EUA/ANGOLA: ENTRE OS VALORES E OS INTERESSES

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Fala-se da posição dos EUA em relação Angola. 

Sobretudo, procura-se entender uma alegada mudança de atitude da administração Biden em relação ao executivo de João Lourenço e ao MPLA, partido governante há quase meio século.

Não é bem assim. 

Porventura, muitos já não se lembrarão de uma das cimeiras da OUA  e do discurso que Agostinho Neto proferiu neste fórum das nações africanas.

Agostinho Neto (em resumo) disse naquele fórum: “A África parece um pedaço de terra onde cada abutre vem debicar o seu pedaço.” 

Desde logo, nessa afirmação, aparentemente, o primeiro Presidente angolano excluía Angola entre as terras africanas disponíveis aos abutres e outras aves de rapina.

Um princípio antigo das relações internacionais é a reciprocidade de vantagens.

Se uma parte cede alguma vantagem, a outra (em troca) entrega alguma coisa e vice-versa.

É algo parecido com o princípio da simultaneidade (relações sinalagmaticas) nas relações comerciais. 

Alguns observadores da política nacional notaram aquilo que se pode designar de deriva tradição americana de defesa de valores como a liberdade de expressão e de imprensa, abertamente sonegadas pelos órgãos de comunicação social públicos.

O novo embaixador dos EUA disse que “são inegáveis os avanços” na era de João Lourenço e depois tentou emendar a mão. 

Parece que não era preciso. Porque, depois, logo após às eleições, Washington saudou os eleitores angolanos pelas eleições de 24 de Agosto de 2022. 

E, como se viu, a esse “gesto de boa vontade” de Washington, Angola correspondeu com uma significativa mudança da sua posição em relação à agressão russa à Ucrânia.

Quando o assunto foi discutido nas Nações Unidas, o Governo de Angola ficou em cima do muro. Agora, alinhou abertamente com aqueles que exigem o fim da insana agressão.

Quer dizer que, pelas lentes da diplomacia norte-americana, o processo eleitoral (no seu conjunto) mereceu boa nota e, por isso, a sua aprovação. 

Na prática, significa que, doravante, o regime dispõe de uma almofada para criar à sua volta a blindagem de que necessita para múltiplos efeitos estratégicos e de sobrevivência.

Nessa ordem de razão, os EUA remetem a questão da alternância de poder em Angola para segundo plano. 

O uso de todos meios (incluindo os ilícitos) para impedir a alternância do poder, não é segredo, destina-se a garantir que os segredos do longevo regime do MPLA não caiam em mãos alheias. 

E neste caso, os EUA são cúmplices.