Marimbondismo: Candidato do MPLA separa as águas

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O conceito de marimbondo, que o Presidente João Lourenço introduziu no léxico político angolano, é abrangente. Nele cabem – e bem! – corruptos, corruptores, salteadores, mau gestores, gatunos, salafrários, caloteiros, criminosos de colarinho branco, enfim, todos os malfeitores que, de uma maneira ou de outra, concorreram para a miséria em que a maioria dos angolanos hoje vegeta. 

Em Ndalatando e na sucessão de surpresas que tem marcado os seus discursos na campanha, o candidato do MPLA à Presidente da República falou em corruptos que fugiram do país, em oposição aos corruptos que permanecem no país. 

Com isso, o candidato criou uma subtil divisão de águas. De um lado, temos corruptos bons, aqueles que permanecem no país, e do outro, os corruptos maus, aqueles que fugiram  do país.

Segundo o candidato, a UNITA aliou-se aos corruptos maus, os prófugos. Por exclusão de partes, tem-se que o MPLA tomou como seus aliados os corruptos bons, aqueles que permanecem no país.

Mas, a nova divisão dos corruptos coloca ao cidadão a dúvida sobre em qual das margens do rio situar alguns “artistas”. 

Por exemplo, onde situar Manuel Vicente? É que embora seja sabido que já tirou o pé do país faz tempo, MV não é citado em nenhum processo judicial em Angola. Nesse caso, onde situar o antigo patrão da Sonangol? É um aliado “natural” da UNITA apenas porque vive no estrangeiro?

Outro “caso de estudo” é o que envolve o antigo patrão do BESA. Álvaro Sobrinho responde, em Portugal, a um cabeludo processo judicial por suspeitas de uma montanha de crimes cometidos em Angola. 

Não obstante haver esvaziado os cofres do BESA, em Angola não corre nenhum processo judicial contra Álvaro Sobrinho. A enorme fortuna de que AS é suspeito de haver subtraído ao BESA está traduzida em casas, iates, acções no Sporting Clube de Portugal e em outro património de luxo espalhado por Portugal e outros países.

Álvaro Sobrinho preenche os requisitos do que o PR JL designaria como corrupto. A dúvida é: corrupto bom ou mau? Proibido de sair de Portugal, país de que também é cidadão, Álvaro Sobrinho está entre os bons ou os maus corruptos?

Ainda está nas redes sociais uma icónica foto em que Álvaro Sobrinho aparece a “guarnecer” as costas do Presidente João Lourenço. A proximidade, que também pode ser cumplicidade, com o PR dele um irrepreensível menino de coro?

E o quê dizer de Silvestre Tulumba Kaposse, dito sobrinho-neto do falecido Kundi Paihama?  

Certo dia, Tulumba foi para a cama pobre, como sucede com a generalidade dos angolanos. Mas – e num caso também merecedor de estudo – antes do alvorecer do dia seguinte, Tulumba já tinha as contas bancárias abundantemente abastecidas. Não se tratou de nenhum milagre.

No auge do agora execrado eduardismo, o Governo concedeu a Tulumba investimentos bilionários. Hoje, não há no país nenhum grande empreendimento que Tulumba tenha construído com o dinheiro que lhe foi parar ao bolso em quantidades muito generosas.

Em 2017, em campanha para a sua eleição a Presidente da República, João Lourenço percorreu todo o país a bordo de uma aeronave de Silvestre Tulumba.

Silvestre Tulumba tem uma dívida de mais de 517 milhões de dólares ao banco do “sistema”, o Banco de Poupança e Crédito.

João Lourenço com as costas devidamente “protegidas” por Álvaro Sobrinho

Tulumba é um dos responsáveis pela falência do maior banco público. Mas, como, entretanto, não tirou o pé do país (provavelmente porque já nem dinheiro tem para se sustentar no estrangeiro), marimbondo comprovado, Tulumba anda por aí, tranquilamente à sombra do “sistema”, de que se tornou aliado seguro.

Um dos maiores marimbondos do país, Joaquim Sebastião, antigo director geral do Instituto Nacional de Estradas de Angola, declarou e cedeu uma ínfima parte do imenso património imóvel e móvel que possuía em Angola, Brasil e Portugal. Em em contrapartida, ganhou a liberdade e a condição de corrupto bom. Pelo menos ( já) não tem a justiça à perna.

Em Fevereiro de 2019, a Procuradoria Geral da República colocou o general Higino Carneiro sob Termo de Identidade e Residência (TIR) após ouvi-lo na condição de arguido num processo de que era suspeito de gestão danosa de bens públicos. 

Em Setembro do ano passado, o Procurador Geral da República, Hélder Pitta Grós, garantiu que a acção contra Higino Carneiro já tinha sido acolhida pelo Tribunal Supremo. 

Membro do Bureau Político do MPLA, Higino Carneiro ia acusado, de entre outros crimes, de peculato, nepotismo, tráfico de influências, associação criminosa e branqueamento de capitais.

Em Maio deste ano e sem qualquer fundamento, o Tribunal Supremo anunciou o arquivamento do processo contra Higino Carneiro.

E, com isso, o general regressou ao “clube dos bons”.

Em suma, a nova “divisão” feita pelo candidato do MPLA à eleição presidencial precisa de ser clarificada.

Os angolanos precisam de saber o que coloca os marimbondos numa ou noutra margem do rio…

Depois de, na pré-campanha, o primeiro secretário provincial do MPLA de Luanda haver criado barreira entre médicos do bem e médicos do mal, agora o candidato a Presidente divide os marimbondos entre bons, aqueles que se aliaram ao MPLA, e maus, aqueles que ele suspeita de se aliarem à UNITA.

Afinal, foi a dividir os angolanos que o MPLA se cristalizou no poder.