Batata (bem) quente no colo 
do (nosso) HOMEM

4273

O dia 7, sexta-feira, o semanário Novo Jornal atribuiu ao Presidente da República “ordem para a imediata resolução” dos problemas de electrificação, água potável e saneamento básico que apoquentam Luanda desde a independência do país, em 1975.

O hebdomadário detido pelo Grupo Nova Vaga associa a repentina preocupação do Presidente da República com os problemas de Luanda à pesada derrota que o MPLA sofreu na província que acolhe a capital do país.

Segundo a publicação, um “relatório chegado à mesa de João Lourenço sobre o balanço das eleições gerais concluiu que o partido [MPLA] perdeu copiosamente em Luanda [para a UNITA] por não ter conseguido resolver problemas como a electrificação, a distribuição de água potável e o saneamento básico”. Em consequência, diz o jornal, “João Lourenço quer alterar o quadro, por isso orientou os seus auxiliares para a resolução imediata destes problemas”, que aparentemente desconhecia.

Segundo a publicação da Nova Vaga, as suas fontes ter-lhe-ão garantido que “JLO exigiu que a electrificação de Luanda chegasse a 100 %, pelo que deverão ser construídos redes de alta tensão (subestações eléctricas e linhas), de média tensão (postos de transformação e linhas de média tensão) e a efectivação de ligações domiciliares, além da construção, reabilitação e tratamento de redes de esgotos”.

O novo governador de Luanda conhecerá, seguramente, os limites territoriais da província. Mas, é improvável, muito improvável, que tenha ideia, aproximada, do seu número de habitantes.

Levar energia eléctrica, água potável e saneamento básico a 100 % de um universo desconhecido é um dificílimo problema que o governador de Luanda colocará à Ciência.

De acordo com o Novo Jornal, “para a realização destas empreitadas – levar a electrificação, água potável e saneamento a 100% da população de Luanda – o “Governo elencou inicialmente um conjunto de empresas nacionais e estrangeiras experimentadas na área, estando na linha da frente o Grupo CASAIS, de Portugal”.

Estranhamente, não estão elencados no “conjunto inicial” as empresas Omatapalo, Mitrelli, Carrinho e Gemcorp, as quatro “meninas de olhos de ouro”, as quais o Titular do Poder Executivo adjudica empreitadas públicas por ajuste directo.

A preocupação com a resolução das questões do saneamento básico tem dominado, aliás, a agenda do novo governador de Luanda, o engenheiro Manuel Homem”. 

Aos 43 anos e Engenheiro Informático de formação, Manuel Gomes Homem é o 24º governador de Luanda. O primeiro, Pedro Fortunato Manuel, (1976-77) não aqueceu o lugar. Foi morto pelo próprio MPLA na refrega do 27 de Maio. A última, Ana Paula Chantre Luna de Carvalho, deixou o governo de Luanda, poucas semanas antes das eleições de Agosto, com a menor nota de sempre. Pelo meio, Luanda teve governadores como Rui Óscar de Carvalho (1993-94) e Aníbal Lopes Rocha (1997-2002), aos quais não foi dado tempo e dinheiro para executar as suas aplaudidas ideias. Ambos sucumbiram a intrigas, muito apreciadas e encorajadas no MPLA.

Quando lhe deu posse, no dia 29, o Presidente da República não impôs a Manuel Homem um contrato-promessa, com o cronograma das acções a realizar e respectivos custos.

Entregue à própria sorte, o antigo ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social está, agora, às apalpadelas, tentando identificar onde e quando dar o “tiro de largada” rumo à satisfação das veementes ordens do Chefe.

No derradeiro mandato, cuja contagem decrescente começou exactamente no dia em que foi investido, não se sabe se João Lourenço tem, agora, uma varinha mágica que há de lhe permitir dar soluções a problemas que se agravam desde que o MPLA tomou o poder em Angola, já lá vão 47 longos e penosos anos.

Há pouco mais de uma semana – e não se sabe se isso faz parte do “paradigma” do último mandato – três antigos governadores do Kwanza Sul juntaram-se ao actual num restrito festim pretensamente destinado a diagnosticar os problemas da província e propor-lhes soluções. Do festim, em que foram servidos o que Kwanza Sul tem de melhor em mariscos, “empurrados” por vinhos das melhores castas e não aquela mistela que o general Higino Carneiro se gabava de produzir na sua Fazenda Kabuta, cada um dos quatro “artistas” saiu com ideias diferentes. A jornalistas, nenhum deles espelhou visão que coincidisse com a dos outros.  

Sem um programa de acção concreto e, seguramente, sem meios financeiros suficientes, João Lourenço atirou aos braços de Manuel Homem a mais quente de todas as batatas – governar Luanda. Mais ainda agora que ela, politicamente, deixou de ser feudo do MPLA.