JL, O DER RO-TA-DO

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O mestre da fala em sentido figurado não percebeu o que a juventude queria dizer com aquele célebre em “Agosto vais gostar”

João Lourenço preparou as eleições de 2022 obcecado por dois objectivos.

Um, assumido abertamente, consistia em reduzir a UNITA a pó.

Em Abril, num comício no Cunene, João Lourenço confessou o que lhe ia no fundo da alma. “A derrota deles (deles aqui entendido como UNITA) não pode ser pequenina. Tem que ser uma derrota grande que vão levar anos a se levantar”.

Depois, na Lunda Norte, e numa linguagem figurada (que reclamou como uma das suas “habilidades”) muito mal conseguida, João Lourenço disse que no dia 24 de Agosto teria à mesa do almoço uma cabidela, com o que demonstrou que o seu ódio ao principal adversário é ilimitado.

O outro, percebido nos seus actos e gestos, embora não assumido abertamente, seria o de pulverizar todos os resultados obtidos pelo MPLA sob a batuta de José Eduardo dos Santos.

Com todos os seus “arredondamentos”, que denunciam a sua origem laboratorial – na madrugada do dia 25, a CNE atribuiu ao MPLA uma larga vantagem (60,65 %  contra 33,85 % da UNITA; antes das 11 da manhã  a vantagem do MPLA tinha baixado para 52,08 %  vs 42,98%, depois subiu para 57,8% vs 37,3% e fechou o dia com 51,7% vs 44,5 %) – os resultados que a Comissão Nacional Eleitoral publicou no final do dia mostraram que João Lourenço foi copiosamente derrotado nas duas frentes.

Não reduziu a UNITA a pó; pelo contrário, a UNITA agigantou-se. Sob a batuta de João Lourenço, o MPLA obteve o pior resultado eleitoral de sempre. Para que conste: sob a liderança de JES, o MPLA teve a seguinte sequência de vitórias: 54% (129 deputados) em 1992; 81,6% (191) em 2008; 71,84% (175) em 2012 e 61,05% (150) em 2017.

Com João Lourenço, o MPLA ficou-se por caquéticos 124 deputados, o que o afasta, pela primeira vez, da maioria qualificada.

Nas paragens em que coerência e decência andam de mãos dadas, João Lourenço não precisaria de qualquer impulso externo para colocar o lugar de líder à disposição do partido.

As mentes menos favorecidas e menos alfabetizadas politicamente cantam vitória.

Aritmeticamente, o MPLA obteve, sim, vitória.

Mas, é uma vitória agridoce, ou, como é chamada comumente, uma vitória de Pirro, aquela que deixa vencedor e vencido a cambalear.

Além de todas outras considerações que a seu tempo serão feitas, o que deve ficar imediatamente claro é que o resultado (dito provisório) mata, incinera e enterra a tentação, consistentemente atribuída a João Lourenço, de promover uma revisão da Constituição que acomodasse o seu desígnio de esticar o mandato presidencial. Apesar da maioria absoluta, o sonho parou aqui.

A fragorosa derrota pode empurrar João Lourenço para um de dois caminhos:

a)  O caminho da arrogância e da vingança, que o levaria a fazer uma limpeza geral, extensiva a todos os suspeitos de não lhe haverem facilitado a vida ou

b)  o caminho do bom senso, que o obrigaria a ouvir, a dialogar e a considerar a opinião de outras pessoas, que não apenas os seus bajuladores profissionais.

O carácter de João Lourenço, infelizmente, sugere que escolherá o pior dos caminhos. 

Mas, vai ser necessário esperar pelo seu discurso de vitória e pela primeira reunião de balanço da direcção do MPLA para se perceber com exactidão como ele se conduzirá nos próximos tempos.

Uma intensa desaprovação da sua estratégia eleitoral ou a sua responsabilização pessoal pela apertada vitória podem levar João Lourenço à radicalização.

O pior que pode acontecer ao MPLA é que o seu líder atribua, essencialmente, a derrapagem à uma pretensa intervenção de ditos marimbondos a favor da oposição ou a um contexto económico que lhe teria encolhido os programas que tinha gizado.

A ajuda de marimbondos, no fundo companheiros de João Lourenço, à oposição está por provar. 

A gritaria de Tchizé dos Santos não pode significar que toda a marimbondagem alinhou com Adalberto, Chivukuvuku, Justino Pinto de Andrade & Cª. 

A pandemia da Covid-19 e o contexto económico menos favorável também não justificam tudo. De resto, a alta do preço de petróleo provocada pela agressão russa à Ucrânia (que o Governo não condenou) injectou nos cofres angolanos muitos milhões de dólares.

A introspecção a que João Lourenço e o MPLA se obrigam a fazer tem de constatar que hoje a captura e instrumentalização do Estado já não são suficientes para ganhar disputas eleitorais.

O MPLA e o seu líder, sobretudo, saem dessas eleições com a amarga lição de que o insulto e a linguagem deselegante, corriqueiramente usados por João Lourenço ao longo da campanha, não atraem votos.

João Lourenço ficou a saber que os cidadãos a quem se referiu, repetidas vezes, como arruaceiros e, mais recentemente, como bandidos e “lumpenos” têm ouvidos.

João Lourenço aprendeu que designar camaradas de partido como marimbondos é insultuoso. 

João Lourenço aprendeu que instrumentalizar Ernesto Bartolomeu, Cabingano Manuel, Amílcar Xavier e outras figuras conhecidas da comunicação social pública não fidelizou os cidadãos à TPA, Zimbo ou Rádio Nacional de Angola. Pelo contrário, tornou esses jornalistas em pessoas execráveis.

Copiosa e embaraçosa, a derrota do MPLA em Luanda não é, contudo, intrigante e muito menos inesperada.

Um partido que calca aos pés a moralidade – de que o sistemático recurso a mulheres seminuas ou de derrières descomunais foi mais do que prova – mostra que fita, apenas, os fins, não se importando com os meios que o levam a tais. 

Um partido que escancara a sala principal da Assembleia Nacional a charlatães travestidos em religiosos mostra que é da turma do vale tudo.

Em suma: a magra vitória do MPLA não pode ser assacada, exclusivamente, nem a pretensos apoios de marimbondos à oposição e nem à fadiga de amplos sectores da população. O MPLA tem de ser capaz de olhar um pouco mais para cima.

Tal como as vitórias, as derrotas também se constroem. E João Lourenço começou a construir a sua a partir do momento em que se deixou tomar pela obsessão de afastar Adalberto da Costa Júnior da liderança da UNITA. 

Além de dolorosos KO que apanhou (até mesmo no “seu” Tribunal Constitucional), a luta contra o presidente da UNITA destapou o lado menos “urbanizado” de João Lourenço: um homem rancoroso e que, em desespero, não hesita em recorrer à indecência, como no Cunene quando, à pergunta sobre “qual é o contrário de esperto”, queria que até as crianças presentes o acompanhassem na obscena resposta.

Satisfeito com a resposta que ouviu, ainda riu-se: “Não fui eu que disse”.

É irónico, mas o presidente da UNITA deve hoje o seu gigantismo político ao próprio João Lourenço.

Apesar de toda a sua empáfia e de haver usado a máquina do Estado como nunca antes foi feito por ninguém, João Lourenço aprendeu, dolorosamente, que, afinal, ainda teria muito que aprender com o seu antecessor. 

No mais recente comício que fez no Uíge, João Lourenço exprimiu a certeza de que o MPLA sairia vitorioso das eleições porque o povo “angolano não é ingrato e não se deixa enganar”.

Os luandenses, sobretudo os jovens, provaram a João Lourenço que, de facto, não são ingratos. Retribuíram-lhe (em boas doses) os insultos e as ofensas.

Naquele mesmo comício, o candidato do MPLA disse: “Eu gosto às vezes também de falar em sentido figurado. É uma das minhas habilidades falar em sentido figurado”.

Mas, aparentemente o mestre da fala em sentido figurado não percebeu o que a juventude queria dizer com aquele célebre em “Agosto vais gostar”.  

Diz a sabedoria popular que homens sensatos podem transformar derrotas de hoje em vitórias de amanhã. 

Isso é válido para todos.