Furtado, Ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, definiu-se como um militar que só regressa à base depois de cumprida a missão.

Eu como militar quando vou para uma batalha, vou sempre decidido até atingir o objectivo. O mais importante para nós é sairmos daqui com a missão cumprida”.

A missão a que aludia seria trazer ao país os restos mortais de José Eduardo dos Santos, falecido em Barcelona, no dia 8 de Julho.

Espero sair daqui com os restos mortais do nosso antigo presidente”, disse o general em declarações que prestou à TV Zimbo e transmitidas no telejornal do dia 17 de Julho.

Ouvindo-o, alguns angolanos até acreditaram que as “fronteiras territoriais” do chefe da Casa de Segurança do Presidente da República de Angola se estendiam até ao Reino de Espanha.

Por esses dias têm corrido nas redes sociais notícias dando conta do regresso ao país do general Francisco Pereira Furtado. 

Nenhuma fonte oficial confirma ou desmente essas informações. 

Como, entretanto, esses relatos, não desmentidos, não são complementados por quaisquer informações sobre a chegada dos restos mortais de JES a Angola presume-se que o chefe da Casa de Segurança fracassou redondamente nos propósitos, arrogantemente anunciados, de só regressar ao país com o cadáver do antigo presidente.

A ida e a estada do general Furtado à e em Espanha foram ruidosamente noticiados pela comunicação social do Estado.

Por isso, os angolanos merecem ser também oficialmente informados do regresso do general Furtado.

Além do anúncio do seu regresso, o general Furtado também deve aos angolanos uma detalhada explicação das razões do fracasso da sua expedição espanhola.

Mas, não é apenas o general Furtado que deve explicações aos angolanos. A própria Presidência da República tem o dever de explicar ao país os custos da prolongada expedição em Espanha.

O regresso, com as mãos a abanar, do chefe da Casa de Segurança do PR não pôs fim aos gastos de dinheiro público em Barcelona. Por lá permanecem, às expensas do erário, o Procurador Geral da República, Hélder Pitra Gróz, a viúva de José Eduardo dos Santos e seus familiares e mais umas tantas “antenas” do general Furtado. 

O local e data do funeral de José Eduardo dos Santos são disputados judicialmente pela viúva e pelos oito filhos órfãos.

Contratados pelo Governo angolano, advogados espanhóis dão suporte jurídico à Ana Paula dos Santos e seus filhos.

O juiz que árbitra a disputa está de férias. 

Embora tome abertamente partido por Ana Paula e seus filhos, o Estado angolano não é parte directa na disputa judicial. A permanência do PGR em Espanha é, por isso mesmo, um desperdício de recursos financeiros que mereceria ser justificado aos angolanos. 

A partir de Espanha, de onde acaba de bater em retirada com as mãos vazias, o general Furtado insinuou dispor de informações que contrariariam as causas da morte de JES anunciadas pelo corpo médico que assistiu o antigo presidente angolano. 

Numa altercação com Tchizé dos Santos, numa rede social, o chefe da Casa de Segurança do Presidente da República aconselhou a filha do falecido presidente “a cuidar dos teus assuntos porque depois das eleições teremos muitas coisas para esclarecer sobre a morte do teu pai”.

Agora, aos angolanos o general não deve apenas explicar as causas do fracasso da sua missão. Deve-lhes, também, esclarecimentos sobre as causas da morte de José Eduardo dos Santos.

O próprio Presidente da República, tão empenhado em dar um enterro digno a José Eduardo dos Santos, deve ter interesse em tomar conhecimento das “verdadeiras” causas da morte do seu antecessor.

O general Francisco Pereira Furtado interage em várias redes sociais. Numa deles interage com jornalistas e noutro com um promotor cultural conhecido pela indiscrição.

O general Furtado não parece ter noção exacta da elevada responsabilidade política que o seu cargo na Presidência da República encerra. Parece confundir a chefia da Casa de Segurança do Presidente da República com o comando de uma pequena unidade militar. Confundiu o que deveria ser uma operação político-diplomática com uma operação militar. 

No dia em que, deslumbrado, falou à Zimbo, o general Furtado pareceu ignorar completamente o antigo ditado segundo o qual “no dia que um mosquito pousar nos seus testículos, perceberás que nem tudo pode ser resolvido com violência ou trungungo.

Ao afirmar, em Espanha, que não regressaria ao país sem os restos mortais de José Eduardo dos Santos, o general Furtado deixou claro que é um homem apenas talhado para tiros e pouco mais.

Se tivesse noção das suas elevadas responsabilidades políticas, Furtado não teria colocado a fasquia numa altura tão inacessível, desde logo porque a trasladação do corpo de JES não é decidida pela Casa de Segurança e nem depende dos dólares de Angola. É uma decisão que cabe à justiça de um Estado estrangeiro. Uma justiça que não se verga nem aos galões do general e nem é permeável e certas e conhecidas ofertas… 

Depois do constrangedor fracasso que foi a sua dispendiosa expedição espanhola, o general Furtado vai, seguramente, entregar-se, com toda a raiva possível, àquilo que se tornou no seu desporto favorito: antever (nova) guerra no país.

Ainda em Barcelona foi-lhe atribuída uma afirmação boçal segundo a qual vai  “partir o focinho” aos angolanos que ousarem apontar um único dedo, ainda que o mindinho, ao processo eleitoral angolano.

Mas, antes de partir focinhos alheios, os angolanos exigem do chefe da Casa de Segurança do Presidente da República explicações muito detalhadas sobre o que lhe correu mal em Barcelona.

Em Espanha, o chefe da Casa de Segurança do Presidente da República aprendeu, da maneira mais embaraçosa possível, que a trasladação dos restos mortais de José Eduardo dos Santos pode não depender dos “caprichos de duas ou quatro pessoas que julgam que retendo o corpo vão resolver o problema”, como referiu, mas também não é assunto que ele pudesse resolver unilateralmente.

O fracasso da expedição mostra que o general sobrestimou as suas possibilidades no “teatro operacional”. Deu-se mal.

Em linguagem desportiva, dir-se-ia que o general Francisco Pereira Furtado é um verdadeiro flop. Bateu na rocha na primeira grande missão que o Presidente da República lhe confiou. 

A impreparação do general Furtado para a expedição espanhola envolveu o país em avultadas despesas. Pelo menos duas aeronaves angolanas foram a Barcelona com o suposto propósito de trazer o corpo de JES. Como era de prever, depois de gastos com combustível, pagamento de taxas aeroportuárias e ajudas de custos às tripulações, as duas aeronaves regressaram vazias.  

Embalado pelas “garantias” que recebia do general Furtado, em Angola o Governo acelerou os preparativos para o funeral de JES. A construção de um mausoléu foi feita em regime non stop. Concluída, a estrutura está aí à espera de ser inaugurada, porque confirmaram-se como falsas as informações insistentemente enviadas de Barcelona segundo as quais a chegada dos restos mortais de JES estava presa por pequenos detalhes. 

A expedição espanhola foi um fracasso em toda a linha. Até mesmo no modo como o general Furtado atirou a toalha ao tapete e regressou, quase clandestinamente, ao país.

Um militar avisado, que Furtado mostrou não ser, não manda avançar a tropa sem antes fazer um reconhecimento. Em Barcelona, a tropa avançou às escuras. E quando foi confrontada com uma inultrapassável barreira, o chefe da expedição saiu de fininho. 

Em Barcelona, Angola teve em Francisco Furtado uma reprodução perfeita do general Foge a Tempo, aquele general do faz-de-conta que o genial Costa Vilola interpreta nos Tuneza.

Receia-se, como já se anteviu, que agora o chefe da Casa de Segurança do Presidente da República descarregue toda a frustração sobre aqueles que disputam o poder ao MPLA.

Em delírios recentes, ele disse que eleições significa paz, significa liberdade, significa estabilidade, significa consolidação da democracia. Se alguma organização ou se alguns irresponsáveis julgam que transformarão eleições em conflitos, devemos deixar aqui uma mensagem bem clara a estas figuras: 1992 não se repetirá em Angola. Instabilidade e guerra não voltará a acontecer em Angola. Se alguém tem duas agendas, uma política e outra subversiva, a agenda subversiva deve ser tratada no âmbito do combate ao banditismo, à sublevação armada e ao terrorismo”.

Com o orgulho profundamente ferido e tomado pela opinião pública como um tagarela, o general Furtado pode rapidamente transformar os delírios em acções de guerra contra os angolanos.