Os (elevadíssimos) custos do morto

4818

Mesmo morto, José Eduardo dos Santos continua a ir ao bolso dos angolanos

Com a próxima entrega dos restos mortais de JES à Ana Paula e sua subsequente trasladação para Angola chegará ao fim uma  parte da enorme sangria de dinheiro angolano.

Num país em que não se prestam contas, num país em que a opacidade ainda é (não obstante discursos em contrário) a “alma do negócio”, nenhuma instituição pública se dignará explicar quanto dinheiro público a doença, a morte de José Eduardo dos Santos e a disputa judicial que se lhe seguiu já consumiu.  

José Eduardo dos Santos constituiu-se num caso muito sério de drenagem de dinheiro público desde Abril de 2019, altura em que se transferiu para a Espanha para dar seguimento a tratamento médico. O antigo Presidente da República tinha cancro maligno na próstata. 

Embora os primeiros sintomas do cancro tivessem sido diagnosticados em 2006, no Brasil, José Eduardo dos Santos não construiu no país nenhuma unidade hospitalar de referência para atender uma doença que atinge um número cada vez maior de cidadãos. Preferiu, sempre, o tratamento no exterior do país.

Em Espanha, José Eduardo dos Santos escolheu para moradia, a expensas do erário angolano, uma mansão de luxo, avaliada em “módicos” 6 milhões de bairro. No selecto Bairro Pedrables, em Barcelona, o nosso antigo dignitário tinha como vizinhos familiares de endinheirados xeques árabes, oligarcas russos e mafiosos chineses. 

À mensalidade da milionária mansão, o erário juntou os custos do tratamento médico, ajudas de custo diárias para o séquito (médico, guardas, cozinheiro e outros) que acompanhou o antigo governante bem como despesas com alimentação, transporte, seguro, alimentação e outras. Além disso, corriam, também, à custa do nosso cofre, as despesas com um corpo especial de guarda espanhóis encarregues, entre outras empreitadas, de manter jornalistas distantes da mansão habitada por José Eduardo dos Santos.

A morte de JES, no dia 8 de Julho, não significou o fim ou a diminuição do enorme derrame de dinheiro público. Pelo contrário. Ao desaparecimento físico do eterno “Major” sucedeu-se uma disputadíssima batalha judicial, que, também ela, continua a devorar milhões de dólares dos cofres públicos.

Logo após ao anúncio da morte, o Presidente João Lourenço “mandatou” para a Espanha, com o objectivo de  negociar com as filhas de JES a trasladação dos restos mortais do antigo Presidente, uma nutrida comitiva integrada, entre outros, pelo ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança, Francisco Pereira Furtado, Procurador Geral da República, Hélder Pitta Grós, e pelo secretário do PR para os Assuntos Diplomáticos e de Cooperação, Victor Lima. Na comitiva foram também encaixadas muitas “miudezas”, cuja serventia se esgota no transporte das malas dos chefes. Igualmente por conta do erário, jornalistas de todos os órgãos de comunicação públicos e arrestados tiveram oportunidade não apenas de conhecer Barcelona, mas também de ganhar peso, por causa da ociosidade. Grande parte da delegação permanece por lá, a somar ajudas de custo diárias.  

Falhadas as primeiras negociações com as filhas de JES, o Executivo recorreu a outros emissários. Brito Sozinho, um antigo amigo de José Eduardo dos Santos, foi enviado à Espanha para tentar demover Tchizé e Isabel. Mas, o antigo correligionário do Viajante saiu de Barcelona com as “orelhas quentes” e transmitiu às autoridades a desoladora mensagem de que “as miúdas não querem ouvir ninguém”. 

Nessa altura do campeonato, o erário também já estava a suportar a permanência, em Barcelona, de Ana Paula dos Santos e sua camarilha (que integrava, entre outros familiares a cunhada Marta dos Santos). A antiga primeira dama juntou-se a José Eduardo dos Santos a escassos dois meses do seu sopro final.

A disputa judicial para a tutela dos restos mortais de JES, opondo Ana Paula dos Santos e aos primeiros filhos do falecido transformou-se numa batalha de titãs, em que jorra bastante dinheiro angolano para gaudio de advogados espanhóis. 

Tchizé dos Santos, que se opõe terminantemente a que o pai seja enterrado pelo Presidente João Lourenço, tem a defende-la a advogada Cármen Varela. Com a causídica espanhola, Tchizé dos Santos perdeu a primeira batalha. Um tribunal deu como não provado o envenenamento do pai, que ela atribuía à madrasta. 

Para uma batalha que já ganhou feições de pessoais, o Presidente João Lourenço ordenou que Ana Paula dos Santos fosse assessorada com o que há de melhor em Espanha.

No dia 16 de Julho, o ministro da Administração do Território, Marcy Lopes, anunciou, com orgulho, que o Governo contratou (renomados) advogados espanhóis para defender o Estado no que “tange” à trasladação dos restos mortais.

O Estado angolano não pode advogar em Espanha e foi contratado um advogado espanhol para o representar neste processo, disse, destapando o envolvimento do Estado numa disputa que era suposto ser apenas de âmbito familiar.

Quer a advogada contratada por Tchizé quer os causídicos que servem os interesses de Ana Paula dos Santos/Estado são regiamente remunerados com dinheiro saído de Angola. 

Em “modo kunanga” na Europa desde 2019, Tchizé dos Santos deve os seus actuais proventos à empreendimentos que ainda tem no país.

Com a disputa judicial próxima do desfecho, os representantes do Governo em Espanha vão, agora, ater-se a despesas para a compra da urna e outras inerentes à trasladação dos restos do ilustre.

É nessa mansão de luxo onde José Eduardo dos Santos viveu os últimos anos da sua passagem terrena

Desde que foi anunciada, a morte de José Eduardo dos Santos tem sido um somatório de gastos em Angola. Não estão contabilizados os custos da luxuosa cerimónia de homenagem que o Governo organizou na Praça da República.

Mas, não há dúvida que não foram nada módicos uma vez que até flores foram importadas para a cerimónia. 

Numa outra frente de gastos, homens trabalharam em regime non stop para preparar o mausoléu onde será depositado, para repouso eterno, o antigo Presidente.

Para as cerimónias fúnebres de José Eduardo dos Santos deverão aportar a capital angolana muitos dignitários estrangeiros. O Chefe de Estado luso, Marcelo Rebelo de Sousa, foi dos primeiros a “oferecer-se” para vir a Luanda despedir-se do seu antigo homólogo. Outros Chefes de Estado africanos, de quem JES era próximo, também deverão vir a Luanda. A deslocação de tão ilustres entidades ao país implicará um esforço logístico de elevados custos financeiros.

No mesmo dia em que foi anunciada a morte de JES, o Presidente João Lourenço constituiu uma numerosa comissão de exéquias. Coordenada por Carolina Cerqueira, ministra de Estado para a Esfera Social, a Comissão integra, também, os ministros de Estado e Chefe da Casa de Segurança, Francisco Pereira Furtado, da Casa Civil, Adão de Almeida, e os ministros da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria, da Administração do Território, das Relações Exteriores, da Justiça e dos Direitos Humanos, das Finanças, da Saúde, das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social e a governadora de Luanda. 

Para não ferir a opacidade, que, como já foi referido, continua a ser a “alma do negócio”, o Decreto do Presidente João Lourenço não determina o orçamento para o funcionamento da Comissão. 

Em suma, a doença, a morte de José Eduardo dos Santos e a disputa judicial que se lhe seguiu já consumiram milhões de dólares. 

Se fossem ouvidos, os angolanos prefeririam, sem dúvida, empregar esses milhões em projectos que resultassem em bem comum.

Lamentavelmente e para não variar, a morte de José Eduardo dos Santos é, também, uma oportunidade para atulhar os bolsos de uns tantos chico-espertos.

Sendo caso para dizer que mesmo morto, José Eduardo dos Santos continua a ir ao bolso dos angolanos.