JES vai a enterrar domingo

3522

Quase mês e meio após a sua morte por doença em Barcelona (Espanha), o ex-presidente de Angola, José Eduardo dos Santos (JES), vai finalmente a enterrar, no Memorial Agostinho Neto, este domingo, 28, dia em que completaria 80 anos de idade. 

A informação, que já havia sido dada por alguns medias e rolava solta nas redes sociais, foi confirmada à comunicação social na tarde desta sexta-feira, 26, pelo porta-voz da comissão das exéquias, o ministro da Administração do Território, Marcy Lopes.

De acordo com o programa oficial elaborado pelo governo angolano, a urna sairá da residência familiar de JES, no Miramar, dirigindo-se ao Memorial Agostinho Neto, onde foi construído um jazigo para o efeito. O féretro passa pelas ruas Houari Boumediene, Marechal Broz Tito, Cônego Manuel das Neves, Eixo Viário, 4 de Fevereiro (Marginal), Largo do Ambiente e Nova Marginal, sendo que nesta passará por entre duas filas de militares da Guarda de Honra presidencial. Após chegar no local, a urna será depositada numa tenda para as devidas homenagens, estas abertas ao público.

No domingo, 28, acontece o ponto alto das cerimónias, na presença do presidente João Lourenço e representantes ao mais alto nível de 21 países, entre os quais Portugal, cujo presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou por ocasião da morte de José Eduardo dos Santos intenção de se fazer presente no funeral. Far-se-ão igualmente presentes dignitários de Tanzânia, Cuba, Sahara Ocidental, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, Zimbabwe, Portugal, Ruanda, Guiné-Equatorial, Gabão, Argélia, Namíbia, Timor Leste, RD Congo, Congo-Brazzaville, África do Sul e Zâmbia.

Um culto ecuménico e honras militares marcam a cerimónia na qual serão lidas várias mensagens (Estado angolano, família, MPLA e FESA), além, naturalmente, do elogio fúnebre.        

Os restos mortais de José Eduardo dos Santos serão depositados num jazigo construído para o efeito no Memorial Agostinho Neto, em Luanda, onde repousam também os restos mortais do primeiro presidente de Angola, falecido a 10 de Setembro de 1979. Após a deposição de urna serão disparadas 21 salvas de canhão.

José Eduardo dos Santos morreu a 8 de Julho último em Barcelona, Espanha, vítima de doença. O seu funeral esteve envolvido em polémica familiar, sendo a custódia do cadáver decidida por um tribunal de Barcelona. A disputa envolveu a viúva, Ana Paula dos Santos, e os seus três filhos, de um lado, e do outro, os restantes descendentes do antigo chefe de Estado. Entre estes destacam-se a primogénita Isabel dos Santos e Tchizé dos Santos. 

As autoridades governamentais angolanas negociaram com os filhos mais velhos de José Eduardo dos Santos o enterro de Estado em Angola, mas estes impuseram condições consideradas “inaceitáveis” para a equipa negocial chefiada pelo ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, Francisco Furtado. 

Na sequência, a viúva e uma das filhas de JES, a ex-deputada pelo MPLA Tchizé dos Santos, demandaram a justiça espanhola para pedir a custódia dos restos mortais. O Tribunal deu ganho de causa a Ana Paula dos Santos e segunda-feira passada, 22, a urna contendo o corpo do antigo presidente chegou a Luanda em voo especial. A filha interpôs recurso, que não teve provimento.

José Eduardo dos Santos morreu a 8 de Julho, aos 79, depois de ser internado na unidade de cuidados intensivos da clínica Teknon, devido a uma paragem respiratória a 23 de Junho. Vivia em Barcelona, desde 16 de Abril de 2019, após ter deixado a Presidência da República em setembro de 2017. Após o seu internamento, foi induzido ao coma e permaneceu ligado a aparelhos. A sua permanência na capital catalã visou a busca de assistência médica mais qualificada.

O estado de saúde de José Eduardo dos Santos começou a deteriorar-se desde maio de 2017, quando foi vítima de um enfarte isquémico, o que obrigou Manuel Vicente, o vice-presidente, a assumir a chefia do Conselho de Ministros. Foi a primeira vez que uma concessão do género ocorreu em 38 anos de poder de José Eduardo dos Santos, então com 74 anos.

Devido a este problema de saúde, foi imediatamente evacuado para Barcelona, onde começou a receber tratamento no Centro Médico Teknon em 2006. Nessa ocasião, permaneceu em Espanha durante 28 dias. Mas esta não foi a primeira recaída de Eduardo dos Santos. Seis meses antes, em Novembro de 2016, desmaiou durante as cerimónias fúnebres do irmão mais velho, Avelino dos Santos. Então, interrompeu o tratamento médico que fazia em Barcelona para se fazer presente no óbito, em Angola.

A 3 de Julho do ano seguinte, retornou a Barcelona e, como sempre, as autoridades governamentais não disseram as causas da viagem. Informaram que viajou “de acordo com sua agenda previamente estabelecida”.

Em Espanha desde Abril de 2019, José Eduardo dos Santos deslocou-se ao Dubai em Dezembro de 2020 para passar o Natal com a filha primogénita, Isabel dos Santos, e consolá-la, devido à morte, dois meses antes, do marido, o congolês Sindika Dokolo, um conhecido colecionador de arte africana. Durante a sua estadia no Dubai, o ex-presidente de Angola contraiu COVID e só em Abril de 2021 regressou a Barcelona.

Para tratar assuntos privados, José Eduardo dos Santos regressou a Angola em Setembro de 2021, onde o seu sucessor, João Lourenço, lhe fez duas visitas. Mas em Fevereiro de 2022 teve um problema de saúde que o levou à clínica do Luanda Medical Center, onde foi tratado e permaneceu. A 7 de Março de 2002, três dias após a segunda visita do actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos partiu de Luanda para Barcelona. Quando entrou no avião, não o fez com o próprio pé. Entrou numa cadeira de rodas.