E a Nova Energia?

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1.   Historiador, Investigador, Escritor, Letrista, Músico e, sobretudo, a respeitável idade de Filipe Silvino de Pina Zau deveriam inibir o ministro da Cultura e do Turismo da execrável prática da bajulação, a qual, não poucas vezes, implica a distorção dos factos.

Em 2000, quando o Prémio Nacional de Cultura e Artes foi instituído pelo Governo, a Constituição da República de Angola não acolhia a figura de “Sua Excelência Presidente da República, na qualidade de Titular do Poder Executivo”.

O objectivo, muito evidente, de “colar” a criação do PNCA ao actual Presidente da República e Titular do Poder Executivo machuca gravemente a reputação de alguém que, entre vários títulos, reclama os de historiador e investigador.

Repete-se: qualquer aprendiz de historiador sabe que o actual Presidente da República não é o autor do Decreto Presidencial n.º 31/00, de 30 de Junho, que criou o Prémio Nacional de Cultura e Artes.

2.  Com a data de 14 de Outubro, o ministro da Cultura e do Turismo, através do Despacho nº 2, criou uma “Comissão Organizadora do Prémio Nacional de Cultura e Artes”, ao qual incumbiu, entre outras tarefas, “criar todas as condições necessárias para que o evento decorra na data prevista”, e, ainda, assegurar “a produção do spot televisivos e radiofónico sobre a realização do evento” e, também, assegurar “os pagamentos dos membros do júri” e, também, “apresentar a proposta de troféus/estatuetas e diplomas a serem entregues aos eventuais laureados (…)”.

3.  Quando no dia 14 de Outubro assinou o despacho que faz alusão “aos eventuais laureados”, o ministro da Cultura e do Turismo já tinha em sua posse a lista de todos os laureados, escolhidos por um júri que teve apenas duas reuniões, sendo que uma delas foi feita via zoom. A decisão do júri foi-lhe comunicada no dia 27 de Setembro. (E, já agora, sublinhe-se o facto de em apenas duas reuniões, o júri haver deliberado, possivelmente por unanimidade, sobre matérias tão diversas como Artes Visuais e Plásticas, Cinema e Audiovisual, Dança, Investigação em Ciências Sociais e Humanas, Literatura, Música e Teatro).

4.  Como todas, as decisões do Júri da edição 2022 do Prémio Nacional de Cultura e Artes geraram controvérsias. De todas elas, a mais “traumatizante” é a relativa ao vencedor da categoria de Música.

O escolhido, Mário Rui Silva, descrito como vencedor, cantor, compositor, professor e investigador, terá, com certeza, alguns méritos, mas não suficientes para suplantar os feitos da Nova Energia, a promotora do Show do Mês.

Nos últimos três anos, nenhum músico individualmente fez tanto pela música angolana como a Nova Energia. É o Show do Mês que tirou da indigência e recolocou na ribalta músicos que já estavam literalmente acabados.

Desde a sua primeira edição, em 2014, pelo palco do Show do Mês passaram todos ou quase todos os músicos angolanos de renome, residentes ou não no país. 

O Show do Mês resgatou da prateleira músicos como Filipe Mukenga, Jacinto  Tchipa, Gabi Moi, Jorge Rosa, Ricardo Lemvo, o próprio Filipe Zau, de quem poucos conhecem o lado musical, Lina Alexandre, Lípsia Raimundo, Carla Moreno, Paula Daniela Miranda, Clara Monteiro, As Gingas do Maculusso, Pedrito, Calabeto, Proletário, Carlos Baptista. Foi também pela mão do Show do Mês que regressam aos palcos músicos como António Paulino, Robertinho, Prado Paim ou Dina Santos. “Monstros” da música angolana como Bonga, Sam Mangwana, Valdemar Bastos, Paulo Flores, Mito Gaspar, Ruy Mingas, Elias dya Kimuezu voltaram a alimentar-nos espiritualmente graças a essa casa de promoção de música.

Por causa do Show do Mês, os angolanos voltaram a “ouvir” Teta Lando ou André Mingas, ambos já falecidos. Com o Show do Mês, conjuntos como os Jovens do Prenda, Kiezos, Banda Movimento, “artesões musicais” como Tolingas, Lito Graça ou Didi da Mãe Preta, Kyaku Kyadaff e outros provaram que a música angolana está viva e recomenda-se.

O Show do Mês provou que sons e ritmos como os Orquestra Kaposoka, agora Camerata, podem conviver com as batidas de Kituxi & seus Acompanhantes.

Em quê outro palco Teddy Singi tem se afirmado como um dos maiores solistas angolanos de todos os tempos? É no Show do Mês que Angola ficou a saber que “miúdos” como Mário Gomes, Texas, York Spin, Sankara, Mayo Bass garantem o futuro do solo tipicamente angolano.

Em 2020, quando os angolanos ficaram trancafiados em casa por causa da Covid-19, sem o consolo e conforto dos “Lives” musicais promovidos pela Nova Energia e transmitidos pela TPA, muitos angolanos teriam sido tomados pela depressão. 

5.  Por todas essas razões e as muitas não enumeradas, a Nova Energia teria sido a mais justa vencedora do Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de música. Angola testemunhou, sem dúvida, mais um caso de flagrante injustiça.

As decisões de um júri incidem sobre factos e realidades conhecidos e vividos pelas pessoas. A premiação de Mário Rui Silva, na categoria de música, é uma daquelas decisões que deixe o grande público convencido que o júri decidiu sobre uma realidade imaginária. 

A escolha desse músico é a comprovação da existência, no país, de uma pequena e atrevida elite convencida de que a generalidade dos cidadãos deve acompanhar-lhe nos  seus “refinados” gostos e até nos caprichos.

No domínio da dança, distinguir a Companhia de Dança Contemporânea da ZAP em detrimento, por exemplo, do Vindjomba, um grupo folclórico do Namibe, é um verdadeiro escárnio à cultura nacional.

A cultura, nas suas multifacetadas vertentes, mas nomeadamente na música e na dança, tem de ser entendida e aceite como factor de integração social. Os angolanos, a maioria deles, têm de se rever naqueles que são escolhidos como seus representantes. 

8. Como nota final, registe-se, também, a extraordinária “versatilidade” da presidente do Prémio Nacional de Cultura e Artes. Nos áureos tempos de empresário de Armindo César, presidia-lhe o Prémio Maboque de Jornalismo. De Maria José Ramos, de quem não se conhece uma composição, uma letra ou um arranjo musical, é o que se poderia dizer que é pessoa de sete ofícios…

Tradicionalmente, o Prémio Nacional de Cultura e Artes é entregue nos dias que antecedem o 11 de Novembro, data da proclamação da independência nacional.