Carrinho muito “confortável”

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No mesmo comunicado
em que anunciou a revogação da licença do Banco Prestígio, o Banco Nacional de Angola, autoridade macroprudencial, aludiu a medidas de intervenção correctiva ao Banco de Comércio e Indústria, S.A. “por insuficiência de fundos próprios regulamentares e rácio de fundos próprios abaixo do mínimo regulamentar, de que resulta a obrigação de apresentar” à entidade supervisora, no prazo de 30 dias, de “um plano de recapitalização e reestruturação”.
Em comunicado publicado no mesmo dia, 30 de Setembro, o BCI reagiu que o “Accionista, por intermédio dos órgãos sociais do Banco, leva ao conhecimento do público, que se sente confortável em, no prazo de 30 dias, conforme o exigido, apresentar o Plano de Restruturação do Banco de Comércio e Indústria, S.A.”.
O Banco de Comércio e Indústria é actualmente detido pelo Grupo Carrinho, que o adquiriu, em Dezembro de 2021, pela bagatela de 16,5 mil milhões de kwanzas, qualquer coisa que, à época, equivalia a pouco mais de 29,3 milhões de dólares.
À data em que foi vendido, o BCI tinha uma rede de distribuição de 82 balcões, um dos quais no sumptuoso edifício-sede, na disputadíssima Rua Rainha Ginga, à baixa luandense, e 31 postos de serviço.
O comunicado do BCI, de 30 de Setembro, em que se diz “confortável” em atender as exigências da autoridade macroprudencial é interpretado, em meios afins, como uma manifestação de sobranceria. 
Quando comprou o banco, pelo preço que comprou, o Grupo Carrinho já sabia da necessidade de injectar dinheiro fresco para suprir a insuficiência de fundos próprios. De modo que não precisava de esperar pelo comunicado do BNA para dizer que está confortável. Que está confortável está, isso sabemos”, conforme disse ao Correio Angolense fonte bancária.
O Grupo Carrinho integra um quarteto de entidades empresariais muito acarinhado pelo Executivo de João Lourenço.
Desde Setembro de 2017, altura em que João Lourenço chegou ao poder, o Grupo Carrinho tem partilhado com a Gemcorp, Mitrelli e Omatapalo o  “filet mignon” das empreitadas públicas.
Numa entrevista a cinco jornalistas angolanos no início do ano, o Presidente João Lourenço revelou, a respeito do Grupo Carrinho, conhecimentos só compatíveis a um guarda-livros do grupo.

O Grupo Leonor Carrinho, de Benguela, é um grupo que está a despontar, ultimamente, que começou do nada, de pequeno e foi crescendo, se consolidando ao longo dos últimos anos e, hoje, é o grupo que todos nós conhecemos. Fui eu quem inaugurei, em Benguela, a indústria de transformação de produtos alimentares, que creio ser a maior do país, neste momento. Que eu saiba, o Estado não pôs um tostão nesse projecto do grupo Leonor Carrinho. Recorreram a fundos próprios, dos negócios privados que foram tendo ao longo dos anos. Obviamente que não seria suficiente para erguer um gigante como aquele, por isso, recorreram à banca comercial. E, se a banca comercial financiou, significa dizer que têm credibilidade”. 
E acrescentou: “(…) o Executivo angolano negociou, com o Deutsche Bank da Alemanha,  a abertura de uma Linha de Crédito no valor de 1.0 mil milhões de Euros, para financiar, exclusivamente, o sector privado angolano e esta linha está disponível. Anunciei a disponibilidade dessa Linha de Crédito num encontro que tive com a classe empresarial, no Centro de Conferências de Talatona. Disse-lhes para aproveitarem essa Linha de Crédito, porque era para eles, o sector privado. (…)  A única empresa privada angolana que provou estar habilitada a beneficiar desse crédito, num valor abaixo de 200 milhões de Euros, chama-se Leonor Carrinho.

Em permanente desavença com o mercado e suas rígidas leis, o ministro de Estado para a Coordenação Económica tomou a venda do BCI como um teste ao “apetite dos investidores”.
Em declarações à agência Bloomberg, Manuel Júnior disse que a venda do Banco de Comércio e Indústria, na altura o 13º em activos, teria como objectivo aferir do interesse dos grandes investidores internacionais pelo que Angola tem para oferecer no segmento bancário.
O encerramento do Banco Prestígio e de outros quatros prova que o “apetite” dos grandes investidores não está virado para a banca angolana.